O legado de Marília Mendonça e o combate ao machismo na indústria musical

Após dois meses da morte de Marília Mendonça em um trágico acidente aéreo que comoveu o Brasil, o legado deixado pela cantora e compositora continua a promover reflexões sobre a participação feminina na indústria cultural, além de inspirar mulheres por todo o país. Com isso, propõe-se uma discussão sobre os obstáculos enfrentados pelas mulheres para conseguir destaque no meio artístico e os possíveis caminhos para combatê-los.

O espaço da arte e da cultura está permeado pelas representações das características do contexto social em que se inserem. Nas diversas manifestações artísticas,  podem transparecer as marcas, os valores e também os preconceitos dos grupos que as produzem. No caso de uma realidade dominada por estruturas patriarcais e racistas, como a brasileira, as discriminações de sexo e de raça marcam toda a indústria cultural. A produção cinematográfica, por exemplo, revela altos níveis de desigualdade: entre os 20 filmes de maior bilheteria em cada ano de 2002 a 2014, apenas 5% do elenco principal era composto por mulheres negras [1]. Entre os diretores, os dados mostram uma desigualdade ainda maior, na medida em que nenhum dos filmes foi dirigido por uma mulher negra e apenas 14% deles foram dirigidos por mulheres brancas, de acordo com o infográfico abaixo, elaborado pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA-IESP-UERJ)[1]. 

 

Infográfico 1 – Raça e Gênero no Cinema Brasileiro (2002 – 2014)

Fonte: GEMAA-IESP-UERJ. Disponível em: <http://gemaa.iesp.uerj.br/infografico/raca-e-genero-no-cinema-brasileiro-2002-2014/>. Acesso em: 09 nov. 2021.

 

O cenário musical não é diferente: as desigualdades de gênero impõem obstáculos à participação feminina, invisibilizando, objetificando e desestimulando a produção musical por mulheres. A participação percentual das mulheres nesse mercado reflete essa situação: elas arrecadam apenas 9% da receita total da indústria musical[2]. Quando conseguem se inserir no meio, a discriminação sexual continua sendo um problema enfrentado por aproximadamente 84% das profissionais da música[2].

Para além da questão do gênero, a intersecção com outros preconceitos, como o racismo, o etarismo e a gordofobia, também contribuem para a exclusão, visto que, de acordo com o pesquisador José Dias, a mulher não é uma realidade monolítica e, portanto, essas questões são decisivas na inserção delas na música[1]. O racismo, somado à discriminação sexual, cria um duplo desafio para as mulheres negras, na medida em que, conforme os dados da pesquisa AmplifyHer[3], a dificuldade do acesso a recursos econômicos e a oportunidades é ainda mais intensa nesse caso.

Analisando os obstáculos e os fatores determinantes para a inserção da mulher no meio musical, o estudo AmplifyHer[3]busca entender, além da questão da etnicidade, os recursos econômicos, a gestão entre contexto pessoal e profissional, os papéis assumidos, a correspondência entre investimento e a posição conquistada, o uso da tecnologia e a promoção da mulher na música, a partir de entrevistas com 12 mulheres musicistas da cidade de São Paulo. O grupo escolhido é composto por números iguais de mulheres negras e brancas, além de incluir diferentes faixas etárias. Os resultados apontaram que, enquanto o acesso a recursos econômicos é um fator que favorece as mulheres brancas, para as mulheres negras, a falta de acesso impossibilitou, em algum momento, sua trajetória profissional, como demonstrado no infográfico abaixo. 

 

Infográfico 2 – O acesso a recursos econômicos foi determinante em sua trajetória profissional?

Fonte: AmplifyHer. Disponível em: <http://www.sonora.me/amplifyher-sp/>. Acesso em: 09 nov. 2021.

 

Outro fator identificado pelo estudo foi a dificuldade em gerir o contexto pessoal e profissional, tendo em vista a sobrecarga de atividades necessárias para se manter, agravada no contexto da pandemia do Covid-19. Nesse sentido, conciliar a maternidade com a profissão pode ser determinante na carreira, de modo que as participantes que não possuem filhos mencionaram a escolha como essencial para seu sucesso, enquanto a maternidade foi um impedimento no desenvolvimento da carreira de outras, que precisaram abrir mão de oportunidades por falta de parcerias em casa. A respeito do papel e da posição assumidos no meio musical, a maioria das participantes da pesquisa relataram que já foram menosprezadas e já tiveram suas capacidades contestadas em alguma situação, de modo que, para obter o mesmo reconhecimento, têm que trabalhar duas vezes mais em relação aos colegas homens, além de apresentarem dificuldade em chegar a cargos de chefia. Ademais, o medo de sofrer assédio sexual e moral nos ambientes de trabalho, agravado pela hiperssexualização das mulheres negras, também marca a posição das mulheres na indústria musical. Tal hiperssexualização e objetificação das mulheres representa, principalmente, um apagamento das capacidades e do trabalho dedicado à música, seguido de uma preocupação excessiva com as características físicas – determinadas por padrões de beleza – e da desvalorização da individualidade da artista. 

Toda essa desigualdade se manifesta também em um dos gêneros musicais mais populares no Brasil: o sertanejo. Esse estilo, historicamente dominado por homens, frequentemente apresenta representações conservadoras e machistas das mulheres, objetificadas ou associadas exclusivamente ao ambiente doméstico. Em oposição, enfrentando os paradigmas patriarcais do meio musical, o movimento do feminejo, protagonizado por mulheres, ganhou espaço entre os brasileiros nos últimos anos, principalmente com o sucesso de cantoras sertanejas, como Marília Mendonça. Apesar do movimento ter alcançado repercussão ainda maior com artistas mais recentes, esse espaço começou a ser conquistado na década de 1980, com cantoras como Roberta Miranda, as Irmãs Barbosa e as Irmãs Galvão[4]

Além de abrir novos caminhos para a inclusão das mulheres no meio musical, as produções do feminejo, como as letras de Marília Mendonça, revelam outra visão sobre a mulher, incluindo a mudança de comportamentos e a liberdade sexual. A construção dessa nova imagem da mulher[5], em um meio onde as visões masculinas predominaram por muito tempo, permite a percepção de valores relacionados à independência e ao empoderamento, ou seja, à participação social das mulheres. Nessa linha, a cantora Pitty descreve a contribuição de Marília Mendonça para o cenário musical feminino como “uma voz tão significativa, uma compositora, uma mulher que conta as suas próprias histórias, protagonista de suas próprias histórias. Ela trouxe isso de uma forma muito importante para todas as vozes femininas”[6]. Outra artista fundamental no cenário da música feminina, Elza Soares, também reforça a relevância da cantora na afirmação do respeito e do espaço merecido pelas mulheres[6]. Além das mudanças de comportamento, os direitos femininos também são temáticas comuns no feminejo, como no caso da música “Ele bate nela”, da dupla Simone e Simaria, que denuncia a violência doméstica[4]

Apesar dessa importante conquista de espaço, a discriminação sexual permanece como um desafio à participação feminina no cenário musical brasileiro, principalmente quando levadas em consideração, além das desigualdades econômicas e raciais, a objetificação e o assedio sexual. Marília Mendonça, por exemplo, enfrentou os estereótipos, os padrões de beleza e a gordofobia durante a carreira e, até mesmo após sua morte, seu corpo continuou como alvo de críticas e de julgamentos na mídia[7]. O assédio sexual, de acordo com a cantora Biahh Cavalcante, também causa sofrimento entre as mulheres no meio da música, principalmente em situações de maior exposição, como em viagens e apresentações[4]

A partir da análise dos desafios e da luta feminina pela participação e pelo respeito na indústria musical, percebe-se que ainda existe um longo caminho para a superação das desigualdades em tal meio. Nesse caminho, vozes como a de Marília Mendonça mostram a possibilidade de construir novas representações e novos valores na música brasileira. 

 

Autora: Anna Clara Mattos, sob orientação do professor Bruno Lazzarotti

*O Observatório das Desigualdades é um projeto de extensão. O conteúdo e as opiniões expressas não refletem necessariamente o posicionamento da Fundação João Pinheiro ou do CORECON – MG.

 

Referências

[1] CANDIDO, Marcia; CAMPOS, Luiz Augusto. Raça e Gênero no Cinema Brasileiro (2002-2014). GEMAA-IESP-UERJ. Disponível em: <http://gemaa.iesp.uerj.br/infografico/raca-e-genero-no-cinema-brasileiro-2002-2014/>. Acesso em: 09 nov. 2021

[2] CAPUTO, Gabriela. Estudo investiga os desafios enfrentados pelas mulheres na música. Jornal da USP, 30 set. 2021. Disponível em: <https://jornal.usp.br/cultura/estudo-investiga-os-desafios-enfrentados-pelas-mulheres-na-musica/>. Acesso em: 09 nov. 2021.

[3] AmplifyHer: Voicing the experience of women musicians in Brazil. Sonora, São Paulo, 2021. Disponível em: <http://www.sonora.me/amplifyher-sp/>. Acesso em: 09 nov. 2021.

[4] TAWANE, Nayá. Feminejo: Marília Mendonça colocou mulheres como protagonistas na música brasileira. Brasil de Fato, Brasília, 06 nov. 2021. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2021/11/06/feminejo-marilia-mendonca-colocou-mulheres-como-protagonistas-na-musica-brasileira>. Acesso em: 09 nov. 2021.

[5] PERES, Antônia; SILVA, Daniele. A Produção Simbólica da Mulher nas Canções do “Feminejo”. Revista Homem, Espaço e Tempo. Disponível em: <https://rhet.uvanet.br/index.php/rhet/article/view/313/250>. Acesso em: 09 nov. 2021.

[6] Marília Mendonça abriu portas para outras mulheres na música e criou um movimento chamado ‘feminejo’. Jornal Nacional, 07 nov. 2021. Disponível em: <https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2021/11/07/marilia-mendonca-abriu-portas-para-outras-mulheres-na-musica-e-criou-um-movimento-chamado-feminejo.ghtml>. Acesso em: 09 nov. 2021.

[7] MONCAU, Gabriela. Feminejo, gordofobia e machismo: debates tomam as redes após morte da cantora Marília Mendonça. Brasil de Fato, São Paulo, 08 nov. 2021. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2021/11/08/feminejo-gordofobia-e-machismo-debates-tomam-as-redes-apos-morte-da-cantora-marilia-mendonca>. Acesso em: 09 nov. 2021.

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