Dando continuidade às análises elaboradas a partir do recém lançado relatório “Síntese de Indicadores Sociais: Uma análise das condições de vida da população brasileira”[1], do IBGE, esta nota aborda a distribuição de rendimentos no país. A importância desse assunto não é novidade para nós: o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, e não vem apresentando melhoras nesse quesito nos últimos anos. De acordo com levantamento de dados feito pelo Banco Mundial (World Bank)[2] em 2020, o Brasil figura como o 9º país mais desigual entre os 164 países selecionados, atrás apenas de Moçambique, Suazilândia, República Centro-Africana, São Tomé e Príncipe, Zâmbia, Suriname, Namíbia e África do Sul.

O gráfico 1 mostra o índice de Gini[3] do Brasil e das grandes Regiões do país entre 2012 e 2019. Dele, infere-se que a partir de 2012 (0,540), primeiro ano da série, houve uma queda da desigualdade do rendimento domiciliar per capita no Brasil que dura até o ano de 2015 (0,524), menor índice da série. A partir de 2015, a desigualdade no país passa a aumentar, tendência esta que se mantém até 2018. Em 2019, o índice de Gini do rendimento domiciliar per capita do Brasil foi de 0,543, recuando em relação a 2018 (0,545), mas representando um aumento em relação a 2012 e a 2015. Ou seja, houve uma melhora tímida no índice – que pode ser explicada pelo componente cíclico da economia, que apresentou pequeno aquecimento após grave recessão –, mas que ainda é um regresso em relação a anos relativamente recentes.   

Já no nível das Grandes Regiões brasileiras, em todos os anos a Região Sul é aquela com menor desigualdade de rendimentos (0,467 em 2019), em contraste com a Região Nordeste, cujo Gini foi de 0,559 em 2019. Esta última foi a Região que apresentou maior crescimento percentual do indicador entre 2012 e 2019 (2,4%) e a única a apresentar crescimento percentual em relação ao ano anterior (2,5%) (Gráfico 1).

Gráfico 1: Coeficiente de Gini, segundo as Grandes Regiões – 2012-2019

Fonte: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2012-2019.

Outra forma de medirmos a desigualdade de rendimentos é olhando para a sua distribuição entre os segmentos da população. Em 2019, os 10% com menores rendimentos detinham apenas 0,8% do rendimento domiciliar per capita total. Se comparado com a participação desse mesmo em grupo no rendimento total em 2015, verifica-se perda 24,6% de participação (1,1% para 0,8%).  Já os 10% com maiores rendimentos detinham 42,9% do rendimento total em 2019. Aumentando ainda mais o zoom na camada mais rica da população, verifica-se que os 5% mais ricos detinham 30,6% do total do rendimento domiciliar per capita em 2019 – este grupo aumentou sua participação no rendimento total em 5,3% entre 2015 e 2019 (29,1% para 30,6%).

Estudo de Marcelo Neri para a Fundação Getúlio Vargas[4] confirma o aumento expressivo da desigualdade a partir do final de 2014 até 2019: a renda dos 10% mais pobres caiu 17%, enquanto a do 1% mais rico cresceu 10%. Segundo Neri, a piora na desigualdade e na renda a partir de 2015 pode ser explicada, primeiramente, pela elevação do desemprego devido à crise econômica financeira iniciada em 2014. Além disso, houve o aumento da importância do fator educação na definição da renda – havendo menos empresas contratando e demandando trabalho e mais pessoas procurando, quem tem mais experiência e anos de escolaridade acaba se saindo melhor do que quem não tem. Ainda, a redução das jornadas de trabalho e as crises na rede de proteção social contribuíram para a queda da renda das camadas mais pobres.

O gráfico 2 mostra que a população negra compõe a base dessa pirâmide de renda e, portanto, sofre mais com o aumento da desigualdade no país. Na participação no rendimento total por cor/raça, embora em 2019 a distribuição geral da população brasileira tenha sido de 42,7% para a população branca e 56,3% para a população preta e parda, esta estava sobrerrepresentada entre os 10% com menores rendimentos, compondo 77% desse grupo. No outro extremo, entre os 10% com maiores rendimentos, a população branca era maioria (70,6%).

Gráfico 2: Distribuição percentual da população, por cor ou raça, segundo as classes de percentual de pessoas em ordem crescente de rendimento domiciliar per capita – Brasil – 2019

Fonte: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2019.

O que os dados analisados mostram é que houve uma escalada da desigualdade de renda no Brasil entre 2015 e 2018, com uma leve reversão desse crescimento no ano passado, como indicado pela queda do índice de Gini em 2019 em relação a 2018. Contudo, a pandemia certamente constitui um grave golpe na economia do país e, também, na desigualdade de renda, visto que afeta mais os mais pobres, como já mostramos em outras oportunidades neste blog, o que indica para a necessidade de reforço da rede de proteção social e retomada da ampla garantia dos direitos trabalhistas no país.

[1] Síntese de indicadores sociais: uma analise das condições de vida da população brasileira: 2020 / IBGE, Coordenação de População e Indicadores Sociais. – Rio de Janeiro: IBGE, 2020. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=2101760

[2] DISTRIBUTION of income or consumption. In: WORLD BANK. World development indicators. Washington, DC, [2020]. tab. 1.3. Disponível em: http://wdi.worldbank.org/table.

[3] O Índice de Gini mede o grau de concentração de renda em determinado grupo e varia de 0 a 1, sendo 0 uma situação de completa igualdade, e 1 uma situação de completa desigualdade.

[4] NERI, Marcelo. A escalada da Desigualdade – Qual foi o impacto da crise sobre a distribuição de renda e a pobreza? FGV Social, ago, 2019. Disponível em: https://www.cps.fgv.br/cps/bd/docs/A-Escalada-da-Desigualdade-Marcelo-Neri-FGV-Social.pdf

Autora: Luísa Filizzola, graduanda em Administração Pública na FJP, sob orientação de Bruno Lazzarotti, pesquisador na FJP.             

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