{"id":1510,"date":"2021-03-08T10:34:27","date_gmt":"2021-03-08T10:34:27","guid":{"rendered":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=1510"},"modified":"2021-03-08T10:53:39","modified_gmt":"2021-03-08T10:53:39","slug":"elementor-1510","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=1510","title":{"rendered":"Uma hist\u00f3ria sobre o trabalho e as desigualdades: conhecendo para mudar"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"1510\" class=\"elementor elementor-1510\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-c3329ec elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"c3329ec\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-2df57f7\" data-id=\"2df57f7\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-c9d8f77 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"c9d8f77\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: right;\"><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><\/a><em>Triste louca ou m\u00e1<br \/>Ser\u00e1 qualificada<br \/>Ela quem recusar<br \/>Seguir receita tal<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>A receita cultural<br \/>Do marido, da fam\u00edlia<br \/>Cuida, cuida da rotina<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>S\u00f3 mesmo rejeita<br \/>Bem conhecida receita<br \/>Quem n\u00e3o sem dores<br \/>Aceita que tudo deve mudar<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>Que um homem n\u00e3o te define<br \/>Sua casa n\u00e3o te define<br \/>Sua carne n\u00e3o te define<br \/>Voc\u00ea \u00e9 seu pr\u00f3prio lar<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>\u00a0<\/em><\/p><p style=\"text-align: right;\"><em>(Triste, louca ou m\u00e1 \u2013 Francisco, El Hombre)<\/em><\/p><p>H\u00e1 muitas formas de contar uma hist\u00f3ria. Escrever um roteiro envolve, a partir de uma ideia, construir personagens, e definir quem s\u00e3o seus protagonistas. Tamb\u00e9m \u00e9 fundamental montar as cenas, a partir das a\u00e7\u00f5es e intera\u00e7\u00f5es entre esses personagens, o que geralmente envolve um conflito. Essas cenas se constroem por imagens, sons e movimentos. Mas tamb\u00e9m pela defini\u00e7\u00e3o de focos, em um jogo de luz e sombras. H\u00e1, ainda, o tom, que \u00e9 como se enla\u00e7a quem narra uma hist\u00f3ria e quem l\u00ea ela (ou ouve ou v\u00ea). O fio condutor de uma hist\u00f3ria \u00e9 seu argumento, cuja defini\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de se posicionar no mundo.<\/p><p>O que apresentamos nas pr\u00f3ximas p\u00e1ginas para voc\u00ea, leitora, \u00e9 uma breve hist\u00f3ria sobre as desigualdades de g\u00eanero no mundo do trabalho no Brasil. Cabe uma pausa aqui para explicar que vamos usar o feminino, mas convido es\/os leitores a se sentirem inclu\u00eddo nele. Tamb\u00e9m vamos usar este tom um pouco mais informal, porque achamos que o que tem faltado nesse momento que vivemos \u00e9 di\u00e1logo e conversa franca, sem perdermos tempo com <em>data venia<\/em>. Para aumentarmos a fluidez de nosso di\u00e1logo, vamos deixar as refer\u00eancias para voc\u00ea nos links (\u00e9 s\u00f3 clicar no texto que estiver assim: <u>link<\/u>). Neles, voc\u00ea encontra refer\u00eancias para aprofundar a sua intera\u00e7\u00e3o com essa e outras hist\u00f3rias.<\/p><p>Voltando ao nosso ponto: ao contarmos essa hist\u00f3ria, n\u00e3o nos colocamos como narradoras neutras, mas como algu\u00e9m que v\u00ea o mundo de um lugar bastante espec\u00edfico, o de feminista. Ser feminista \u00e9 assumir um compromisso \u00e9tico e pol\u00edtico com a transforma\u00e7\u00e3o radical do mundo em que vivemos, orientando-se, para isso, pela igualdade e justi\u00e7a. Como \u00e9 poss\u00edvel ser feminista de muitas formas, aqui j\u00e1 conto logo para voc\u00ea que n\u00f3s entendemos que a igualdade de g\u00eanero tem que ser constru\u00edda bem articulada com a igualdade de ra\u00e7a, etnia, classe, dentre outras formas de inclus\u00e3o que desejamos que se tornem realidade (sociais e <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=TSHi9S1BGls&amp;t=168s\"><span style=\"text-decoration: underline;\">territoriais<\/span><\/a>). Voc\u00ea j\u00e1 deve estar imaginando, neste momento, quem n\u00f3s convidamos para protagonizar esta hist\u00f3ria. E, sim, voc\u00ea est\u00e1 coberta de raz\u00e3o. S\u00e3o os feminismos. Para construir nosso argumento vamos buscar nas teorias e pr\u00e1ticas feministas nossas ferramentas.<\/p><p>Para dar imagem, sons e movimentos para a a\u00e7\u00e3o, vamos trazer alguns dados. \u00c9 importante que usemos o <a href=\"https:\/\/politica.estadao.com.br\/blogs\/gestao-politica-e-sociedade\/o-conhecimento-como-aliado-informar-para-enfrentar-desigualdades-e-promover-direitos-humanos\/\"><span style=\"text-decoration: underline;\">conhecimento como aliado<\/span><\/a> em nossa narrativa. Para isso, fazemos aqui uma breve pausa para convidar voc\u00ea a conhecer dois Observat\u00f3rios das Desigualdades, o da <a href=\"https:\/\/ccsa.ufrn.br\/portal\/?page_id=11940\"><span style=\"text-decoration: underline;\">UFRN<\/span><\/a> e o da <span style=\"text-decoration: underline;\"><a href=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?paged=5\">Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro<\/a><\/span>.\u00a0 Eles ser\u00e3o fontes importantes para a nossa narrativa. Por fim, na nossa cena final, vamos fazer algo diferente. N\u00e3o vamos nos limitar a contar o que aconteceu e o que acontece, mas tamb\u00e9m vamos propor alguns caminhos para podermos construir uma narrativa de futuro que seja diferente. E a\u00ed vamos convidar voc\u00ea a se engajar para que essa vis\u00e3o de futuro possa, de fato, virar conversa cotidiana.<\/p><p><em>Come\u00e7amos?<\/em><\/p><p>Vamos come\u00e7ar pelo 8 de mar\u00e7o. Exatamente aquele dia em que muitas pessoas acham que \u00e9 o dia de dar flores e bombons para mulheres e algumas organiza\u00e7\u00f5es disponibilizam servi\u00e7os de manicure e cabeleireiros para deixar a mulherada top. N\u00f3s quer\u00edamos te convidar a entender o 8 de mar\u00e7o de forma diferente, como o <a href=\"http:\/\/sof2.tempsite.ws\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/8demarco.pdf\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Dia internacional de Luta das Mulheres<\/span>.<\/a> Nessa proposta, a gente pode substituir as flores por direitos e os bombons por efetivar igualdade e justi\u00e7a (e nada contra as flores e os bombons, que podem fazer parte da nossa grande festa da justi\u00e7a social, quando ela acontecer). E entender esse dia como um marco que nos convoca a pensar (e agir) sobre um problema que deve ser encarado em todos os outros dias do ano: as desigualdades de g\u00eanero.<\/p><p>Em 2021, ser\u00e1 a primeira vez que vamos vivemos este momento durante a pandemia de covid-19, um dos epis\u00f3dios mais tristes de nossa hist\u00f3ria. Em pouco mais de um ano, j\u00e1 foram registradas mais de <span style=\"text-decoration: underline;\"><a href=\"https:\/\/covid.lais.ufrn.br\/\">250 mil vidas<\/a><\/span> perdidas no Brasil mais de<span style=\"text-decoration: underline;\"> <a href=\"https:\/\/www.worldometers.info\/coronavirus\/\">duas milh\u00f5es no mundo<\/a>.<\/span> Mas, n\u00e3o pense nesse n\u00famero de forma abstrata. Lembre-se que por detr\u00e1s de cada um deles h\u00e1 sonhos, amores (e dores) e, pelo menos, uma m\u00fasica preferida. E h\u00e1 voc\u00ea, que ficou, mas perdeu uma pessoa querida. E para lembrar dela \u00e9 que voc\u00ea vai querer construir um mundo melhor, correto? Ent\u00e3o, siga comigo.<\/p><p><em>A pandemia e a realidade de desigualdades&#8230;<\/em><\/p><p>Eu parei neste epis\u00f3dio da pandemia porque eu queria te contar que, durante ela, as desigualdades de g\u00eanero se intensificaram, assim como as desigualdades de ra\u00e7a e classe (lembrem-se que elas caminham juntas, ou melhor, uma forma os passos das outras).<\/p><p>O recolhimento em casa, necess\u00e1rio para conter a circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, cria um ambiente prop\u00edcio para o aumento de casos de viol\u00eancia contra mulheres e crian\u00e7as. Como o <a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/violencia-domestica-covid-19-v3.pdf\"><span style=\"text-decoration: underline;\">F\u00f3rum de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/span><\/a> aponta, ainda que tenha diminu\u00eddo o registro de viol\u00eancias dom\u00e9sticas (o que pode indicar dificuldade das v\u00edtimas para acessar o servi\u00e7o), houve aumento de <span style=\"text-decoration: underline;\"><a href=\"https:\/\/dossies.agenciapatriciagalvao.org.br\/feminicidio\/capitulos\/o-que-e-feminicidio\/\">feminic\u00eddios<\/a><\/span> (que quer dizer homic\u00eddio de mulheres por serem mulheres). Nesse contexto, o gr\u00e1fico 1 retrata o n\u00famero de feminic\u00eddios, respectivamente, para o 1\u00b0 trimestre de 2019 e de 2020, para alguns estados selecionados.<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 1: Feminic\u00eddio para os estados selecionados, 1\u00ba trimestre de 2019 \u2013 1\u00ba trimestre de 2020<\/p><p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1511 aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/1.jpg\" alt=\"\" width=\"877\" height=\"429\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/1.jpg 877w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/1-300x147.jpg 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/1-768x376.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 877px) 100vw, 877px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Fonte: <a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/violencia-domestica-covid-19-v3.pdf\">https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/violencia-domestica-covid-19-v3.pdf<\/a> . Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/p><p>No Par\u00e1, os homic\u00eddios de mulheres cresceram 11,8% e os de feminic\u00eddios 187,5%. J\u00e1 no Rio Grande do Sul, observa-se um crescimento de 73% nos casos de feminic\u00eddios quando comparados com o 1\u00b0 trimestre de 2020. Em S\u00e3o Paulo essa tend\u00eancia continua, ou seja, houve um aumento de 25% de casos de feminic\u00eddios, saltando de 36 v\u00edtimas, no 1\u00b0 trimestre de 2019, para 49 v\u00edtimas no mesmo per\u00edodo em 2020. Al\u00e9m disso, uma pesquisa do coletivo<span style=\"text-decoration: underline;\"> <a href=\"https:\/\/www.ufmg.br\/prae\/noticias\/populacao-lgbt-ficou-mais-vulneravel-com-a-pandemia\/\">#VoteLGBT, da UFMG e da Unicamp<\/a><\/span>, indica a percep\u00e7\u00e3o da comunidade <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=5npVai0rpys&amp;t=52s\"><span style=\"text-decoration: underline;\">LBGTQI+<\/span><\/a> de um aumento de vulnerabilidade durante o per\u00edodo, envolvendo viol\u00eancia, sa\u00fade e acesso ao emprego.<\/p><p>O fechamento das escolas, especialmente da educa\u00e7\u00e3o infantil, aumentou os trabalhos dom\u00e9sticos e de cuidado, desproporcionalmente assumido pelas mulheres. Segundo estudo da <a href=\"http:\/\/mulheresnapandemia.sof.org.br\/\"><span style=\"text-decoration: underline;\">SempreViva Organiza\u00e7\u00e3o Feminista (SOF) e G\u00eanero e N\u00famero<\/span><\/a>, 50% das mulheres entrevistadas afirmaram ter passado a cuidar de algu\u00e9m, resultado que varia entre mulheres negras, brancas, ind\u00edgenas ou amarelas. O fechamento dos j\u00e1 insuficientes servi\u00e7os de cuidado se somam a pouca participa\u00e7\u00e3o dos <a href=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=880\"><span style=\"text-decoration: underline;\">homens<\/span><\/a> nas responsabilidades dom\u00e9sticas (gr\u00e1fico 2), e o resultado \u00e9 dram\u00e1tico sobre a vida das mulheres e das pessoas negras (gr\u00e1fico 3), (ligando os pontos, isso quer dizer piora especialmente para as mulheres negras).<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 2: M\u00e9dia de horas semanais dedicadas a cuidados de pessoas e\/ou afazeres dom\u00e9sticos por pessoa de 14 anos ou mais, segundo sexo e por regi\u00e3o geogr\u00e1fica \u2013 Brasil (2019)<\/p><p><img decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-1512 aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/2-1024x498.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"498\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/2-1024x498.jpg 1024w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/2-300x146.jpg 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/2-768x373.jpg 768w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/2.jpg 1066w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Fonte: <a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv101784_informativo.pdf\">https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv101784_informativo.pdf<\/a>. Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 3: M\u00e9dia de horas semanais de trabalho dom\u00e9stico e de cuidado n\u00e3o remunerado, segundo sexo e cor ou ra\u00e7a\u2013 Brasil (2019)<\/p><p><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1513 aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3.jpg\" alt=\"\" width=\"824\" height=\"411\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3.jpg 824w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3-300x150.jpg 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3-768x383.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 824px) 100vw, 824px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Fonte: <a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv101784_informativo.pdf\">https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv101784_informativo.pdf<\/a>. Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/p><p>Isso se refletia nos dados da PNAD cont\u00ednua do IBGE do final de 2020, retratados nesta mat\u00e9ria da Folha de S\u00e3o Paulo. Se comparamos a <span style=\"text-decoration: underline;\"><a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/explica\/desemprego.php#:~:text=Esta%20taxa%2C%20que%20divulgamos%20com,de%20trabalho%20que%20est%C3%A3o%20desempregadas.\">taxa de ocupa\u00e7\u00e3o (emprego<\/a>)<\/span> do final de 2019 com o final de 2020, percebemos que enquanto os resultados para os homens diminuiu de 64% para 58%, para as mulheres a piora foi de 46% para 40%. E, como apontam os boletins do <a href=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Boletim-n%C2%BA9-Corona-com-Anexo-1.pdf\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Observat\u00f3rio das Desigualdades da FJP<\/span><\/a>, s\u00e3o as mulheres <span style=\"text-decoration: underline;\"><a href=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Boletim-8.pdf\">negras e empobrecidas<\/a><\/span> que d\u00e3o a cara do que \u00e9 a ocupa\u00e7\u00e3o informal e desprotegida no Brasil. Quer um dado? O Observat\u00f3rio destaca que \u201cse olharmos para aquelas que s\u00e3o chefes de fam\u00edlia sem c\u00f4njuge e com filhos menores de 14 anos, 63% est\u00e3o abaixo da linha da pobreza\u201d. O que j\u00e1 estava ruim, ficou pior.<\/p><p>Nenhuma categoria profissional \u00e9 t\u00e3o ilustrativa dos dados que mostramos pra voc\u00ea como a das<span style=\"text-decoration: underline;\"> <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/5pc9Fil9BN3Cj5queA1Z0T\">trabalhadoras dom\u00e9sticas<\/a><\/span>. Usamos o feminino<span style=\"text-decoration: underline;\"> <a href=\"http:\/\/repositorio.ipea.gov.br\/handle\/11058\/10077\">porque elas s\u00e3o majoritariamente mulheres (95%)<\/a>,<\/span> mais precisamente: mulheres negras (65%), conforme ilustra o gr\u00e1fico 4. A profiss\u00e3o significa 15% das trabalhadoras empregadas (10% das mulheres brancas e 18,6% das negras). E empobrecidas. <a href=\"https:\/\/politica.estadao.com.br\/blogs\/gestao-politica-e-sociedade\/essencial-mas-marginal-o-trabalho-domestico-remunerado-antes-e-durante-a-pandemia\/\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Em 2019, a remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia no setor era de R$916,00, abaixo do sal\u00e1rio-m\u00ednimo<\/span><\/a>, e em 2020, apenas<span style=\"text-decoration: underline;\"><a href=\"http:\/\/repositorio.ipea.gov.br\/handle\/11058\/10077\"> 28% delas tinha carteira assinada<\/a><\/span>. Convidamos voc\u00eas para ver esse retrato das desigualdades no gr\u00e1fico a seguir.<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 4: Trabalhadores(as) dom\u00e9sticos(as) de 18 anos ou mais de idade, segundo a posse de carteira de trabalho, por sexo e ra\u00e7a\/cor \u2013 Brasil (2018)<\/p><p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-1514 aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4-1024x463.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"463\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4-1024x463.jpg 1024w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4-300x136.jpg 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4-768x347.jpg 768w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4.jpg 1044w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Fonte: <a href=\"http:\/\/repositorio.ipea.gov.br\/bitstream\/11058\/10077\/1\/NT_75_Disoc_Vulnerabilidades%20das%20Trabalhadoras%20Domesticas.pdf\">http:\/\/repositorio.ipea.gov.br\/bitstream\/11058\/10077\/1\/NT_75_Disoc_Vulnerabilidades%20das%20Trabalhadoras%20Domesticas.pdf<\/a> . Elabora\u00e7\u00e3o Pr\u00f3pria<\/p><p>Al\u00e9m disso, no \u00faltimo ano, o trabalho dom\u00e9stico se fez bastante presente na cole\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias macabras que s\u00f3 um pa\u00eds t\u00e3o desigual e <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1111\/gwao.12536\"><span style=\"text-decoration: underline;\">enraizado na escravid\u00e3o<\/span><\/a> \u00a0como o Brasil pode oferecer. Em Pernambuco, o <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pe\/pernambuco\/noticia\/2020\/06\/05\/caso-miguel-como-foi-a-morte-do-menino-que-caiu-do-9o-andar-de-predio-no-recife.ghtml\"><span style=\"text-decoration: underline;\">menino Miguel<\/span><\/a> encontrou a morte enquanto sua m\u00e3e, Mirtes Souza, trabalhadora dom\u00e9stica, passeava com os cachorros e sua patroa, Sar\u00ed Corte Real, despachava-o pelo elevador rumo a seu destino tr\u00e1gico. Em Minas Gerais, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2020\/12\/mulher-negra-e-resgatada-em-casa-de-familia-em-mg-em-condicoes-analogas-a-escravidao.shtml\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Madalena Gordiano<\/span><\/a><span style=\"text-decoration: underline;\">,<\/span> foi resgatada ap\u00f3s ter sido submetida por quase toda sua vida ao trabalho dom\u00e9stico em condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p><p>Antes de prosseguirmos, \u00e9 importante lembrar voc\u00ea, leitora, que a crise econ\u00f4mica causada pela pandemia foi piorada, no Brasil, pelo fato do Governo Federal ter adotado uma <a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/atualidades\/pesquisa-identifica-estrategia-do-executivo-federal-em-atrapalhar-combate-a-pandemia\/\"><span style=\"text-decoration: underline;\">estrat\u00e9gia de atrapalhar<\/span> deliberadamente o combate \u00e0 pandemia<\/a>. O que significa que o Governo Federal tem responsabilidade na piora das <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6m-L1MJLdk4\"><span style=\"text-decoration: underline;\">desigualdades econ\u00f4micas<\/span><\/a>, que corroem as condi\u00e7\u00f5es de vida das brasileiras e dos brasileiros, especialmente daquelas e daqueles que j\u00e1 estavam em maior situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, a exemplo das mulheres negras e empobrecidas, especialmente do Norte e Nordeste do pa\u00eds.<\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p><em>Mundo do trabalho: desigualdades de g\u00eanero interseccionadas com ra\u00e7a, etnia e classe<\/em><\/p><p>Como voc\u00ea pode perceber, a realidade das desigualdades de g\u00eanero\/sexualidade <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=V4c7_-hcE7U&amp;t=32s\"><span style=\"text-decoration: underline;\">interseccionada<\/span><\/a> com ra\u00e7a e classe \u00e9 injusta, e piorou do 8 de mar\u00e7o de 2020 para 2021. Para entendermos um pouco melhor esses fatos, vamos rapidamente abrir uma caixa de ferramentas conceituais.<\/p><p>Um conceito fundamental para entendermos as desigualdades de g\u00eanero \u00e9 o de <a href=\"https:\/\/edisciplinas.usp.br\/pluginfile.php\/345998\/mod_resource\/content\/0\/KERGOAT.%20Divisao%20sexual%20do%20trabalho%20e%20relacoes%20sociais%20de%20sexo.pdf\"><span style=\"text-decoration: underline;\">divis\u00e3o sexual do trabalho<\/span><\/a>, que, como discutem as feministas, separa e hierarquiza formas de trabalho, em rela\u00e7\u00e3o ao g\u00eanero. Os trabalhos reprodutivos (que inclui os cuidados e os trabalhos dom\u00e9sticos remunerados e n\u00e3o remunerados) s\u00e3o associados \u00e0s mulheres e a sociedade atribui a eles menor valor. Suas formas n\u00e3o remuneradas nem mesmo s\u00e3o reconhecidas como trabalho! Ou voc\u00ea j\u00e1 parou pra pensar na quantidade de trabalho que sua m\u00e3e, av\u00f3 ou tia tiveram que realizar pra garantir que voc\u00ea estivesse aqui lendo este texto?<\/p><p>O <a href=\"https:\/\/www.sof.org.br\/cuidado-trabalho-e-autonomia-das-mulheres\/\"><span style=\"text-decoration: underline;\">trabalho de cuidado<\/span><\/a> \u00e9 o maior exemplo do paradoxo que \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o social de nossas vidas. Ainda que ele seja fundamental para a sustentabilidade da vida humana, a forma que n\u00f3s organizamos nosso tempo e nossas vidas n\u00e3o se faz em torno dele. Ao contr\u00e1rio, o trabalho de cuidado \u00e9 realizado \u201cnas brechas\u201d dos tempos dispon\u00edveis, ou por meio do \u201c<a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S0100-15742007000300005&amp;script=sci_abstract&amp;tlng=pt\"><span style=\"text-decoration: underline;\">se virar\u201d das mulheres<\/span><\/a>. No Brasil, as fam\u00edlias que podem pagar <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S0100-15742000000200003&amp;script=sci_abstract&amp;tlng=pt\"><span style=\"text-decoration: underline;\">contratam trabalhadoras dom\u00e9sticas<\/span><\/a> para faz\u00ea-lo. Mas quem cuida das trabalhadoras dom\u00e9sticas? Esta \u00e9 uma pergunta que continua sem resposta, j\u00e1 que as afli\u00e7\u00f5es cotidianas das mulheres negras n\u00e3o se veem refletidas no espelho da <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=tgDr3expic8&amp;t=35s\"><span style=\"text-decoration: underline;\">branquitude<\/span><\/a>, que define as fronteiras do que importa em uma sociedade desigual como o Brasil.<\/p><p>Para entendermos as <a href=\"https:\/\/ccsa.ufrn.br\/portal\/?p=12451\"><span style=\"text-decoration: underline;\">desigualdades<\/span><\/a> estruturantes do mundo do trabalho, g\u00eanero e divis\u00e3o sexual do trabalho s\u00e3o ferramentas fundamentais, mas n\u00e3o suficientes. \u00c9 necess\u00e1rio termos em vista a intersec\u00e7\u00e3o com outras rela\u00e7\u00f5es que produzem desigualdades, como classe, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ih2WAObtDIE&amp;t=31s\"><span style=\"text-decoration: underline;\">etnia<\/span><\/a><span style=\"text-decoration: underline;\"> e <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=hRtryuJRWgs&amp;t=21s\">ra\u00e7a<\/a><\/span>. Isso significa entender que essas rela\u00e7\u00f5es formam um <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=gmGgWPeB2jg&amp;t=8s\"><span style=\"text-decoration: underline;\">n\u00f3 que n\u00e3o d\u00e1 pra desata<\/span>r<\/a>. E \u00e9 desse fio que puxamos toda a hist\u00f3ria que contamos at\u00e9 agora.<\/p><p>Este ferramental te\u00f3rico, tirado da caixinha de ferramentas feministas, \u00e9 muito \u00fatil para entendermos o mundo em que vivemos. Mas n\u00e3o apenas. Ele tamb\u00e9m serve para agirmos nele e, assim, mudarmos seus rumos. \u00c9 aqui que nos encaminhamos para o fim de nossa hist\u00f3ria.<\/p><p><em>Mundo do trabalho com igualdade e justi\u00e7a: um final feliz <\/em><\/p><p>A partir daqui, apresentamos algumas propostas para mudarmos o desfecho da hist\u00f3ria que apresentamos para voc\u00ea, para podermos acreditar em um final feliz. Nosso foco \u00e9 a garantia de <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6ESNahBpr5s\"><span style=\"text-decoration: underline;\">direitos humanos<\/span><\/a> e a efetiva\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. Mas queremos alertar que os horizontes feministas v\u00e3o muito al\u00e9m desses limites, e projetam uma nova sociedade.<\/p><p>A base para as nossas propostas foram os Planos Nacionais de Pol\u00edticas para as Mulheres (<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mdh\/pt-br\/navegue-por-temas\/politicas-para-mulheres\/arquivo\/assuntos\/pnpm\/pnpm-relatorio.pdf\">2004<\/a>; <a href=\"http:\/\/portal.mec.gov.br\/dmdocuments\/planonacional_politicamulheres.pdf\">2008;<\/a> <a href=\"http:\/\/www.compromissoeatitude.org.br\/plano-nacional-de-politicas-para-as-mulheres-2013-2015-spm-pr-2013\/\">2013<\/a>) que sistematizaram em propostas de pol\u00edticas p\u00fablicas as reivindica\u00e7\u00f5es dos movimentos feministas e de mulheres de todo o Brasil. E, ainda, o \u201c<a href=\"https:\/\/www.geledes.org.br\/pdf-pensar-o-brasil-para-o-enfrentamento-do-racismo-do-sexismo-e-da-lesbofobia\/\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Relat\u00f3rio Final<\/span> do Grupo de Trabalho para\u00a0Fortalecimento das A\u00e7\u00f5es de Enfrentamento\u00a0ao Racismo, Sexismo e Lesbofobia no II Plano\u00a0Nacional de Pol\u00edticas para as Mulheres<\/a>\u201d, que apontou caminhos para interseccionar g\u00eanero\/sexualidade, ra\u00e7a e classe, fruto da atua\u00e7\u00e3o dos movimentos de mulheres negras, l\u00e9sbicas e bissexuais.<\/p><p>Come\u00e7amos pela promo\u00e7\u00e3o de inciativas que ampliem o acesso de todas as mulheres a empregos de qualidade, e que contem com garantias trabalhistas e previdenci\u00e1rias, com especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres negras. E, ainda, a\u00e7\u00f5es que garantam condi\u00e7\u00f5es adequadas para gera\u00e7\u00e3o de renda, especialmente das mulheres rurais (cr\u00e9dito, assist\u00eancia t\u00e9cnica, acesso ao mercado consumidor, apoio ao associativismo, cooperativismo e economia solid\u00e1ria). Essas iniciativas precisam envolvem a <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=w1XXuUBSLBA\"><span style=\"text-decoration: underline;\">intersetorialidade<\/span><\/a> das pol\u00edticas de trabalho e de educa\u00e7\u00e3o, proporcionando a oferta educativa n\u00e3o sexista, n\u00e3o racista e n\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=WrEyggzQCWk&amp;t=25s\"><span style=\"text-decoration: underline;\">homo-bi-<\/span><\/a><span style=\"text-decoration: underline;\"><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=oSSId2lj_f8&amp;t=13s\">lesbo<\/a>&#8211;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=y5_C1SbKrPc\">transf\u00f3bica<\/a><\/span>. Essas medidas s\u00e3o importantes para \u201cquebrar\u201d as \u201cparedes\u201d e \u201ctetos\u201d de vidro que separam \u201ctrabalhos femininos\u201d de \u201ctrabalho masculinos\u201d, e que contribuem para o desvalor dos primeiros e para limitar a ascens\u00e3o feminina em postos de lideran\u00e7a.<\/p><p>Promover a perman\u00eancia em posi\u00e7\u00f5es e ocupa\u00e7\u00f5es que gerem renda \u00e9 tamb\u00e9m fundamental. Nesse sentido, \u00e9 necess\u00e1rio envolver o Estado como um todo e, tamb\u00e9m,<span style=\"text-decoration: underline;\"> <a href=\"http:\/\/bibliotecadigital.fgv.br\/dspace\/handle\/10438\/27766\">o setor empresarial<\/a><\/span> na ado\u00e7\u00e3o\/amplia\u00e7\u00e3o\/manuten\u00e7\u00e3o de medidas n\u00e3o discriminat\u00f3rias e de a\u00e7\u00f5es afirmativas que permitam o acesso a postos de trabalho de qualidade e, tamb\u00e9m, \u00e0s universidades.<\/p><p>Al\u00e9m disso, igualmente importante \u00e9 a garantia de acesso a benef\u00edcios sociais n\u00e3o contributivos (ex. renda b\u00e1sica da cidadania) para reduzir a pobreza, especialmente se considerarmos pessoas que, ao longo de sua trajet\u00f3ria laboral, n\u00e3o tiveram acesso ao mercado formal de trabalho (que envolve especialmente mulheres e pessoas negras, mas tamb\u00e9m outros grupos, como mulheres e homens trans). Direitos como os de licen\u00e7as remuneradas por nascimento de filhas e filhos, especialmente paternidade, ainda est\u00e3o vinculados \u00e0 l\u00f3gica de contribui\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o de valoriza\u00e7\u00e3o do cuidado e de quem cuida.<\/p><p>A quest\u00e3o das licen\u00e7as nos remete \u00e0 import\u00e2ncia de estrutura\u00e7\u00e3o de um sistema nacional integral de cuidados, que articule pol\u00edticas e direitos para quem precisa de cuidados (crian\u00e7as e pessoas idosas e deficientes em situa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia), quem cuida, de forma remunerada e n\u00e3o remunerada (especialmente mulheres, e, dentre elas, mulheres negras) e, ainda, para quem deveria cuidar.<\/p><p>A valoriza\u00e7\u00e3o de quem cuida profissionalmente e n\u00e3o profissionalmente implica garantia\/amplia\u00e7\u00e3o\/efetiva\u00e7\u00e3o de direitos. A categoria das trabalhadoras dom\u00e9sticas deve ser priorit\u00e1ria, assim como a estrutura\u00e7\u00e3o de carreiras e pisos salariais para outras profiss\u00f5es que se relacionam ao cuidado, a <a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/noticias\/725338-projeto-estabelece-piso-nacional-para-profissionais-de-enfermagem-e-parteiras\/#:~:text=O%20Projeto%20de%20Lei%205640,enfermeiros%20ser%C3%A1%20de%20R%24%207.616.\"><span style=\"text-decoration: underline;\">exemplo da enfermagem<\/span> (incluindo t\u00e9cnicas) e parteiras<\/a>.<\/p><p>Pol\u00edticas e direitos podem ser utilizados para fomentar a maior responsabilidade de quem deveria cuidar, mas n\u00e3o o faz. Nesse sentido, a cria\u00e7\u00e3o de licen\u00e7a parental para o primeiro ano das crian\u00e7as (incluindo ado\u00e7\u00e3o) seria fundamental, pois permitiria o exerc\u00edcio por m\u00e3es e pais. Al\u00e9m disso, ao se desvincular da ideia de maternidade\/paternidade, a medida oferece uma resposta mais adequada para outros arranjos familiares, incluindo as fam\u00edlias LGBTQI+.<\/p><p>A pe\u00e7a fundamental de um sistema nacional integral de cuidados \u00e9, contudo, a estrutura\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos e de qualidade para o cuidado de crian\u00e7as e pessoas idosas e deficientes. No caso das crian\u00e7as, necess\u00e1rio priorizar a educa\u00e7\u00e3o infantil, por meio de creches e pr\u00e9-escolas integrais, e que elas sejam articuladas a outras iniciativas de cuidado que permitam atender, de forma flex\u00edvel, as necessidades de quem cuida, considerando quem trabalha \u00e0 noite, de final de semana e durante as f\u00e9rias escolares.<\/p><p>Finalmente, \u00e9 necess\u00e1rio recordar que se a intersec\u00e7\u00e3o entre g\u00eanero, ra\u00e7a, etnia e classe estruturam as desigualdades sociais e territoriais no mundo do trabalho, um projeto de a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas produtor de igualdades deve ser orientado para responder a esses problemas p\u00fablicos. E isso inclui as ditas \u201cgrandes quest\u00f5es\u201d pol\u00edticas e econ\u00f4micas. Reformas trabalhistas, previdenci\u00e1rias e tribut\u00e1rias, por exemplo, devem ser pensadas em termos interseccionais. Assim como os efeitos (nefastos) das reformas recentes e de medidas como o teto de gastos.<\/p><p>Esperamos, por meio desta reflex\u00e3o, contribuir com teorias e pr\u00e1ticas para enfrentar as desigualdades. E, no subir dos cr\u00e9ditos, agradecemos especialmente aos feminismos, por protagonizarem uma hist\u00f3ria de luta que traz a cr\u00edtica para a an\u00e1lise, mas pratica o otimismo na constru\u00e7\u00e3o do devir.<\/p><p>\u00a0<\/p><p><strong>Autoras:<\/strong><\/p><p><strong>Mariana Mazzini Marcondes<\/strong> \u00e9 feminista e doutora em Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica e Governo pela Escola de Administra\u00e7\u00e3o de Empresas de S\u00e3o Paulo da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (EAESP\/FGV). Professora de Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica e Gest\u00e3o Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e docente do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Gest\u00e3o P\u00fablica (PPGP\/UFRN), \u00e9 tamb\u00e9m Especialista em Pol\u00edticas P\u00fablicas e Gest\u00e3o Governamental (EPPGG) do Minist\u00e9rio da Economia (em vac\u00e2ncia). Coordena o Observat\u00f3rio das Desigualdades da UFRN. Pesquisa: g\u00eanero e pol\u00edticas p\u00fablicas; desigualdades e pol\u00edtica social; cuidado, trabalho e g\u00eanero; e participa\u00e7\u00e3o social.<\/p><p><strong>Marina Silva<\/strong> \u00e9 graduanda em Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica pela Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro e coordenadora discente do Observat\u00f3rio das Desigualdades, um projeto de extens\u00e3o da FJP em parceria com o CORECON\/MG.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Triste louca ou m\u00e1Ser\u00e1 qualificadaEla quem recusarSeguir receita tal A receita culturalDo marido, da fam\u00edliaCuida, cuida da rotina S\u00f3 mesmo rejeitaBem conhecida receitaQuem n\u00e3o sem doresAceita que tudo deve mudar Que um homem n\u00e3o te defineSua casa n\u00e3o te defineSua carne n\u00e3o te defineVoc\u00ea \u00e9 seu pr\u00f3prio lar \u00a0 (Triste, louca ou 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