Gráfico: Correlação entre quantidade de leitos complementares e IDH das Superintendências e Gerências Regionais de Saúde de Minas Gerais

Fonte: Leitos complementares: Ministério da Saúde – Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde do Brasil – CNES; dados de fev/2020. IDH: PNUD Brasil; dados de 2010.

Na última publicação deste blog, mostramos como a incidência de fatores agravantes de saúde ou doenças crônicas (doenças renais, diabetes, hipertensão, problemas cardiovasculares, entre outros) é bem maior entre a população socioeconomicamente mais vulnerável – e não unicamente entre os idosos. Ou seja, tendencialmente serão os mais vulneráveis que sofrerão com mais gravidade as consequências da doença e serão suas principais vítimas. Agora, continuaremos mostrando como não existe uma contradição entre combater a pandemia e proteger os mais vulneráveis, mas sob outra perspectiva, a da oferta dos serviços especializados de saúde (UTI, semi intensivos etc.), que também é desigualmente distribuída no território. O gráfico acima ilustra esta desigualdade em Minas Gerais.

O gráfico mostra a quantidade de leitos especializados do SUS para cada 100 mil habitantes das microrregiões de saúde de Minas Gerais, de acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M)[1] médio dos municípios que compõem cada microrregião. E mesmo apenas visualmente já é possível perceber a tendência geral indicada pelo gráfico: quanto mais precárias as condições de vida da população em uma região, piores as condições do sistema de saúde para atendê-los.

Ou seja, de um lado, a população mais pobre e vulnerável tende a sofrer mais severamente a pandemia de Covid-19 e demandar mais o sistema de saúde; de outro lado, é justamente naquelas regiões com populações mais vulneráveis que os serviços de saúde encontram-se menos preparados para enfrentar a pandemia e atender à população. As consequências desta conjunção nefasta de fatores já começam a ser perceptíveis. Reportagem recente do G1 (2020) mostra que, entre aqueles infectados na primeira onda de contaminação, os negros representavam 23% dos hospitalizados, mas quase 33% dos óbitos. No caso dos brancos, ocorria o oposto: eram 74% dos hospitalizados e 64,5% dos óbitos. Da mesma forma, a desigualdade territorial revela a distribuição desigual dos riscos entre diferentes grupos. Na cidade de São Paulo, por exemplo, em que pesem os problemas de subnotificação, a letalidade (número de mortes em relação aos infectados) era de 5% no Butantã, região de maior nível socioeconômico, mas alcançava mais de 30% nas periferias, como Casa Verde, Sapopemba ou Freguesia do Ó (TALARICO; VELOSO, 2020).

Na próxima nota, abordaremos os eventuais impactos do isolamento social na economia. 

[1] O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) é uma medida composta de indicadores de três dimensões do desenvolvimento humano: longevidade, educação e renda. O índice varia de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1, maior o desenvolvimento humano.

Referências bibliográficas:

Coronavírus é mais letal entre negros no Brasil, apontam dados do Ministério da Saúde. G1. 11 abr. 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/04/11/coronavirus-e-mais-letal-entre-negros-no-brasil-apontam-dados-do-ministerio-da-saude.ghtml

TALARICO, Paulo; VELOSO, Lucas. Letalidade da Covid-19 em periferias de SP é cinco vezes maior que a média do Brasil. Agência Mural. 23 abr. 2020. Disponível em: https://www.agenciamural.org.br/letalidade-da-covid-19-em-periferias-de-sp-e-cinco-vezes-maior-que-a-media-do-brasil/

Autores: Bruno Lazzarotti, pesquisador na Fundação João Pinheiro, e Luísa Filizzola, graduanda em Administração Pública na Fundação João Pinheiro.

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