O Índice de Gini, também conhecido como coeficiente de Gini, é uma medida estatística que permite medir a desigualdade econômica em uma determinada população. O nível de disparidade de renda é representado por valores que variam entre zero e um (também pode ser representado entre zero e cem), sendo zero parâmetro para uma situação de completa igualdade em que todos indivíduos recebem os mesmos rendimentos, enquanto um (ou cem) refere-se a uma situação de completa desigualdade em que apenas um indivíduo detém toda renda do grupo analisado. Nesse sentido, quanto menor o coeficiente de Gini, menor a disparidade de renda entre os indivíduos da sociedade. 

Segundo dados do Banco Mundial, nas regiões da África Subsaariana e da América Latina se encontram os países mais desiguais do planeta, conforme pode ser observado no Gráfico 1.Dentre o top 10 das nações com maior coeficiente de Gini, em 2015, o Brasil ficou na 4° posição, o que já é de se esperar, visto que desde 1981 (ano com registros mais antigos obtidos pelo Banco Mundial), o país sempre esteve acima da marca de 0,5 no índice Gini, demonstrando a persistência histórica da desigualdade econômica brasileira. (BANCO MUNDIAL, 2015)

Gráfico 1 – Países com os maiores índices de Gini no mundo

Fonte: Banco Mundial, 2015.

Entretanto, esse indicador não é homogêneo nas localidades subnacionais: os valores registrados nas metrópoles brasileiras demonstram níveis extraordinários e sem precedentes na desigualdade de renda com recentes inclinações para o agravamento da disparidade econômica entre pobres e ricos. A partir dos dados da PNAD Contínua, analisados entre os períodos do 4° trimestre de 2012 e o 4°trimestre de 2020, é revelado uma tendência quase ininterrupta já na primeira metade de 2015 de crescimento do coeficiente de Gini médio das regiões metropolitanas brasileiras, atingindo seu maior pico histórico no 4° trimestre de 2020, quando a média móvel do índice de Gini das metrópoles nacionais¹ chegou a 0,631, valor quase 4% superior ao registrado no período de apenas 12 meses anteriores. 

Gráfico 2 – Evolução da média móvel do Coeficiente de Gini do conjunto das regiões metropolitanas do Brasil (Valores constantes, 4° trimestre de 2020/IPCA)

Fonte: Boletim Desigualdade das Metrópoles, 2021

Como os 22 conjuntos metropolitanos analisados na pesquisa² abrigam aproximadamente 40% da população brasileira, constituíram aquelas áreas mais atingidas pela Covid-19,  o que representou também consequências desastrosas para a economia, com a perda de postos de trabalho em diversos setores. Com exceção de Macapá, no Norte, Natal e Salvador, no Nordeste, e o Vale do Rio Cuiabá, no Centro-Oeste, todas as outras metrópoles regionais brasileiras registraram avanços substanciais em seus coeficientes de Gini ao se comparar o último trimestre de 2019 com o último trimestre de 2020.

Cabe destacar que no estudo do Observatório das Metrópoles são trabalhados os dados trimestrais da PNAD contínua, com uso dos valores da renda domiciliar per capita do trabalho, único dado de rendimento domiciliar relativo a 2020 disponível até o momento. Ao restringir a análise a esta dimensão, a precisão dos resultados se torna menor, visto que apenas a parcela dos rendimentos do trabalho  são levados em consideração, não sendo contabilizadas outras fontes de renda, como as transferências governamentais, aposentadorias, Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada, que são mais direcionados aos segmentos mais vulneráveis da população. Logo, a desigualdade calculada somente a partir desta fonte de rendimentos tende a ser maior do que a desigualdade calculada a partir dos rendimentos totais. Apesar disto, como cerca de dois terços da renda domiciliar são geralmente constituídos pela renda do trabalho, o comportamento deste tipo de rendimento é um sinalizador muito importante das tendências de piora das condições de bem-estar das famílias.

A partir do exposto, se o aumento do desemprego nos períodos de pandemia significou uma piora no nível de desigualdade, há, portanto, um alargamento no vale entre ricos e pobres, ou seja, enquanto para uma parte da sociedade o que tem ocorrido é o processo de degradação de seus rendimentos para a outra a lógica é inversa, seus rendimentos crescem abruptamente. O gráfico relacionado à Taxa de Desemprego entre 2012 e 2020, mesmo agregando dados na escala nacional, serve como parâmetro para inferir a relação entre a taxa de desemprego e a evolução média móvel do coeficiente de Gini. Em ambos os gráficos a linha traçada seguiu na mesma direção, com contornos similares, indicando que quando o desemprego aumenta, a desigualdade de renda também tende a crescer, o que mostra certo grau de correlação entre ambos indicadores.

Gráfico 3 – Taxa de desocupação de 2012 a 2020, por trimestre

Fonte: IBGE, 2021

De modo geral, a tendência nos últimos trimestres foi de crescimento no nível de desigualdade em todas zonas metropolitanas. No entanto, a depender da região esse impacto se apresentou em diferentes proporções. As metrópoles da região nordeste são marcadas pelo seu maior nível de desigualdade e tendem ao crescimento contínuo, como João Pessoa, na Paraíba, que passou de 0,668 para 0,731 no coeficiente de Gini nos quatro primeiros trimestres de 2020, o que significou, portanto, um crescimento de 9,4% na desigualdade local em apenas um ano. No outro lado país, a região Sul se destaca pelo seu baixo nível de desigualdade quando comparada às demais localidades, normalmente, com coeficiente de Gini abaixo dos 0,6. Entretanto, as metrópoles sulistas também registram um crescimento volumoso no Gini a partir de 2020. Em um ano, Curitiba registrou um crescimento na desigualdade de quase 6% atingindo 0,593 no Gini do 4°trimestre de 2020, enquanto o Gini de Florianópolis aumentou em mais de 7% e Porto Alegre se tornou a primeira metrópole do Sul a ultrapassar a marca de 0,6 no coeficiente de Gini desde o último trimestre de 2019. As regiões Sudeste e Centro-Oeste que já eram marcadas pelo elevado nível de desigualdade ficaram ainda mais pronunciadas, com destaque para o Rio de Janeiro que atingiu 0,685 no último trimestre de 2020.

O resultado geral é preocupante e demonstra a fragilidade e incapacidade das medidas emergenciais da administração governamental em contornar os efeitos da crise sanitária da Covid-19. Por outro lado, o debate acerca do aumento repentino da desigualdade de renda nas metrópoles brasileiras não pode se centrar apenas nas questões relacionadas a pandemia de 2020, o crescente vale entre ricos e pobres já era um fenômeno presente nos últimos anos e as consequências da Covid-19 apenas tornaram mais largas e claras as desigualdades presentes nos grandes centros nacionais.

¹ A média móvel é calculada a partir  da média dos resultados obtidos durante determinado período. 

² O IBGE considera apenas 20 Regiões Metropolitanas (Manaus, Belém, Macapá, Grande São Luís, Fortaleza, Natal, João Pessoa, Recife, Maceió, Aracaju, Salvador, Belo Horizonte, Grande Vitória, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Vale do Rio Cuiabá e Goiânia), porém na pesquisa feita pelo Observatório das Metrópoles foram considerados também os dados do Distrito Federal e a Região Administrativa Integrada de Desenvolvimento da Grande Teresina.

 

Post elaborado por Guilherme dos Reis Leão Costa – extensionista do Observatório das Desigualdades – com a supervisão de Bruno Lazzarotti Diniz Costa.

*O Observatório das Desigualdades é um projeto de extensão. O conteúdo e opiniões expressas não refletem necessariamente o posicionamento da Fundação João Pinheiro ou do CORECON-MG.

 

Referências:

Gini index (World Bank estimate) | Data. [s.d.]. Disponível em: https://data.worldbank.org/indicator/SI.POV.GINI?end=2006&start=1967. Acesso em: 4 jun. 2021.

DESIGUALDADE NAS METRÓPOLES 4° Trimestre de 2020 . Porto Alegre. Disponível em: https://www.observatoriodasmetropoles.net.br/. Acesso em: 4 jun. 2021.

Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD Contínua | IBGE. [s.d.]. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/9173-pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios-continua-trimestral.html?=&t=series-historicas&utm_source=landing&utm_medium=explica&utm_campaign=desemprego. Acesso em: 4 jun. 2021.

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