Para muitas crianças no Brasil, é no período de férias escolares – quando deixam de ter o acesso diário à merenda – que a fome, uma ameaça ao longo de todo ano, se torna uma realidade a ser enfrentada. É o que nos mostra a reportagem publicada pela BBC News Brasil em 15/07/19.

Conforme explica à reportagem Elisabetta Recine, professora e coordenadora do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da Universidade de Brasília, “testemunhos de pessoas em áreas de vulnerabilidade social realmente indicam que (a merenda escolar) acaba sendo a garantia de consumo mínimo de alimentos durante o ano letivo para parte das crianças. Considerando as projeções de que a pobreza e extrema pobreza devem aumentar, as crianças devem sofrer as consequências disso.”. 

Na favela carioca do Complexo da Maré, a coordenadora do Projeto Uerê, Yvonne de Mello, que oferece refeições e aulas complementares a alunos de 6 a 18 anos relatou à BBC: “Neste ano e no ano passado, tenho recebido crianças que não conseguem aprender de maneira nenhuma. Não porque têm deficiência mental, mas porque não se alimentaram direito. Tive duas crianças no Uerê que desmaiaram. (A criança) começa a passar mal, a vomitar. Quando vai ver, não houve alimentação no dia anterior”.

Embora persistam os problemas, é certo que o Brasil vinha avançando no combate à desnutrição e à fome nos últimos anos. De acordo com o relatório  “Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2019”, elaborado pela FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a desnutrição no Brasil se reduziu de 11,9% no período entre 1999-2001 a menos de 2,5% no período de 2008-2012. Segundo o relatório, a evolução é atribuída ao aumento da renda familiar, somado a políticas sólidas e coordenadas nas áreas sociais, de educação e de saneamento, que reduziram a pobreza e a desigualdade entre 2002 e 2014.

Entre essas políticas, o relatório destaca o programa “Fome Zero”, de 2003, que incorporou a erradicação da fome na agenda política brasileira e seu sucessor,   o “ Plano Brasil sem Miséria”, que impulsionou programas como o “Bolsa Família”, que contribuiu para 25% da redução da pobreza extrema do Brasil e para quase 15% da redução da pobreza desde 2004.

Contudo, os dados do relatório referente aos anos de 2016-2018 apontam que ainda há cerca de 5 milhões de pessoas (2,5% da população) em grave situação alimentar no país. Ainda, o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional do Ministério da Saúde (Sisvan) identificou, no ano retrasado, 207 mil crianças menores de cinco anos com desnutrição grave.

Segundo a reportagem da BBC, diferentes pesquisas acadêmicas indicam que o acúmulo de deficiências nutricionais – seja causado pela fome, seja pelo consumo de alimentos de baixa qualidade – pode causar impacto na habilidade de aprendizado infantil.

“É difícil afirmar que a nutrição seja a causa específica e única de problemas no desenvolvimento infantil, quando a criança sofre também com um sistema educacional que não é adequado e com a falta de estímulos. Mas é um entre tantos fatores desse ciclo de pobreza cruel”, aponta Maria Paula de Albuquerque, pediatra nutróloga do Centro de Recuperação e Educação Nutricional (Cren), entidade que atua em São Paulo.

Ela ressalta, porém, que esse ciclo pode ser rompido, permitindo que mesmo crianças em situação de extrema vulnerabilidade atinjam seu potencial. “Ainda que viva em situações adversas, a criança é um infinito de possibilidades. Seu cérebro tem enorme plasticidade para absorver novos hábitos. É importante, porém, fortalecer também quem cuida delas. Não conseguimos melhorar a condição de uma criança sem melhorar também a situação de sua família.”

A reportagem “Sem merenda: quando férias escolares significam fome no Brasil”, da BBC News Brasil, encontra-se disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-48953335

O relatório “Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2019” (em espanhol), elaborado pela FAO, encontra-se disponível em: http://www.fao.org/3/ca5162es/ca5162es.pdf (o texto “Hacer frente a la desigualdad en el contexto del crecimiento económico en el Brasil: una forma de salir del hambre y la malnutricion”, que analisa o contexto brasileiro, encontra-se nas pág. 100-101).

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