Desde 2014, o Brasil vem enfrentando uma severa crise econômica, cujas consequências aos brasileiros e brasileiras se estabeleceram das maneiras mais diversas. Apesar de tal afirmação poder ser corroborada pela observação empírica do cidadão médio, dados como os do Instituto Brasileiro de Demografia e Estatística (IBGE) são capazes de averiguar com mais precisão a intensidade e a profundidade do evento ao longo do tempo. Aponta-se, por exemplo, o decréscimo sofrido pelo PIB nos anos de 2015 e 2016, acompanhado por pequeno crescimento em 2017 (1,3%), em 2018 (1,8%) e em 2019 (1,4%). Já em 2020, houve uma retração de 4% neste índice.

 

Gráfico 1 – Série histórica do PIB brasileiro (2010-2020)

Fonte: IBGE, 2021. Elaboração própria

 

A queda da economia em 2020 pode ser vista como resultado direto da pandemia, pois houve a necessidade da paralisação parcial das atividades de comércio a partir de março de 2020 devido ao risco de transmissão do coronavírus. Assim, o poder público teve que impor restrições à circulação de pessoas, por intermédio da referida paralisação. Ademais, muitas pessoas deixaram de sair às ruas por medo do contágio pela Covid-19 e, consequentemente, diminuíram seu consumo.

Com isso, houve menos dinheiro circulando na economia, e muitas empresas foram obrigadas a reajustar suas contas. Fato que implicou, muitas vezes, em demissão de funcionários. Assim, o desemprego atingiu níveis recordes; consequentemente, houve redução da renda de milhares de brasileiros, o que acarretou no incremento da insegurança alimentar no Brasil. 

De acordo com Vasconcellos e Moura (2018), segurança alimentar consiste:

(…)na realização do direito ao acesso a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer outras necessidades essenciais. Pressupõe-se que seu alcance implique a convergência de políticas e programas de vários setores com capacidades para promover, na dimensão individual e coletiva, o acesso à alimentação adequada, requerendo um amplo processo de descentralização, territorialização e gestão social. (VASCONCELLOS E MOURA, 2018, p. 2).

 

Dessa forma, a insegurança alimentar se configura em um cenário no qual as pessoas não possuem acesso à quantidade e qualidade suficientes de alimentos. 

Além do que pode inferir o encadeamento de fatores citados, análises acadêmicas embasadas e recentes chegam à mesma conclusão. Segundo pesquisadores do Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça: Poder, Política e Desigualdades Alimentares na Bioeconomia, com sede na Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, em parceria de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade de Brasília (UnB), de fato houve um agravamento no quadro de insegurança alimentar no país durante a pandemia. De acordo com a referida pesquisa, 59,4% dos domicílios brasileiros relataram estar vivendo algum nível de insegurança alimentar.

A pesquisa foi realizada entre novembro e dezembro de 2020 e foi desenvolvida com uma amostra de duas mil pessoas. Destas, 31,7% relataram estado de insegurança alimentar leve (quando há preocupação com a falta de alimentos ou a escolha e qualidade destes fica comprometida); 12,7%, moderada (quando há a falta ou redução da quantidade de alimentos entre moradores adultos) e 15,0%, insegurança alimentar grave (quando a falta ou redução da quantidade de alimentos se estende às crianças do domicílio).

Outro dado importante refere-se ao fato de que que a insegurança alimentar é mais grave em lares chefiados por mulheres (73,8,%), por pessoas de cor parda (67,8), preta (66,8%), com crianças de até 4 anos (70,6%), mais pobres (71,4% entre domicílios com renda per capita de até R$ 500,00), localizados nas regiões Nordeste (73,1%), Norte (67,7%) ou em áreas rurais (75,2%). Logo, as desigualdades de gênero, etnia e território ficam, mais uma vez, explícitas.

 

Imagem 1 – Principais resultados: efeitos da pandemia na alimentação e na situação de segurança alimentar no Brasil

Fonte: GALINDO et al (p. 01), 2021.

 

Imagem 2 – Segurança alimentar e desigualdades regionais

Fonte: GALINDO et al (p. 01), 2021.

 

Outrossim, os entrevistados também foram perguntados sobre o consumo de alimentos antes e depois da pandemia. Os resultados indicaram uma redução na frequência de consumo de alimentos saudáveis durante a pandemia, principalmente entre os grupos de alimentos: carne (44,0%), frutas (41,8%), queijos (40,4%), hortaliças e legumes (36,8%). O ovo foi o alimento que sofreu a menor redução (18%) e o maior aumento no consumo (17,8%) durante a pandemia. Entre os entrevistados em situação de insegurança alimentar, essa redução chegou a ser de mais de 85% dos alimentos saudáveis. 

Estes dados são muito preocupantes, dado que a substituição de alimentos saudáveis por outros com baixo valor nutricional pode acarretar em problemas de saúde como hipertensão arterial e diabetes, o que oneraria, ainda mais, os cofres públicos com despesas destinadas à saúde pública.

Diante disso, como a insegurança alimentar é algo que fere a dignidade humana e traz prejuízos sociais, é de suma importância que o poder público implemente políticas públicas que visem dirimir este problema, a exemplo do auxílio emergencial, que propiciou a muitas famílias, pelo menos, a alimentação. Outras políticas públicas devem focar na manutenção e geração de novos empregos, a fim de aumentar a renda dos brasileiros e reduzir os níveis de insegurança alimentar. 

 

Autora: Júlia Carolina Soares [graduanda em Administração Pública na Fundação João Pinheiro], sob a orientação do prof. Bruno Lazzarotti. 

*O Observatório das Desigualdades é um projeto de extensão. O conteúdo e as opiniões expressas não refletem necessariamente o posicionamento da Fundação João Pinheiro ou do CORECON – MG.

 

Referências bibliográficas

GALINDO, Eryka. et al. Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil. Berlin, 2021. Disponível em: https://refubium.fu-berlin.de/bitstream/handle/fub188/29813/WP_%234_final_version.pdf?sequence=2&isAllowed=y. Acesso em: 15 de set. de 2021. 

GALINDO, Eryka. et al. Infográficos. Disponível em: https://refubium.fu-berlin.de/bitstream/handle/fub188/29813/infográfico_port_9.pdf?sequence=4&isAllowed=y&save=y. Acesso em: 15 de set. de 2021.

IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Sistema de Contas nacionais trimestrais. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/contas-nacionais/9300-contas-nacionais-trimestrais.html?=&t=serieshistoricas&utm_source=landing&utm_medium=explica&utm_campaign=pib#evolucao-taxa. Acesso em: 15 de set. de 2021.

VASCONCELLOS, L.L.O.S; MOURA, L.B.A. Segurança alimentar e nutricional: uma análise da situação da descentralização de sua política pública nacional. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csp/a/zBLgfjqmvXSJKJhcLz8Gf4c/?lang=pt&format=pdf#:~:text=A%20seguran%C3%A7a%20alimentar%20e%20nutricional%20consiste%20na%20realiza%C3%A7%C3%A3o%20do%20direito,sem%20comprometer%20outras%20necessidades%20essenciais. Acesso em: 15 de set. de 2021. 

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