Quem acompanha o Observatório das Desigualdades com mais frequência percebe o quanto o projeto se empenha em escrever sobre temas variados. Este ano, por exemplo, já foram publicados posts sobre a simbologia do dia dos trabalhadores, sobre vacinação, indicadores sociais… diversos tópicos que, seja com base em notícias mais recentes ou em análises gerais, buscam sempre englobar prismas de interesse social. Tendo o Observatório este nome tão característico, porém, não poderíamos deixar de produzir conteúdo quando um relatório sobre riqueza global e desigualdade é lançado. Então, rufem os tambores, leitoras e leitores: mais uma vez o Observatório das Desigualdades escreverá sobre a desigualdade. E, ao que tudo indica, parece que discutir esse tema nunca foi tão necessário.

No dia 21 de junho, o Credit Suisse – banco suíço de investimentos – publicou o que denominou, em tradução livre, de “uma análise abrangente acerca da riqueza familiar global disponível”1. O objetivo do relatório deste ano (o Credit Suisse faz publicações anuais do tipo) é adentrar mais profundamente no universo da pandemia da Covid-19, demonstrando quais foram seus impactos econômicos após mais de um ano de início e efeitos contínuos. O documento demonstra também a reação, face às alterações produzidas na economia e na acumulação/distribuição de capital, dos formuladores de políticas públicas em suas respectivas áreas de atuação  (CREDIT SUISSE, 2021).

Mas antes da exposição específica sobre o relatório, é importante trazer a diferença entre dois conceitos importantes nesse texto: riqueza e renda. A riqueza representa os itens de valor econômico que um indivíduo possui e acumulou. A renda é um valor que o indivíduo recebe em um período de tempo, pago a ele pelo que está aplicado à produção, o salário, as aplicações. Em uma exemplificação simples, a minha renda é composta pelo meu salário — que recebo mensalmente —, enquanto minha riqueza é o que tenho acumulado, guardado na poupança.

A América Latina, como aponta o Credit Suisse, é a região do mundo mais atingida pelos impactos da pandemia na área da saúde, e a análise do relatório se centra no Brasil, no México e no Chile. Apesar de suas diferenças econômicas – os dois primeiros países são as maiores economias e os maiores contingentes populacionais da região, enquanto o terceiro tem apresentado, em contraste com uma menor economia, um dinamismo característico – a interseção entre as três nações consiste no período conturbado pelo qual passaram na primeira onda da pandemia, em 2020: todas as três apresentaram taxas de infecção pela COVID-19 acima das taxas latinoamericanas e ainda mais acima das taxas globais.

            A partir da segunda onda e também durante a terceira, no entanto, a homogeneidade do cenário muda um pouco de figura. Prossegue o relatório que, nesse período, o Brasil e o México se destacaram ainda mais tanto em relação ao mundo como à América Latina, enquanto o Chile foi menos afetado desde a metade do ano passado. O gráfico a seguir demonstra a narrativa dos últimos parágrafos ao retratar os números das mortes semanais por COVID-19 de fevereiro de 2020 a maio de 2021.

 

Gráfico 1: Mortes semanais por COVID-19 no Brasil, Chile e México, por milhão de habitantes

Fonte: The Global Wealth Report, 2021

 

            Como já mencionado, os impactos econômicos da pandemia foram gerais, e se manifestaram inclusive nos três países acima. Mas como isso se refletiu no Brasil, mais especificamente?

O Brasil é hoje a 12ª maior economia do mundo2, com um PIB que supera 1,4 trilhões de dólares. No entanto, o Índice de Gini do Brasil continua sendo um dos maiores do mundo, o Brasil é, especificamente, o 8º país mais desigual do mundo3. O que o relatório do Credit Suisse vem nos mostrar é especificamente isso, a concentração de riqueza e a desigualdade nos países do globo.

Primeiro, deve-se entender que a concentração de riqueza e renda são expressões diretas da desigualdade. O Brasil ser tamanha expressão de desigualdade é o que reflete nos dados do gráfico 2, que mostra o acúmulo de riquezas dos 1% mais ricos da população. No Brasil, essa parcela da população (1% mais ricos) concentra em si 49,6% de toda a riqueza do país. Em comparação com os outros países analisados, o Brasil tem o segundo maior índice de concentração de riqueza, sendo superado apenas pela Rússia.

 

Gráfico 2 – Porcentagem de riqueza dos 1% mais ricos, países selecionados

Fonte: The Global Wealth Report, 2021. Elaboração própria.

 

Uma análise da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal5 vem acrescentar a esses dados. Essa análise mostra que ‘30% dos bens e direitos líquidos declarados no IRPF são detidos por apenas 220.220 contribuintes’, ou seja, 30% dos bens declarados ao Imposto de Renda são de 1% da população, cujos contribuintes têm renda mensal de 80 a mais de  320 salários mínimos.

Analisando a concentração de renda, o Brasil é o vice-campeão mundial, atrás apenas do Catar. Os relatórios dos Grandes Números das DIRPF6, de 2007 a 2018, mostram que  os contribuintes com rendas mensais superiores a 320 salários mínimos, chegam a ter perto de 90% de suas rendas isentas de tributação. Por isso fala-se tanto de taxação de grandes fortunas.

Na pandemia vê-se escancarada a realidade desses dados. O ranking dos Bilionários de 2021, divulgado pela Revista Forbes em Abril, mostrou que o número de bilionários brasileiros aumentou 44%, de 45 para 65 entre 2020 e 2021. A riqueza concentrada nesse seletíssimo grupo também aumentou no período, de 127,1 para 219,1 bilhões de dólares. Percebe-se que o grupo, mesmo diante da crise econômica, das milhares de mortes conseguiram aumentar suas fortunas7.

O que é ainda mais estarrecedor é que a riqueza desse grupo equivale a quase 5x o valor que foi dedicado ao auxílio emergencial em 2020: 293 bilhões de reais. Quando se pensa o número de pessoas atendidas pelo benefício — aproximadamente 68,2 milhões — vê-se escancarada a pirâmide social brasileira e a discrepância de rendimentos, riqueza e padrão de vida entre as classes.

Tudo isso só mostra que enquanto muitas pessoas voltavam para a extrema pobreza, a fome aumentava, a parcela mais rica da população aumentava suas riquezas. Novamente, a desigualdade se coloca como propiciadora dos problemas sociais do país e como um dos principais obstáculos para o desenvolvimento brasileiro.

 

Autores: Alexandre Henrique e Augusta Cora, sob orientação de Bruno Lazzarotti

 

*O Observatório das Desigualdades é um projeto de extensão. O conteúdo e as opiniões expressas não refletem necessariamente o posicionamento da Fundação João Pinheiro ou do CORECON – MG.

 

Referências

[1] https://www.credit-suisse.com/about-us/en/reports-research/global-wealth-report.html

[2] https://www.dci.com.br/economia/maiores-economias-do-mundo-de-acordo-com-o-pib/139440/

[3] https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/12/15/brasil-tem-a-8-pior-desigualdade-de-renda-e-supera-so-paises-africanos.htm

[4] https://www.cartacapital.com.br/economia/concentracao-de-renda-mostra-brasilianizacao-do-mundo/

[5] https://unafisconacional.org.br/concentracao-de-renda-no-brasil-nao-pode-ser-entendida-olhando-o-1-da-populacao/

[6] https://www.brasildefators.com.br/2021/03/03/estudo-prova-que-riqueza-concentrada-decorre-de-impostos-nao-cobrados

[7] https://www.brasildefato.com.br/2021/04/06/enquanto-fome-avanca-numero-de-bilionarios-cresce-no-brasil-e-seu-patrimonio-dobra

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