{"id":1389,"date":"2020-11-20T10:41:33","date_gmt":"2020-11-20T10:41:33","guid":{"rendered":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=1389"},"modified":"2020-11-20T11:11:41","modified_gmt":"2020-11-20T11:11:41","slug":"a-musica-enquanto-quilombo-desigualdades-raciais-resistencias-e-uma-playlist","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=1389","title":{"rendered":"A m\u00fasica enquanto quilombo: desigualdades raciais, resist\u00eancias e uma playlist"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"1389\" class=\"elementor elementor-1389\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-4c418f3 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"4c418f3\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-4d0fd82\" data-id=\"4d0fd82\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-a13d91b elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"a13d91b\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: right;\"><em>Reviver<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Tudo o que sofreu<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Porto de desesperan\u00e7a<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>E l\u00e1grima<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Dor de solid\u00e3o<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Reza pra teus orix\u00e1s<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Guarda o toque do tambor<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Pra saudar tua beleza<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Na volta da raz\u00e3o<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Pele negra, quente e meiga<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Teu corpo e o suor<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Para a dan\u00e7a da alegria<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>E mil asas para voar <\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Que haver\u00e3o de vir um dia<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>E que chegue j\u00e1<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\">(L\u00e1grima do Sul &#8211; Milton Nascimento)<\/p><p>Desde o toque do tambor que canta Bituca, \u00e0s rodas de capoeira, ou mesmo o caminhar nas resist\u00eancias cotidianas, n\u00e3o h\u00e1 movimento sem ritmo. E no curso da hist\u00f3ria brasileira, os mais diversos ritmos marcam viv\u00eancias de resist\u00eancia, em especial quando tratamos da cultura negra. Nesse 20 de novembro, o Observat\u00f3rio das Desigualdades, muito al\u00e9m de desvelar os elementos que constituem as desigualdades raciais no Brasil,ir\u00e1 apresentar algumas m\u00fasicas que celebram a cultura negra, enquanto forma de resist\u00eancia e provocam nossa consci\u00eancia sobre as vit\u00f3rias e o longo caminho para superar a opress\u00e3o e o racismo. Escolher as m\u00fasicas que comp\u00f5em esta <em>playlist<\/em> n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil, s\u00e3o muitas as can\u00e7\u00f5es que trazem uma enorme pot\u00eancia ao tratar da cultura negra. Longe de n\u00f3s a pretens\u00e3o de fazer por meio deste <em>post<\/em> uma curadoria exaustiva das m\u00fasicas sobre o tema, mas t\u00e3o somente apresentar elementos que marcam esses processos de resist\u00eancia a partir de algumas m\u00fasicas.<\/p><p>Link para Playlist:<\/p><p><a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/playlist\/1fMqdsVouDsTYkcsw1lqAA?si=Bnu8GyMHTYyUCsa1lD1UKg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/open.spotify.com\/playlist\/1fMqdsVouDsTYkcsw1lqAA?si=Bnu8GyMHTYyUCsa1lD1UKg<\/a><\/p><p>Tratar destes ritmos e das hist\u00f3rias de resist\u00eancia que representam n\u00e3o seria poss\u00edvel sem pensarmos no samba. \u201cDesde que o samba \u00e9 samba \u00e9 assim\u201d de Caetano Veloso, que aqui inclu\u00edmos na interpreta\u00e7\u00e3o de Gilberto Gil, aponta elementos interessantes para refletirmos. O Brasil foi o pa\u00eds que mais recebeu e durante mais tempo africanos escravizados nas Am\u00e9ricas, como se v\u00ea no gr\u00e1fico abaixo.<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 1:\u00a0 N\u00fameros de africanos escravizados recebidos pelo Brasil no per\u00edodo de 1501-1866<\/p><p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1390\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico-1-1024x600.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico-1-1024x600.jpg 1024w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico-1-300x176.jpg 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico-1-768x450.jpg 768w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico-1.jpg 1230w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Fonte: https:\/\/www.academia.edu\/38653685\/Thiago_Krause_A_Desigualdade_Brasileira_na_Longa_Dura%C3%A7%C3%A3o<\/p><p>O apagamento da considera\u00e7\u00e3o sobre a magnitude desta popula\u00e7\u00e3o, de sua contribui\u00e7\u00e3o para constru\u00e7\u00e3o da riqueza do pa\u00eds,\u00a0 da dimens\u00e3o da injusti\u00e7a e da opress\u00e3o contra os negros se somam ao silenciamento e ao n\u00e3o reconhecimento das mais variadas formas de resist\u00eancia &#8211; tanto dos escravizados em seu tempo, quanto dos afrodescendentes ap\u00f3s o fim da escravid\u00e3o (exceto em suas formas folclorizadas e esterelizadas conforme o mito da democracia racial) \u2013 \u00a0e servem \u00e0 nega\u00e7\u00e3o de poder pol\u00edtico e \u00e0 perpetua\u00e7\u00e3o desta desigualdade. O samba sempre rompeu este muro de sil\u00eancio.<\/p><p>Desde a \u201c<em>l\u00e1grima clara, sobre a pele escura<\/em>\u201d, que representa as in\u00fameras desigualdades que marcam as rela\u00e7\u00f5es raciais no Brasil, at\u00e9 \u201c<em>Mas alguma coisa acontece, no quando agora em mim. Cantando eu mando a tristeza embora<\/em>\u201d, em que se demarca a import\u00e2ncia da m\u00fasica e da cultura negra como forma de representa\u00e7\u00e3o, em uma hist\u00f3ria, que muitas vezes trata de silenciar pessoas negras, sendo narrada apenas sob o olhar da branquitude. A partir disso, o refr\u00e3o nos diz muita coisa:<\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>O samba \u00e9 pai do prazer<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>O samba \u00e9 filho da dor<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>O grande poder transformador<\/em><\/p><p>O fato \u00e9 que jamais a escravid\u00e3o foi aceita com resigna\u00e7\u00e3o ou passividade pelas pessoas escravizadas. Revoltas, fugas e constitui\u00e7\u00e3o de quilombos eram antes a regra do que a exce\u00e7\u00e3o no Brasil escravista, desde seus prim\u00f3rdios. Por exemplo, ainda no s\u00e9culo XVIII, v\u00e1rios quilombos coexistiam em Minas Gerais, desafiando a base escravista da minera\u00e7\u00e3o, conforme mostra a tabela 1, abaixo:<\/p><p style=\"text-align: center;\">Tabela 1 &#8211; Estimativas populacionais de alguns quilombos de Minas Gerais, 1766-177<\/p><p><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1391 aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico-2.jpg\" alt=\"\" width=\"380\" height=\"475\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico-2.jpg 380w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico-2-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 380px) 100vw, 380px\" \/><\/p><p>E se o samba nasce de um processo de opress\u00e3o e se constitui como elemento importante de afirma\u00e7\u00e3o da identidade e da cultura negra, para sentir esse poder transformador do samba, n\u00e3o poder\u00edamos deixar de trazer Dona Ivone Lara, ao cantar o \u201c<em>sorriso negro<\/em>\u201d, que apresenta em sua letra diversos elementos que atravessam a viv\u00eancia do povo negro:<\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Um sorriso negro<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Um abra\u00e7o negro<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Traz felicidade<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Negro sem emprego<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Fica sem sossego<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Negro \u00e9 a raiz de liberdade<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Negro \u00e9 uma cor de respeito<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Negro \u00e9 inspira\u00e7\u00e3o<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Negro \u00e9 sil\u00eancio \u00e9 luto<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Negro \u00e9 a solid\u00e3o<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Negro que j\u00e1 foi escravo<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Negro \u00e9 a voz da verdade<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Negro \u00e9 destino \u00e9 amor<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Negro tamb\u00e9m \u00e9 saudad<\/em><em>e<\/em><\/p><p>A partir destes versos, \u00e9 poss\u00edvel perceber que a composi\u00e7\u00e3o de Adilson Reis Dos Santos, Jair Carvalho e Jorge Philomeno Ribeiro apresenta, mais uma vez, os diversos elementos que constituem fonte de resist\u00eancia do povo negro. E marcar esse lugar do negro nos remete \u00e0 import\u00e2ncia de compreendermos os diferentes tipos de racismo, bem como refletirmos sobre quem se beneficia das desigualdades produzidas pela quest\u00e3o da ra\u00e7a.<\/p><p>Desse modo, \u00e9 necess\u00e1rio ter claro que quando falamos em racismo, n\u00e3o estamos nos referindo apenas a uma concep\u00e7\u00e3o individualista, ou seja, n\u00e3o estamos tratando apenas de discrimina\u00e7\u00f5es diretas, ou de um debate puramente moral, mas de uma rela\u00e7\u00e3o social e de poder enraizada em estruturas sociais; portanto, destacamos que o racismo n\u00e3o pode ser caracterizado como traduzido na \u201cperspectiva tradicional\u201d, apresentada na tabela 2, devendo ser pensado como um elemento estrutural e estruturante de nossa sociedade.<\/p><p>Pensar no racismo de forma individual \u2013 como \u00f3dio racial ou discrimina\u00e7\u00e3o consciente e deliberada &#8211; pode induzir a uma reflex\u00e3o que n\u00e3o considera o car\u00e1ter institucional e estrutural que sustenta o racismo no Brasil. Por conta disso, \u00e9 fundamental combater e questionar as manifesta\u00e7\u00f5es de racismo individuais, mas, mais do que isto, \u00e9 preciso refletir e compreender como a conforma\u00e7\u00e3o e o funcionamento das institui\u00e7\u00f5es sociais e das pol\u00edticas p\u00fablicas incorporam, sob o v\u00e9u enganoso da neutralidade formal, o tratamento desigual e discriminat\u00f3rio aos distintos grupos \u00e9tnicos. \u00c9 o que se denomina racismo institucional, o qual se manifesta em normas, pr\u00e1ticas e comportamentos discriminat\u00f3rios adotados no cotidiano do trabalho, resultantes do preconceito racial, uma atitude que combina estere\u00f3tipos racistas, falta de aten\u00e7\u00e3o e ignor\u00e2ncia.<\/p><p style=\"text-align: center;\">Tabela 2: Dimens\u00f5es do racismo institucional<\/p><p><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1392 aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/tabela-2.png\" alt=\"\" width=\"707\" height=\"261\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/tabela-2.png 707w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/tabela-2-300x111.png 300w\" sizes=\"(max-width: 707px) 100vw, 707px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Fonte: Danin (2018) adaptado de Wieviorka (2007)<\/p><p>Dentre as manifesta\u00e7\u00f5es do racismo institucional, a letra interpretada por Dona Ivone Lara aponta para uma das maiores evid\u00eancias desse fen\u00f4meno, ou seja, ela chama aten\u00e7\u00e3o para o fato de que um dos espa\u00e7os nos quais os negros sofrem mais discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 no mercado de trabalho, que s\u00e3o espa\u00e7os hegemonicamente brancos, enquanto o mercado de trabalho informal \u00e9 um espa\u00e7o mais ocupados por negros. Dados recentes do IBGE corroboram o fato acima mencionado, na medida em que revela a propor\u00e7\u00e3o de pessoas em ocupa\u00e7\u00f5es informais pelo recorte por ra\u00e7a, como exibe o gr\u00e1fico 2. A maior propor\u00e7\u00e3o de pessoas de pretas e pardas em ocupa\u00e7\u00f5es informais comprova que esse grupo ocupa posi\u00e7\u00f5es de trabalhos com baixo grau de escolaridade e sem carteira assinada refletindo as desigualdades historicamente desenhadas no pa\u00eds.<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 2: Propor\u00e7\u00e3o de pessoas em ocupa\u00e7\u00f5es informais, por cor ou ra\u00e7a &#8211; Brasil &#8211; 2012-2019<\/p><p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1393 size-full aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/3-1.jpg\" alt=\"\" width=\"566\" height=\"321\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/3-1.jpg 566w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/3-1-300x170.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 566px) 100vw, 566px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Fonte: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Cont\u00ednua 2012-2019<\/p><p>Para entendermos o racismo estrutural sob outra perspectiva, vamos sair um pouco do samba e fazer uma viagem para o <em>rap.<\/em> Outro ritmo que marca a cultura negra e \u00e9 um importante meio de den\u00fancia das mais diversas desigualdades. Para isso, n\u00e3o poder\u00edamos deixar de citar a m\u00fasica \u201cNegro Drama\u201d, que em um momento importante de demarca\u00e7\u00e3o e luta pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao debate racial no Brasil trouxe elementos fundamentais em todos os seus versos. Aqui, chamamos aten\u00e7\u00e3o para o trecho a seguir:<\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Voc\u00ea deve t\u00e1 pensando,<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>O que voc\u00ea tem a ver com isso?<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Desde o in\u00edcio,<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Por ouro e prata,<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Olha quem morre,<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Ent\u00e3o veja voc\u00ea quem mata (&#8230;)<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Nego Drama \u2013 Racionais MC\u2019s<\/em><\/p><p>Uma das faces mais brutais do racismo institucionalizado e da desigualdade racial brasileira \u00e9 a concentra\u00e7\u00e3o de homic\u00eddios na popula\u00e7\u00e3o negra, denunciada na letra acima e com fortes evid\u00eancias emp\u00edricas, como releva o Atlas da Viol\u00eancia de 2019, que aponta para o aprofundamento dessa desigualdade: em 2017, 75,5% das v\u00edtimas de homic\u00eddios foram indiv\u00edduos negros. A taxa de homic\u00eddios por 100 mil negros foi de 43,1, ao passo que a taxa de n\u00e3o negros (brancos, amarelos e ind\u00edgenas) foi de 16,0. Ou seja, proporcionalmente \u00e0s respectivas popula\u00e7\u00f5es, para cada indiv\u00edduo n\u00e3o negro que sofreu homic\u00eddio em 2017, aproximadamente, 2,7 negros foram mortos. A piora no cen\u00e1rio pode ser visualizada no gr\u00e1fico 3: no per\u00edodo de uma d\u00e9cada (2007 a 2017), a taxa de homic\u00eddios de negros cresceu 33,1%, enquanto a de n\u00e3o negros apresentou um pequeno crescimento de 3,3%. Analisando apenas a varia\u00e7\u00e3o no \u00faltimo ano, enquanto a taxa de mortes de n\u00e3o negros teve redu\u00e7\u00e3o de 0,3%, a de negros cresceu 7,2%. Diante dessa realidade, esses n\u00fameros podem ser explicados tanto por consequ\u00eancia de um pior posicionamento socioecon\u00f4mico desse grupo populacional, bem como a perpetua\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos enquanto indiv\u00edduos perigosos ou criminosos, o que implica um processo de reifica\u00e7\u00e3o. S\u00e3o assim pessoas que n\u00e3o s\u00e3o reconhecidas a partir de sua identidade individual, mas apenas por sua cor da pele, o que acarreta em um processo de profunda desumaniza\u00e7\u00e3o e que faz aumentar em muito suas chances de vitimiza\u00e7\u00e3o. Lan\u00e7ada em 2002, \u201cNegro Drama\u201d mant\u00e9m uma atualidade tr\u00e1gica, que denuncia e cobra de n\u00f3s a incapacidade n\u00e3o apenas de superar esta realidade, mas sequer de impedir seu aprofundamento.<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 3: Taxas de homic\u00eddios de negros e de n\u00e3o negros a cada 100 mil habitantes dentro destes grupos populacionais \u2013 Brasil (2007-2017)<\/p><p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1394 aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/mm.jpg\" alt=\"\" width=\"876\" height=\"476\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/mm.jpg 876w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/mm-300x163.jpg 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/mm-768x417.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 876px) 100vw, 876px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Fonte: Os dados de homic\u00eddios foram provenientes do MS\/SVS\/CGIAE &#8211; Sistema de Informa\u00e7\u00f5es sobre Mortalidade &#8211; SIM. Observa\u00e7\u00e3o: O n\u00famero de negros foi obtido somando pardos e pretos, enquanto o de n\u00e3o negras se deu pela soma dos brancos, amarelos e ind\u00edgenas, todos os ignorados n\u00e3o entraram nas contas. Elabora\u00e7\u00e3o: Diest\/Ipea e F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica.<\/p><p>Dando continuidade, como muito bem apresenta Djamila Ribeiro, \u201c\u00c9 necess\u00e1rio escutar por parte de quem sempre foi autorizado a falar\u201d (RIBEIRO, 2017, p. 78), e enquanto pessoas brancas que somos, escrevendo este texto, devemos refletir n\u00e3o apenas sobre o nosso lugar de fala, mas o nosso lugar de escuta, com um ouvido atento n\u00e3o apenas \u00e0s harmonias e melodias, mas aos lugares de privil\u00e9gio que essas can\u00e7\u00f5es desvelam. Existe, portanto, uma necessidade de desconstru\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a branca como neutra e universal e \u00e9 isso que Racionais MC\u2019s aponta no verso destacado e em muitos outros momentos.<\/p><p>Indo ao encontro dessa perspectiva, apresentamos a m\u00fasica \u201cVoz\u201d de Djonga e Douglas. Mais uma vez vamos destacar apenas um trecho, mas ressaltamos que as m\u00fasicas de Djonga t\u00eam representado um elemento vivo da hist\u00f3ria e de narrativas muitas vezes silenciadas.<\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>&#8220;Mas Djonga n\u00e3o gosta de branco?&#8221;<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>O bang n\u00e3o \u00e9 apenas cor, interpretem<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Parece que ainda est\u00e3o no ano l\u00edrico<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Pela cor &#8216;c\u00ea s\u00f3 n\u00e3o sente o que eu sinto<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Mas pela boca e pelas atitudes<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Branco \u00e9 seu estado de esp\u00edrito<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Playboy se junta hoje em dia mano, e quer ser bonde<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;T\u00f4 lutando pra favelado junto ser empresa<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Mam\u00e3e falou que mudar o mundo \u00e9 sem pressa<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Rico bandido \u00e9 predador, pobre honesto \u00e9 presa<\/em><\/p><p>Neste trecho fica destacada a import\u00e2ncia da compreens\u00e3o dos privil\u00e9gios da branquitude, ressaltando a forma como esse processo de n\u00e3o compreens\u00e3o aponta para atitudes e a\u00e7\u00f5es que n\u00e3o alteram de fato o <em>status quo<\/em>, trazendo tamb\u00e9m um elemento muito forte de interse\u00e7\u00e3o com a classe social. E \u00e9 importante ressaltar que os elementos que marcam o racismo estrutural e passam por diversas dimens\u00f5es da vida das pessoas negras e assim como Djonga em diversas de suas letras, em \u201cCap\u00edtulo 4, Vers\u00edculo 3\u201d, Racionais MC\u2019s, apontam alguns dados, na introdu\u00e7\u00e3o da m\u00fasica, lan\u00e7ada em 1997:<\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>60% dos jovens de periferia<br \/>Sem antecedentes criminais<br \/>J\u00e1 sofreram viol\u00eancia policial<\/em><\/p><p>Ao olharmos para os dados hoje, como \u00e9 poss\u00edvel observar na figura abaixo, esse cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 diferente, ao ampliarmos uma an\u00e1lise para os processos de pessoas negras por tr\u00e1fico, na cidade de S\u00e3o Paulo, de onde os Racionais narram muitas de suas letras. A partir destes dados, \u00e9 poss\u00edvel perceber que pessoas negras s\u00e3o processadas em maior propor\u00e7\u00e3o quando apreendidas com 25 g de maconha, bem como, pessoas brancas s\u00e3o consideradas usu\u00e1rios em uma maior propor\u00e7\u00e3o. No fim das contas, portando uma mesma quantidade de maconha, o negro \u00e9 traficante e o branco \u00e9 usu\u00e1rio: o que pode ser mais revelador dos estere\u00f3tipos veiculados, reproduzidos e martelados cotidianamente de forma histri\u00f4nica nos programas policiais? Ou do racismo institucionalizado no aparelho repressivo do Estado?<\/p><p style=\"text-align: right;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1395 aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico-6.png\" alt=\"\" width=\"923\" height=\"470\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico-6.png 923w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico-6-300x153.png 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico-6-768x391.png 768w\" sizes=\"(max-width: 923px) 100vw, 923px\" \/><\/p><p>Avan\u00e7ando nas discuss\u00f5es, Bia Ferreira vai al\u00e9m e aponta para uma perspectiva interseccional e em \u201cDe dentro do ap\u201d traz valiosas reflex\u00f5es sobre elementos que marcam a vida de mulheres negras e evidenciando mais uma vez os privil\u00e9gios das pessoas brancas, trazendo elementos hist\u00f3ricos e a perman\u00eancia de estruturas de explora\u00e7\u00e3o das mulheres negras, como exemplificado no trecho a seguir:<\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>E n\u00f3s? As mui\u00e9 preta n\u00f3s s\u00f3 serve pra voc\u00eas mamar na teta<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Ama de leite dos brancos<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Sua v\u00f3 n\u00e3o exitou, quando mandou a minha l\u00e1 pro tronco<\/em><\/p><p>Bia Ferreira denuncia em seu lirismo de combate o que os dados de um estudo publicado Insper confirmam. As mulheres pretas e pardas possuem sal\u00e1rios inferiores quando comparados com homens brancos, mulheres brancas e homens pretos e pardos, como exibido no gr\u00e1fico 4. Al\u00e9m disso, nota-se que independente da trajet\u00f3ria educacional, a desigualdade no retorno salarial permanece, ou seja, na transforma\u00e7\u00e3o da escolaridade adicional em vantagens salariais: a combina\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a e classe condiciona o sal\u00e1rio que as pessoas receber\u00e3o, mesmo quando apresentem o mesmo n\u00edvel de escolaridade no mesmo tipo de institui\u00e7\u00e3o. Mulheres negras, sobre as quais incidem, de maneira combinada, as desigualdades de g\u00eanero e de ra\u00e7a, s\u00e3o as que possuem a menor remunera\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 4 &#8211; Sal\u00e1rio m\u00e9dio de pessoas com ao menos o Ensino M\u00e9dio e com Ensino Superior completo (a R$ do 3\u00b0 trimestre de 2019) por g\u00eanero e por ra\u00e7a \u2013 2016 a 2018<\/p><p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1396 aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fjpg2_131020205320.png\" alt=\"\" width=\"710\" height=\"357\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fjpg2_131020205320.png 710w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fjpg2_131020205320-300x151.png 300w\" sizes=\"(max-width: 710px) 100vw, 710px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Fonte: Ribeiro et al, 2020 (Adaptado)*EM = Ensino M\u00e9dio*ES = Ensino Superior<\/p><p>Ao passarmos pelos diversos ritmos apresentados n\u00e3o nos debru\u00e7amos em apontar como esses elementos da cultura negra marcam o nosso dia-a-dia e est\u00e3o presentes em diversos momentos, se modificando, resistindo e ocupando, cada vez mais, lugares de destaque. Assim como os elementos da cultura negra v\u00eam ganhando espa\u00e7o, a representatividade desse grupo tambem tem sofrido mudan\u00e7as nos \u00faltimos anos, isto \u00e9, os negros, lentamente, v\u00eam conquistam alguns espa\u00e7os p\u00fablicos e os n\u00fameros das elei\u00e7\u00f5es municipais de 2020 comprovam esse fato. Os dados do TSE revelam que a verean\u00e7a das capitais brasileiras, a partir de 2021, ter\u00e3o 44% das cadeiras ocupadas por pessoas negras. Insuficiente, mas um avan\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa hist\u00f3ria. E, como diz a can\u00e7\u00e3o de Milton Nascimento, \u201cse muito vale o j\u00e1 feito, mais vale o que ser\u00e1\u201d.<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 5: Capitais do Sul s\u00e3o as que t\u00eam menor propor\u00e7\u00e3o de negros nas c\u00e2maras municipais<\/p><p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1397 aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico-3.jpg\" alt=\"\" width=\"713\" height=\"851\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico-3.jpg 713w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico-3-251x300.jpg 251w\" sizes=\"(max-width: 713px) 100vw, 713px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Fonte: http:\/\/www.generonumero.media\/negros-44-capitais-brasileiras\/<\/p><p>Dessa maneira, ouvir para refletir e resistir \u00e9 mais um movimento que esses ritmos nos proporcionam, e para isso, criamos a <em>playlis<\/em>t a seguir, contendo todas as m\u00fasicas apresentadas e discutidas neste post, e mais algumas que contribuem para que um dia possamos falar que a hist\u00f3ria caminha no ritmo que queremos, \u201c<em>e que chegue j\u00e1<\/em>\u201d.<\/p><p>Fontes:<\/p><p><a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv101760.pdf\">https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv101760.pdf<\/a><\/p><p><a href=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Boletim-n%C2%BA7.pdf\">http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Boletim-n%C2%BA7.pdf<\/a><\/p><p><a href=\"http:\/\/www.generonumero.media\/negros-44-capitais-brasileiras\/\">http:\/\/www.generonumero.media\/negros-44-capitais-brasileiras\/<\/a><\/p><p><a href=\"https:\/\/apublica.org\/2019\/05\/negros-sao-mais-condenados-por-trafico-e-com-menos-drogas-em-sao-paulo\/\">https:\/\/apublica.org\/2019\/05\/negros-sao-mais-condenados-por-trafico-e-com-menos-drogas-em-sao-paulo\/<\/a><\/p><p>Autores: Marina Silva [graduanda em Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica &#8211; Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro] e Matheus Arcelo Fernandes Silva [mestre em Administra\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisador na Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro] sob a supervis\u00e3o de Bruno Lazzarotti Diniz Costa [doutor em Sociologia e Pol\u00edtica pela Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisador na Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro].<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reviver Tudo o que sofreu Porto de desesperan\u00e7a E l\u00e1grima Dor de solid\u00e3o Reza pra teus orix\u00e1s Guarda o toque do tambor Pra saudar tua beleza Na volta da raz\u00e3o Pele negra, quente e meiga Teu corpo e o suor Para a dan\u00e7a da alegria E mil asas para voar Que haver\u00e3o de vir um 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