{"id":1502,"date":"2021-03-03T13:10:37","date_gmt":"2021-03-03T13:10:37","guid":{"rendered":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=1502"},"modified":"2021-03-03T13:13:57","modified_gmt":"2021-03-03T13:13:57","slug":"a-violencia-contra-a-liberdade-de-existir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=1502","title":{"rendered":"A viol\u00eancia contra a liberdade de existir"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"1502\" class=\"elementor elementor-1502\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-e55e9eb elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"e55e9eb\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-4c3e397\" data-id=\"4c3e397\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-2ad8bd7 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"2ad8bd7\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-11e0d79\" data-id=\"11e0d79\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-4889808 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"4889808\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-1503 size-medium aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/imagem-300x158.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"158\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/imagem-300x158.jpg 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/imagem-768x404.jpg 768w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/imagem.jpg 805w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Com 13 anos, ela foi espancada at\u00e9 a morte. A lagartinha que queria ser borboleta. Menine que era menina, o rosa do azul. Ela tinha sonhos. T\u00edmida, era a felicidade em vida. Sonhava em ser livre e famosa. E por querer ser livre levou pauladas, chutes e pontap\u00e9s. Sexualizaram sua exist\u00eancia e vandalizaram sua alma. Teve seu corpo deixado em um terreno baldio, com o mesmo \u00f3dio e crueldade que levou a Dandara e outras. A pol\u00edcia? Como sempre, descartou ser um crime de \u00f3dio. O suspeito? Preso, 17 anos, assassino confesso. Narrou o gozo mortal \u00e0 pol\u00edcia de forma fria e em riqueza de detalhes.<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>(&#8230;)<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>OH Cear\u00e1! Porque voc\u00ea a matou? Mais uma crian\u00e7a assassinada. Exposta a esse mundo maldito, ainda nos primeiros dias de 2021. Violada em sua inf\u00e2ncia, sem prote\u00e7\u00e3o. N\u00e3o teve como\u00e7\u00e3o nacional. Amanh\u00e3 ningu\u00e9m mais lembra.<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>(&#8230;)<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>(Crian\u00e7a Trans de 13 anos assassinada no Cear\u00e1 no dia 03\/01\/2021)<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Bruna Benevides (ANTRA,2020. P\u00c1G 38)<\/em><\/p><p>\u00a0<\/p><p>Na manh\u00e3 do dia 8 de fevereiro Lucas, um homem negro e bissexual, deixou o programa Big Brother Brasil. A sa\u00edda n\u00e3o foi consequ\u00eancia da din\u00e2mica do programa, que elimina semanalmente um participante, mas uma decis\u00e3o de abandonar o reality. A motiva\u00e7\u00e3o estopim foi a rea\u00e7\u00e3o agressiva dos colegas de confinamento a um beijo entre Lucas e outro participante, Gilberto, marcada por julgamentos e olhares acusat\u00f3rios. Essa hostilidade, que marcou o primeiro beijo entre dois homens de um programa que j\u00e1 est\u00e1 na 21\u00aa edi\u00e7\u00e3o, indica uma desigualdade muito presente na sociedade brasileira: aquela que se configura a partir do g\u00eanero e da sexualidade, e que \u00e9 motivada pela LGBTFOBIA. Entre as muitas desigualdades vivenciadas pelas pessoas LGBTQIA+, este texto denuncia que este grupo \u00e9 mais vulner\u00e1vel, do que o restante da popula\u00e7\u00e3o, inclusive no que diz respeito \u00e0 seguran\u00e7a f\u00edsica. Este \u00e9 mais produto da parceria entre o N\u00facleo de Estudos em Seguran\u00e7a P\u00fablica (NESP\/FJP) e o Observat\u00f3rio das Desigualdades (OD\/FJP).<\/p><p>Nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es municipais para vereadores foram eleitas 22 mulheres transexuais ou travestis e 1 homem transexual, representando um aumento na representatividade deste grupo de quase 300% em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 2016<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/politica\/eleicoes\/2020\/noticia\/2020\/11\/20\/quem-sao-os-vereadores-trans-eleitos-em-2020.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. O boletim \u201cPol\u00edtica, participa\u00e7\u00e3o e desigualdade, e o que podemos fazer a respeito<a href=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Boletim-n%C2%BA10-Desigualdade-Pol%C3%ADtica2-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>\u201d, publicado por este Observat\u00f3rio das Desigualdades em agosto de 2019, denunciou a sub-representa\u00e7\u00e3o institucional deste grupo e as consequ\u00eancias pol\u00edticas deste fen\u00f4meno. Por um lado, h\u00e1 motivos para comemorar o aumento da representatividade, especialmente das pessoas Transexuais, por outro a rea\u00e7\u00e3o a esse avan\u00e7o tem sido bastante violenta.<\/p><p>Na semana do dia 29 de janeiro, dia dedicado \u00e0 visibilidade trans, uma vereadora e duas co-vereadoras de S\u00e3o Paulo foram v\u00edtimas de ataques<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/cidadania\/2021\/02\/violencia-contra-mulheres-negras-e-lgbts-coloca-democracia-sob-ameaca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Erika Hilton (Psol-SP), parlamentar mais bem votada em 2020 e primeira vereadora trans e negra de S\u00e3o Paulo, registrou um boletim de ocorr\u00eancia por se sentir amea\u00e7ada por um homem que a perseguiu na casa legislativa. Carolina Iara, co-vereadora, travesti e intersexo, teve a casa alvejada por dois tiros durante a madrugada. Um homem de moto disparou um tiro para cima, em frente \u00e0 casa onde mora Samara Sosthenes, covereadora e travesti. Esta lista poderia contar com mais e mais exemplos, como as amea\u00e7as de morte recebidas por e-mail por Duda Salabert e diversas parlamentares trans, denunciadas em dezembro de 2020<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/mg\/minas-gerais\/noticia\/2020\/12\/11\/apos-ameacas-vereadora-trans-eleita-em-bh-vai-procurar-comissao-interamericana-de-direitos-humanos.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p><p>Apesar de serem muitos os exemplos que indicam a vitimiza\u00e7\u00e3o deste grupo, \u00e9 uma pauta que mobiliza pouco o poder p\u00fablico institucional, e, por isso, h\u00e1 poucos dados oficiais que descrevem essas viol\u00eancias. Na edi\u00e7\u00e3o de 2020, pela primeira vez o Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP, 2020) abordou o tema da viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+, depois de o STF ter determinado em 2019 que, dada a omiss\u00e3o do Congresso Nacional em legislar sobre o tema, a LGBTFOBIA deveria ser tipificada como racismo. Segundo o Anu\u00e1rio, entretanto, em 15 estados e no DF n\u00e3o h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es sobre o fen\u00f4meno, confirmando a omiss\u00e3o de diversas institui\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a em produzir essas informa\u00e7\u00f5es. Essa subnotifica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m decorre do n\u00e3o acesso da popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+ aos \u00f3rg\u00e3os de den\u00fancia, indicando a exist\u00eancia de uma viol\u00eancia institucional. Al\u00e9m disso, n\u00e3o h\u00e1 dados demogr\u00e1ficos sobre estes grupos no Brasil, fato que impossibilita a estimativa de \u00edndices e a compara\u00e7\u00e3o com a popula\u00e7\u00e3o geral (ANTRA, 2021).<\/p><p>Expostas estas limita\u00e7\u00f5es metodol\u00f3gicas, s\u00e3o diversas as viol\u00eancias simb\u00f3licas, psicol\u00f3gicas, f\u00edsicas e institucionais que vitimizam as pessoas que n\u00e3o se enquadram nas expectativas relacionadas aos padr\u00f5es de g\u00eanero e ao afeto heterossexual. Neste texto, destacaremos as viol\u00eancias sofridas pelas pessoas trans e travesti, a partir de informa\u00e7\u00f5es produzidas pela Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transsexuais do Brasil (2021), que desenvolveu uma metodologia pr\u00f3pria de levantamento de dados.<\/p><p>Em 2020, uma pessoa transfeminina foi assassinada a cada 48 horas no Brasil. Ou seja, 175 travestis ou mulheres transexuais foram assassinadas no pa\u00eds pelo fato de serem quem s\u00e3o, um aumento de 202% em rela\u00e7\u00e3o a 2008, quando estes crimes come\u00e7aram a ser levantados. Este n\u00famero coloca o Brasil no topo do ranking dos pa\u00edses que mais matam pessoas transexuais no mundo, bem \u00e0 frente do M\u00e9xico, segundo colocado. Ademais, o Brasil foi respons\u00e1vel por 40% dos 2.600 assassinatos contra pessoas trans e travestis cometidos no mundo, entre 2008-2018. Dos homic\u00eddios motivados por transfobia em 2020, os m\u00e9todos cru\u00e9is s\u00e3o muito frequentes, e foram empregados em 71% dos casos: 24% dos homic\u00eddios foram cometidos por espancamento, apedrejamento, asfixia ou estrangulamento; 21%, por facadas; 8%, por meio de pauladas ou queimaduras. Outro ponto que se destaca \u00e9 que em 2020 houve 29 casos \u201cde execu\u00e7\u00e3o direta com n\u00famero elevado de tiros ou a queima roupa, enquanto, em 2019, haviam sido 9 execu\u00e7\u00f5es\u201d (ANTRA, 2021, P\u00c1G\u00a0 59).\u00a0<\/p><p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1504 aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/grafico-1.jpg\" alt=\"\" width=\"531\" height=\"285\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/grafico-1.jpg 531w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/grafico-1-300x161.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 531px) 100vw, 531px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Extra\u00eddo de: ANTRA, 2021. P\u00e1g 32.<\/p><p><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1505 aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/grafico-2.jpg\" alt=\"\" width=\"544\" height=\"299\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/grafico-2.jpg 544w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/grafico-2-300x165.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 544px) 100vw, 544px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Extra\u00eddo de: ANTRA, 2021. P\u00e1g 70. Compreende o per\u00edodo de janeiro de 2008 at\u00e9 setembro de 2020.<\/p><p>Dentre os homic\u00eddios de mulheres transexuais e travestis, h\u00e1 recortes necess\u00e1rios \u00e0 an\u00e1lise. O primeiro deles \u00e9 a idade da v\u00edtima: em 2020, 56% das assassinadas tinham menos de 29 anos. \u201cO assassinato precoce \u00e9 o in\u00edcio da tentativa de destrui\u00e7\u00e3o s<em>istem\u00e1tica<\/em> de uma popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 a consolida\u00e7\u00e3o de um projeto transfeminicida em pleno funcionamento no pa\u00eds \u2013 e no mundo\u201d (ANTRA, 2021, p\u00e1g 41). A morte na juventude, al\u00e9m de interromper as trajet\u00f3rias de vida, reduz as chances de essas pessoas constitu\u00edrem fam\u00edlias e terem descendentes, interrompendo ciclos que extrapolam as vidas dos indiv\u00edduos vitimados. Cabe destacar que a maior parte das v\u00edtimas t\u00eam menos de 29 anos, principalmente porque a expectativa de vida de pessoas transexuais e travestis no Brasil \u00e9 de 35 anos. Sabe-se, tamb\u00e9m, que 71% dos assassinatos ocorreram em espa\u00e7os p\u00fablicos, sendo este o retrato mais evidente das inefici\u00eancias da pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica em assegurar os direitos dessa popula\u00e7\u00e3o. Em rela\u00e7\u00e3o ao recorte de ra\u00e7a, o risco tamb\u00e9m \u00e9 maior para as pessoas negras: em 78% destes homic\u00eddios em 2020, a v\u00edtima era negra.\u00a0<\/p><p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1506 aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/grafico-3.jpg\" alt=\"\" width=\"506\" height=\"312\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/grafico-3.jpg 506w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/grafico-3-300x185.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 506px) 100vw, 506px\" \/><\/p><p>H\u00e1 um outro fator de risco, relacionado \u00e0 situa\u00e7\u00e3o laboral. Em 2020, pelo menos 72% das mulheres transexuais e travestis v\u00edtimas de homic\u00eddio estavam em situa\u00e7\u00e3o de prostitui\u00e7\u00e3o. Este n\u00famero \u00e9 coerente com o fato de que 95% das pessoas transfemininas exercem esta atividade para sobreviver, na maioria das vezes por n\u00e3o encontrarem outras alternativas de trabalho<a href=\"http:\/\/especiais.correiobraziliense.com.br\/transexuais-sao-excluidos-do-mercado-de-trabalho\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Esse fato nos remete ao conceito de viol\u00eancia simb\u00f3lica que pode ser descrito como um tipo de viol\u00eancia sem coa\u00e7\u00e3o f\u00edsica e que se baseia no reconhecimento do indiv\u00edduo a partir de um padr\u00e3o e de uma imposi\u00e7\u00e3o dominante causando um sofrimento psicol\u00f3gico para suas v\u00edtimas. \u00a0A dificuldade de acesso ao mercado de trabalho pelas pessoas trans se relaciona diretamente com a viol\u00eancia simb\u00f3lica, que dificulta a livre circula\u00e7\u00e3o dessas pessoas na sociedade.<\/p><p>Diante deste contexto, \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer a profunda defici\u00eancia do Estado em promover a seguran\u00e7a das pessoas Diante deste contexto, \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer a profunda defici\u00eancia do Estado em promover a seguran\u00e7a das pessoas trans. O resultado mais definitivo e irrepar\u00e1vel desta omiss\u00e3o, descrito neste texto, s\u00e3o os altos n\u00fameros de homic\u00eddios observados. Entretanto, a pol\u00edtica de enfrentamento deve contemplar as viol\u00eancias simb\u00f3licas, psicol\u00f3gicas e institucionais, que sustentam, encorajam e legitimam o assassinato dessas pessoas. Nesse sentido, cabe mencionar que, segundo a revista The Lancet, 60% da popula\u00e7\u00e3o transg\u00eanero sofre de algum tipo de depress\u00e3o e possuem uma chance 50% de se contaminar por HIV. Al\u00e9m disso, o Williams Institute afirmou que, nos EUA, a popula\u00e7\u00e3o trans e travesti possui um \u00edndice de suic\u00eddio de 40%<a href=\"https:\/\/epoca.globo.com\/brasil\/noticia\/2018\/01\/reduzida-por-homicidios-expectativa-de-vida-de-um-transexual-no-brasil-e-de-apenas-35-anos.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" name=\"_ftnref1\">[6]<\/a>.<\/p><p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p><p>As a\u00e7\u00f5es de prote\u00e7\u00e3o e atendimento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o trans, devem ser transversais, dialogando com as pastas de educa\u00e7\u00e3o, assist\u00eancia social, sa\u00fade, cultura etc., com intuito de construir uma percep\u00e7\u00e3o mais humanizada destes grupos e de provocar mudan\u00e7as nos comportamentos violentos. No que tange \u00e0 Seguran\u00e7a P\u00fablica, s\u00e3o necess\u00e1rios esfor\u00e7os em registrar e construir informa\u00e7\u00f5es oficiais sobre as ocorr\u00eancias, conhecimento necess\u00e1rio para a elabora\u00e7\u00e3o de qualquer a\u00e7\u00e3o de enfrentamento. O reconhecimento da exist\u00eancia de uma viol\u00eancia e de homic\u00eddios transf\u00f3bicos, \u00e9 necess\u00e1rio para identificar ocorr\u00eancias e elaborar pol\u00edticas de preven\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o desses casos que sejam efetivas. Al\u00e9m disso, a\u00e7\u00f5es de acolhimento e atendimento \u00e0s v\u00edtimas s\u00e3o necess\u00e1rias para que as pr\u00f3prias den\u00fancias sejam feitas. Uma vez que, assim como nos casos de feminic\u00eddio h\u00e1 uma enorme subnotifica\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Sabe-se que com o avan\u00e7o do conservadorismo no campo pol\u00edtico, as pautas relativas aos direitos das pessoas LGBTQIA+ t\u00eam sido negligenciadas e, muitas vezes, as autoridades t\u00eam at\u00e9 ratificado comportamentos LGBTF\u00d3BICOS. O espa\u00e7o pol\u00edtico, institucional e social conquistado por narrativas heteronormativas e violentas pode ser uma das explica\u00e7\u00f5es para o agravamento da viol\u00eancia entre 2019 e 2020. Mesmo assim, \u00e9 importante lembrar que direitos s\u00e3o conquistados por meio da luta pol\u00edtica, da mobiliza\u00e7\u00e3o social e da disputa institucional. Nesse sentido, mesmo que a tend\u00eancia no campo pol\u00edtico indique que caminhamos para lugares de ainda mais inseguran\u00e7a, a sociedade civil continua se articulando e lutando por um pa\u00eds mais seguro para todes.<\/p><p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <strong>Quem s\u00e3o os vereadores trans eleitos em 2020? <\/strong>Dispon\u00edvel em: https:\/\/g1.globo.com\/politica\/eleicoes\/2020\/noticia\/2020\/11\/20\/quem-sao-os-vereadores-trans-eleitos-em-2020.ghtml<\/p><p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <strong>Pol\u00edtica, participa\u00e7\u00e3o, desigualdade, e o que podemos fazer a respeito.<\/strong> Dispon\u00edvel em: http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Boletim-n%C2%BA10-Desigualdade-Pol%C3%ADtica2-1.pdf<\/p><p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <strong>Viol\u00eancia contra mulheres negras e LGBTs coloca democracia sob amea\u00e7a. <\/strong>Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/cidadania\/2021\/02\/violencia-contra-mulheres-negras-e-lgbts-coloca-democracia-sob-ameaca\/<\/p><p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a><strong>Ap\u00f3s amea\u00e7as vereadora trans eleita em BH vai procurar comiss\u00e3o interamericana de direitos humanos.<\/strong> Dispon\u00edvel em: https:\/\/g1.globo.com\/mg\/minas-gerais\/noticia\/2020\/12\/11\/apos-ameacas-vereadora-trans-eleita-em-bh-vai-procurar-comissao-interamericana-de-direitos-humanos.ghtml<\/p><p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> <strong>Transexuais s\u00e3o exclu\u00eddos do mercado de trabalho: com raras oportunidades de emprego, cerca de 90% das pessoas trans no Brasil acabam recorrendo \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p><p>Dispon\u00edvel em: http:\/\/especiais.correiobraziliense.com.br\/transexuais-sao-excluidos-do-mercado-de-trabalho<\/p><p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> <strong>Reduzida por homic\u00eddios, expectativa de vida de um transexual no Brasil \u00e9 de apenas 35 anos.<\/strong> Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/epoca.globo.com\/brasil\/noticia\/2018\/01\/reduzida-por-homicidios-expectativa-de-vida-de-um-transexual-no-brasil-e-de-apenas-35-anos.html\">https:\/\/epoca.globo.com\/brasil\/noticia\/2018\/01\/reduzida-por-homicidios-expectativa-de-vida-de-um-transexual-no-brasil-e-de-apenas-35-anos.html<\/a><\/p><p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p><p>F\u00d3RUM BRASILEIRO DE SEGURAN\u00c7A P\u00daBLICA. <strong>Anu\u00e1rio brasileiro de seguran\u00e7a p\u00fablica 2020. <\/strong>Dispon\u00edvel em: https:\/\/forumseguranca.org.br\/anuario-brasileiro-seguranca-publica\/<\/p><p>ASSOCIA\u00c7\u00c3O NACIONAL DE TRAVESTIS E TRANSEXUAIS. <strong>Dossi\u00ea dos ASSASSINATOS e da viol\u00eancia contra pessoas Trans em 2020. <\/strong>Dispon\u00edvel em: https:\/\/antrabrasil.files.wordpress.com\/2021\/01\/dossie-trans-2021-29jan2021.pdf<\/p><p>\u00a0<\/p><p><em>Autores: Mariana Parreiras e Clara Diniz com a coordena\u00e7\u00e3o de Karina Rabelo e Amanda Matar<\/em><\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com 13 anos, ela foi espancada at\u00e9 a morte. A lagartinha que queria ser borboleta. Menine que era menina, o rosa do azul. Ela tinha sonhos. T\u00edmida, era a felicidade em vida. Sonhava em ser livre e famosa. E por querer ser livre levou pauladas, chutes e pontap\u00e9s. Sexualizaram sua exist\u00eancia e vandalizaram sua alma. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1505,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ocean_post_layout":"","ocean_both_sidebars_style":"","ocean_both_sidebars_content_width":0,"ocean_both_sidebars_sidebars_width":0,"ocean_sidebar":"0","ocean_second_sidebar":"0","ocean_disable_margins":"enable","ocean_add_body_class":"","ocean_shortcode_before_top_bar":"","ocean_shortcode_after_top_bar":"","ocean_shortcode_before_header":"","ocean_shortcode_after_header":"","ocean_has_shortcode":"","ocean_shortcode_after_title":"","ocean_shortcode_before_footer_widgets":"","ocean_shortcode_after_footer_widgets":"","ocean_shortcode_before_footer_bottom":"","ocean_shortcode_after_footer_bottom":"","ocean_display_top_bar":"default","ocean_display_header":"default","ocean_header_style":"","ocean_center_header_left_menu":"0","ocean_custom_header_template":"0","ocean_custom_logo":0,"ocean_custom_retina_logo":0,"ocean_custom_logo_max_width":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_width":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_width":0,"ocean_custom_logo_max_height":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_height":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_height":0,"ocean_header_custom_menu":"0","ocean_menu_typo_font_family":"0","ocean_menu_typo_font_subset":"","ocean_menu_typo_font_size":0,"ocean_menu_typo_font_size_tablet":0,"ocean_menu_typo_font_size_mobile":0,"ocean_menu_typo_font_size_unit":"px","ocean_menu_typo_font_weight":"","ocean_menu_typo_font_weight_tablet":"","ocean_menu_typo_font_weight_mobile":"","ocean_menu_typo_transform":"","ocean_menu_typo_transform_tablet":"","ocean_menu_typo_transform_mobile":"","ocean_menu_typo_line_height":0,"ocean_menu_typo_line_height_tablet":0,"ocean_menu_typo_line_height_mobile":0,"ocean_menu_typo_line_height_unit":"","ocean_menu_typo_spacing":0,"ocean_menu_typo_spacing_tablet":0,"ocean_menu_typo_spacing_mobile":0,"ocean_menu_typo_spacing_unit":"","ocean_menu_link_color":"","ocean_menu_link_color_hover":"","ocean_menu_link_color_active":"","ocean_menu_link_background":"","ocean_menu_link_hover_background":"","ocean_menu_link_active_background":"","ocean_menu_social_links_bg":"","ocean_menu_social_hover_links_bg":"","ocean_menu_social_links_color":"","ocean_menu_social_hover_links_color":"","ocean_disable_title":"default","ocean_disable_heading":"default","ocean_post_title":"","ocean_post_subheading":"","ocean_post_title_style":"","ocean_post_title_background_color":"","ocean_post_title_background":0,"ocean_post_title_bg_image_position":"","ocean_post_title_bg_image_attachment":"","ocean_post_title_bg_image_repeat":"","ocean_post_title_bg_image_size":"","ocean_post_title_height":0,"ocean_post_title_bg_overlay":0.5,"ocean_post_title_bg_overlay_color":"","ocean_disable_breadcrumbs":"default","ocean_breadcrumbs_color":"","ocean_breadcrumbs_separator_color":"","ocean_breadcrumbs_links_color":"","ocean_breadcrumbs_links_hover_color":"","ocean_display_footer_widgets":"default","ocean_display_footer_bottom":"default","ocean_custom_footer_template":"0","ocean_post_oembed":"","ocean_post_self_hosted_media":"","ocean_post_video_embed":"","ocean_link_format":"","ocean_link_format_target":"self","ocean_quote_format":"","ocean_quote_format_link":"post","ocean_gallery_link_images":"off","ocean_gallery_id":[],"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1502","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-analise","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1502","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1502"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1502\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1509,"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1502\/revisions\/1509"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1505"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1502"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1502"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/observatoriodesi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