O dia 20 de novembro, como se sabe, representa o dia nacional da Consciência Negra. O Observatório das Desigualdades compreende que, para além da data, a luta por equidade é cotidiana e permanente, e por isso se esforça em trazer sempre debates sobre os extensos efeitos do racismo e da desigualdade racial, nas mais diversas dimensões da sociedade brasileira. No entanto, a visibilidade e a representatividade do dia também não podem ser deixados de lado. Por isso, para reafirmar este ideal e esta luta, ao longo desta semana o Observatório das Desigualdades publicará uma série de posts com dicas culturais – seja em formato de livros, músicas e produções audiovisuais – que apresentam importantes reflexões sobre as desigualdades raciais e os caminhos para sua superação. 

Iniciando esta série, este post lembra alguns livros e produções escritas sobre o tema, começando por uma produção recente, desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa Estado, Gênero e Diversidade (Egedi) da Fundação João Pinheiro. A obra é intitulada “Mulheres,  negras e gestoras: porque sim!” e foi organizado por Letícia Godinho e Renata Seidl. Se trata de um livro que faz parte da série Sempre-Vivas, uma coleção de biografias coletivas de mulheres. Neste livro, 14 mulheres compartilham conosco suas trajetórias de vida, luta e trabalho na Administração Pública. 

As mulheres que trazem suas histórias ao longo dos capítulos são: Macaé Evaristo, Larissa Borges, Nila Rodrigues, Daniela Tiffany, Patrícia Santana, Iara Viana, Maria do Carmo Ferreira (Cacá), Cleide Barcelos, Yone Gonzaga, Eliane Dias, Xica da Silva, Magda Neves, Cleide Hilda e Diva Moreira.  Ao relatarem suas trajetórias individuais e singulares, estas mulheres nos apresentam importantes mediações vivenciadas, com uma potente forma de resistência à elementos estruturantes e estruturais de nossa sociedade como o racismo e o patriarcado. 

Ler cada uma destas histórias, em sua potência, é uma grande contribuição deste livro, mas também é possível ver o entrelaçar dessas narrativas e a importância de construções coletivas, de resistência e luta nos mais diversos momentos das vidas dessas mulheres, que se inserem em um cenário de grande desigualdade, se observarmos os dados relativos ao serviço público no Brasil. Por exemplo, ao analisarmos o gráfico 1, que representa a remuneração líquida média mensal no Executivo Federal, fica evidente a grande desigualdade entre pessoas brancas e pessoas negras nesse sentido. 



Gráfico 1 – Remuneração líquida mensal no Executivo civil federal ativo, por raça (1999-2020)

Fonte: SIAPE/ME. Elaboração Atlas do Estado Brasileiro – IPEA



Este cenário de disparidade racial é ainda mais agravado quando pensamos especificamente nas mulheres negras, grupo que sistematicamente sofre com o racismo e o machismo de maneira simultânea no cotidiano. A série de três gráficos a seguir aponta para o percentual de pessoas ocupando cargos de Direção e Assessoramento superior (DAS) no executivo federal. O gráfico 2 representa o cenário para DAS 1, que representa uma menor remuneração, já o gráfico 3 para DAS 3, até o gráfico 4, com DAS 6, que representa o cargo com maior remuneração e status de decisório na estrutura organizacional. 



Gráfico 2 – Percentual de vínculos em funções de Direção e Assessoramento Superior (DAS), por sexo e cor ou raça (1999-2020) [DAS1]

Fonte: SIAPE/ME. Elaboração Atlas do Estado Brasileiro – IPEA



Gráfico 3 – Percentual de vínculos em funções de Direção e Assessoramento Superior (DAS), por sexo e cor ou raça (1999-2020) [DAS3]

Fonte: SIAPE/ME. Elaboração Atlas do Estado Brasileiro – IPEA



Gráfico 4 – Percentual de vínculos em funções de Direção e Assessoramento Superior (DAS), por sexo e cor ou raça (1999-2020) [DAS6]

Fonte: SIAPE/ME. Elaboração Atlas do Estado Brasileiro – IPEA

Observados os três gráficos, é possível perceber como o cenário é ainda mais desigual quando tratamos das mulheres negras, desde os cargos com menores remunerações, mas também nos mais favorecidos na hierarquia. Também chama atenção a grande proporção de homens brancos nos cargos DAS 6, o que demarca também a desigualdade de gênero no mercado, outro tópico a ser combatido em prol da equidade. 

Falar em relatos potentes de mulheres negras inevitavelmente traz à memória a história de Carolina Maria de Jesus, em “Quarto de despejo”. Por mais que o mote do livro seja algo intimista e cotidiano, da narração do dia a dia de uma catadora de papel emerge a força da crítica social imersa nestes relatos. Carolina, mais que narradora, é personagem principal de suas linhas, abordando a quão árdua pode ser a vida de uma mulher negra marginalizada socialmente. Por todo esse simbolismo e pela força de suas palavras, a obra é a segunda recomendação de leitura deste post. 

Retomando o livro “Mulheres,  negras e gestoras: porque sim!”, ao lermos as histórias dessas mulheres, muitas vezes nos deparamos com o fato de serem as únicas, ou primeiras mulheres a ocuparem determinados espaços, representando com suas histórias uma trajetória de vida forte. Mais que isso, porém, o que se vê são as marcas de uma corajosa resistência, assim como as da ancestralidade, das resistências no rompimento com práticas racistas e coloniais e da continuação da luta das mulheres que que as antecederam.  Indo de encontro a essa temática, apresentamos como dica os poemas de Conceição Evaristo, selecionando para este post, o poema “Vozes-mulheres”, que se encontra no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”.

A voz de minha bisavó

ecoou criança

nos porões do navio.

ecoou lamentos

de uma infância perdida.

A voz de minha avó

ecoou obediência

aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe

ecoou baixinho revolta

no fundo das cozinhas alheias

debaixo das trouxas

roupagens sujas dos brancos

pelo caminho empoeirado

rumo à favela.

A minha voz ainda

ecoa versos perplexos

com rimas de sangue

e fome.

A voz de minha filha

recolhe todas as nossas vozes

recolhe em si

as vozes mudas caladas

engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha

recolhe em si

a fala e o ato.

O ontem – o hoje – o agora.

Na voz de minha filha

se fará ouvir a ressonância

o eco da vida-liberdade.

Pensando neste ponto, e na importância de valorizarmos os mais diversos saberes, da centralidade da ação de práticas decoloniais, trazemos nossa última dica do post, que é um livro que foi bastante difundido ao longo do último ano, que se chama “Torto Arado”, escrito por Itamar Vieira Junior. Neste romance, temos como protagonistas Belonísia e sua irmã Bibiana, que narram momentos que viveram na fazenda Água Negra.

Nesta narrativa, as relações raciais se apresentam em um cenário que marca também um processo de luta pelo direito à terra, que no Brasil é marcada pela concentração fundiária, carregando em si um elemento estrutural racial, desde a escravização de pessoas negras, até a impossibilidade do acesso à terra, somada ao incentivo da vinda de imigrantes brancos europeus e a execução de práticas eugenistas, nos momentos posteriores à abolição. Sobre este tema, o Observatório das Desigualdades já produziu um post, que pode ser retomado: http://observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br/?p=1270.

Não era a intenção deste post realizar uma curadoria exaustiva, ou a análise dos livros citados, mas apontar possíveis leituras que nos auxiliam a reforçar a importância de desvelarmos as mais diversas faces do racismo que estrutura nossa sociedade e que é cotidianamente combatido, entre as histórias que se cruzam e se fortalecem. 

 

Autor: Matheus Arcelo

*O Observatório das Desigualdades é um projeto de extensão. O conteúdo e as opiniões expressas não refletem necessariamente o posicionamento da Fundação João Pinheiro ou do CORECON – MG.

 

1. O livro pode ser baixado em:  https://drive.google.com/file/d/1kBLMlfc9HHfrlqqOTBn3mmrRbnEwIy8q/view

Além disso, como parte integrante do livro, foi produzido o livreto “História da Malu”: https://drive.google.com/file/d/1F-2QXWjy8zVSFo-z38t5nbAxFmnqzdoA/view

 

IMAGEM DA CAPA: Dicas de ouro da semana: a literatura negra ganhando espaço!. Retirado do blog “Mundo Negro”. Disponível em https://mundonegro.inf.br/dicas-de-ouro-da-semana-literatura-negra-ganhando-espaco/. Acesso em: 17 de nov. 2021. 

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