{"id":1534,"date":"2021-03-10T12:14:37","date_gmt":"2021-03-10T12:14:37","guid":{"rendered":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=1534"},"modified":"2021-03-10T12:24:11","modified_gmt":"2021-03-10T12:24:11","slug":"desigualdade-de-genero-na-pobreza-e-tres-pontos-para-seu-enfrentamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=1534","title":{"rendered":"Desigualdade de g\u00eanero na pobreza e tr\u00eas pontos para seu enfrentamento"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"1534\" class=\"elementor elementor-1534\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-3e9245d elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"3e9245d\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-b75f1a6\" data-id=\"b75f1a6\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-5cc816f elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"5cc816f\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>Dizem que a pobreza tem cor. Mas al\u00e9m de cor, ela tem tamb\u00e9m g\u00eanero e esse \u00e9 feminino. O fen\u00f4meno conhecido como feminiza\u00e7\u00e3o da pobreza aponta exatamente para isso. Esse termo foi cunhado em fins dos anos 70, para apontar para uma presen\u00e7a maior de mulheres entre os pobres. V\u00e1rios estudos sustentam que esse fen\u00f4meno ocorre relacionado, sobretudo, \u00e0 omiss\u00e3o de um companheiro em compartilhar as responsabilidades e o \u00f4nus do sustento da fam\u00edlia, sendo o fen\u00f4meno da feminiza\u00e7\u00e3o materializado mais frequentemente nas fam\u00edlias chefiadas por mulheres; ou seja, \u00a0\u201co processo de feminiza\u00e7\u00e3o da pobreza tem in\u00edcio quando a mulher, sozinha, tem que prover o seu sustento e o de seus filhos\u201d (Novellino, 2004),\u00a0 o que n\u00e3o exclui a exist\u00eancia de mulheres pobres em fam\u00edlias n\u00e3o monoparentais.<\/p><p>A maior presen\u00e7a de mulheres entre os pobres e extremamente pobres pode ter diversas explica\u00e7\u00f5es, mas uma das mais consensuais refere-se \u00e0 posi\u00e7\u00e3o das mulheres na divis\u00e3o sexual e social do trabalho. A partir das diferen\u00e7as socialmente constru\u00eddas entre homens e mulheres em uma sociedade machista, \u00e9 estruturada a distribui\u00e7\u00e3o do poder e hierarquias, as desigualdades s\u00e3o produzidas, pap\u00e9is s\u00e3o definidos e rela\u00e7\u00f5es sociais de determinados tipos s\u00e3o sustentadas e legitimadas. A an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es de inser\u00e7\u00e3o das mulheres no mercado de trabalho, em empregos mal remunerados, prec\u00e1rios e com alto grau de informalidade, mostra uma situa\u00e7\u00e3o que se mant\u00e9m ao longo dos anos, apontando um padr\u00e3o de desigualdade que n\u00e3o \u00e9 anulado por nenhuma outra condi\u00e7\u00e3o. As mulheres est\u00e3o menos presentes que os homens no mercado de trabalho, especialmente o formal, recebem sal\u00e1rios menores e ocupam menos os cargos de lideran\u00e7a ou de maior rendimento.<\/p><p>Para exemplificar essa hist\u00f3rica desigualdade de inser\u00e7\u00e3o das mulheres no mercado de trabalho, o gr\u00e1fico 1, referente a PNAD cont\u00ednua de 2019, ilustra a m\u00e9dia de horas semanais dedicadas a afazeres dom\u00e9sticos por sexo e nota-se que no per\u00edodo analisado, as mulheres dedicam quase o dobro do tempo quando comparado com os homens, alcan\u00e7ando a m\u00e9dia de 21,4 contra apenas 11,0 dos homens. Al\u00e9m disso, apesar da Regi\u00e3o Sudeste ser que a apresenta a maior m\u00e9dia de horas dedicadas por mulheres, com cerca de 22,1, \u00e9 na Regi\u00e3o Nordeste que se encontra a maior desigualdade entre mulheres e homens. O envolvimento das mulheres no trabalho n\u00e3o remunerado est\u00e1 diretamente relacionado com a pequena participa\u00e7\u00e3o desse grupo no mercado de trabalho e mesmo para as mulheres est\u00e3o inseridas no mercado, as atividades dom\u00e9sticas podem impactar sua carreira profissional, visto que h\u00e1 a dificuldade constante em conciliar a dupla jornada entre trabalho remunerado e n\u00e3o-remunerado. O <a href=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Boletim-8.pdf\">Boletim n. 8<\/a> do Observat\u00f3rio das Desigualdades trata exatamente desse tema, trazendo dados que comprovam a posi\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel das mulheres \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de pobreza; seja por conta do trabalho dom\u00e9stico n\u00e3o remunerado, que n\u00e3o apenas n\u00e3o gera renda, mas dificulta a inser\u00e7\u00e3o das mulheres na for\u00e7a de trabalho formal, seja pelo sal\u00e1rio inferior das mulheres em compara\u00e7\u00e3o com os homens.<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 1 &#8211; M\u00e9dia de horas semanais dedicadas a cuidados de pessoas e\/ou afazeres dom\u00e9sticos por pessoa de 14 anos ou mais, por sexo e regi\u00e3o geogr\u00e1fica \u2013 Brasil (2019)<\/p><p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1535\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/1-2.jpg\" alt=\"\" width=\"989\" height=\"486\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/1-2.jpg 989w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/1-2-300x147.jpg 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/1-2-768x377.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 989px) 100vw, 989px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Fonte: <a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv101784_informativo.pdf\">https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv101784_informativo.pdf<\/a> . Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/p><p>Ademais, quando se analisa a m\u00e9dia de horas semanais dedicadas a cuidados de pessoas e\/ou afazeres dom\u00e9sticos com o recorte por rendimento domiciliar <em>per capita<\/em>, as disparidades ficam ainda mais claras. Nesse cen\u00e1rio, observando o gr\u00e1fico 2 percebe-se que a maior m\u00e9dia de horas dedicadas a afazeres dom\u00e9sticos encontra-se entre as mulheres que fazem parte dos 20% da popula\u00e7\u00e3o com os menores rendimentos, com cerca de 24,1 horas, contrastando com cerca de 18,2 horas para as mulheres que se encontram nos 20% da popula\u00e7\u00e3o com maiores rendimentos. Essa disparidade aponta que a renda \u00e9 um fator que impacta diretamente no n\u00edvel de desigualdade entre as mulheres no cumprimento do trabalho n\u00e3o-remunerado e pode ser explicado a partir do acesso dessemelhante ao servi\u00e7o de creches e \u00e0 contrata\u00e7\u00e3o de trabalho dom\u00e9stico remunerado, fato que possibilita a delega\u00e7\u00e3o das atividades de cuidados e\/ou afazeres dom\u00e9sticos a outras pessoas, sobretudo a outras mulheres. Outro ponto interessante de se observar \u00e9 que a m\u00e9dia de horas semanais dos homens pouco se altera e permanece praticamente constante para as classes em quest\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 2: M\u00e9dia de horas semanais dedicadas a cuidados de pessoas e\/ou afazeres dom\u00e9sticos por pessoa de 14 anos ou mais, por classes da popula\u00e7\u00e3o em ordem crescente de rendimentos \u2013 Brasil (2019)<\/p><p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1536\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/2-2.jpg\" alt=\"\" width=\"944\" height=\"469\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/2-2.jpg 944w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/2-2-300x149.jpg 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/2-2-768x382.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 944px) 100vw, 944px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Fonte: <a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv101784_informativo.pdf\">https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv101784_informativo.pdf<\/a> . Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/p><p>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 desigualdade salarial entre homens e mulheres, o gr\u00e1fico 3 ilustra o rendimento m\u00e9dio mensal de todos os trabalhos, por sexo, segundo as regi\u00f5es geogr\u00e1ficas no Brasil, bem como a propor\u00e7\u00e3o entre a renda das mulheres e dos homens para o ano de 2019. Nesse contexto, nota-se que em 2019, as mulheres ganhavam aproximadamente 77,7% do que os homens ganhavam e que apesar das regi\u00f5es Norte e Nordeste terem valores de rendimento m\u00e9dio mensal mais baixos quando comparado com o resto do Brasil, elas foram a que apresentaram as maiores propor\u00e7\u00f5es de rendimentos das mulheres em rela\u00e7\u00e3o aos homens, com 92,6% e 86,5%, respectivamente. Por fim, a regi\u00e3o que apresenta a maior diferen\u00e7a entre os rendimentos das mulheres e dos homens \u00e9 a Regi\u00e3o Sul no qual as mulheres recebiam apenas 72,8% do que os homens ganham.<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 3: \u00a0Rendimento habitual m\u00e9dio mensal de todos os trabalhos, por sexo, segundo as Grandes Regi\u00f5es e raz\u00e3o de rendimentos<\/p><p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1537\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3-2-1024x462.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"462\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3-2-1024x462.jpg 1024w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3-2-300x135.jpg 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3-2-768x347.jpg 768w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3-2.jpg 1094w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Fonte: IBGE. PNAD Cont\u00ednua 2019. Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/p><p>Dando continuidade, o gr\u00e1fico 4 ilustra a propor\u00e7\u00e3o de pessoas abaixo da linha da extrema pobreza por rendimento domiciliar <em>per capita<\/em> (menos de US$ 1,90 di\u00e1rios per capita PPC), segundo sexo e cor\/ra\u00e7a. A partir da an\u00e1lise do gr\u00e1fico, fica evidente como a condi\u00e7\u00e3o de pobreza e de mis\u00e9ria recai principalmente sobre as pessoas negras, sendo as mulheres negras as mais impactadas. Vale ressaltar que o estudo sobre a feminiza\u00e7\u00e3o da pobreza possui o grande desafio de conseguir levantar dados sobre a distribui\u00e7\u00e3o intrafamiliar de rendimentos, visto que as medidas de n\u00edveis de pobreza s\u00e3o coletadas no \u00e2mbito domiciliar e consideram que os rendimentos possuem uma distribui\u00e7\u00e3o uniforme entre os membros da fam\u00edlia.<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 4: Propor\u00e7\u00e3o de pessoas abaixo da linha da extrema pobreza por rendimento domiciliar per capita (menos de US$ 1,90 di\u00e1rios per capita PPC), segundo sexo e cor\/ra\u00e7a &#8211; Brasil (2012\/2018)<\/p><p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1538\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4-2-1024x539.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"539\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4-2-1024x539.jpg 1024w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4-2-300x158.jpg 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4-2-768x404.jpg 768w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4-2.jpg 1271w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Fonte: <a href=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Boletim-8.pdf\">http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Boletim-8.pdf<\/a><\/p><p>A condi\u00e7\u00e3o de feminiza\u00e7\u00e3o da pobreza impacta n\u00e3o apenas as condi\u00e7\u00f5es de vida atuais, mas tamb\u00e9m contribui para a transmiss\u00e3o intergeracional da pobreza (Novellino, 2004).\u00a0 Por essa raz\u00e3o, os programas p\u00fablicos de enfrentamento da pobreza t\u00eam as mulheres como benefici\u00e1rias diretas. Mas basta ter como p\u00fablico alvo as mulheres para que se tenha uma pol\u00edtica de g\u00eanero? O que \u00e9 necess\u00e1rio fazer para que as pol\u00edticas p\u00fablicas possam reverter as desigualdades de g\u00eanero, que contribuem para que a pobreza incida mais fortemente sobre as mulheres?<\/p><p>O presente texto traz algumas ideias para responder a essas perguntas. N\u00e3o se tem uma bala de prata ou um caminho \u00fanico para isso. Mas certamente as pol\u00edticas p\u00fablicas podem atuar para o enfrentamento e mesmo a revers\u00e3o da desigualdade de g\u00eanero, marca estrutural de nossa sociedade, juntamente com a desigualdade racial.<\/p><ol><li><strong>Programas de Transfer\u00eancia de Renda, a necessidade de um componente para equidade de g\u00eanero e articula\u00e7\u00e3o com pol\u00edticas de promo\u00e7\u00e3o social<\/strong><\/li><\/ol><p>As pol\u00edticas sociais, de forma geral e com mais centralidade na Am\u00e9rica Latina, t\u00eam como base uma concep\u00e7\u00e3o de g\u00eanero familiar, patriarcal e paternalista, na qual o papel da mulher se articula ao do homem provedor, com consequ\u00eancias quanto \u00e0 sua inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho e no espa\u00e7o privado dom\u00e9stico.<\/p><p>Os programas de transfer\u00eancia de renda com condicionalidades, disseminados em toda a Am\u00e9rica Latina no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, eleva as mulheres \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de benefici\u00e1ria principal das transfer\u00eancias de renda pelo Estado, e enfatizam a\u00e7\u00f5es de curto e de longo prazo, focadas na supera\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria imediata e no fortalecimento das capacidades humanas, buscando intervir nas causas da pobreza intergeracional. Com desenhos bastante heterog\u00eaneos, em todos se tem presente pelo menos tr\u00eas elementos: o foco nas fam\u00edlias pobres ou extremamente pobres, com crian\u00e7as e adolescentes; a exig\u00eancia de contrapartidas e o papel central das mulheres como titulares dos programas (Fonseca, 2006).<\/p><p>Como tais estrat\u00e9gias dialogam com a dimens\u00e3o da desigualdade de g\u00eanero? A literatura sobre o tema aponta luzes e sombras a respeito dessa rela\u00e7\u00e3o (Villatoro, 2007). Tais efeitos s\u00e3o amb\u00edguos, porque acenam para uma maior independ\u00eancia das mulheres, a partir do controle que passam a ter sobre um volume de recursos importantes para a sobreviv\u00eancia da fam\u00edlia.<\/p><p>Alguns estudos salientam os efeitos na dimens\u00e3o da autoestima e no empoderamento das mulheres (Cohen, Franco e Villatoro, 2006; Arriagada e Mathivet, 2007), sendo evidente que as transfer\u00eancias de renda, ainda que em valores modestos, podem significar um ganho de autonomia para as mulheres, podendo produzir alguma diferen\u00e7a na dimens\u00e3o da autoestima, ao permitir que a titularidade de um cart\u00e3o de banco d\u00ea as mulheres um maior espa\u00e7o de decis\u00e3o no \u00e2mbito da fam\u00edlia e uma menor depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o dos homens.<\/p><p>N\u00e3o se pode, todavia, superestimar estes poss\u00edveis efeitos empoderamento ou autonomia, uma vez que o alcance de tais atributos e condi\u00e7\u00f5es ultrapassa, e muito, o controle sobre uma pequena quantia de dinheiro (Molyneux, 2006). O resultado seria um empoderamento das mulheres \u201cna fun\u00e7\u00e3o de leg\u00edtimas provedoras da efici\u00eancia no uso de recursos escassos\u201d (Lavinas e Cobo, 2010, apud Timo, 2013) ou gerando uma sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento pela via da posse do cart\u00e3o, pela conquista do status de consumidora (Su\u00e1rez e Libardoni, 2007).<\/p><p>Portanto, embora importantes, as transfer\u00eancias de renda n\u00e3o s\u00e3o suficientes para o empoderamento das mulheres, uma vez que estas continuam envoltas em obriga\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas e reprodutivas no \u00e2mbito das rela\u00e7\u00f5es sociais de g\u00eanero, cabendo a elas, de forma priorit\u00e1ria ou exclusiva, as fun\u00e7\u00f5es de cuidado.<\/p><p>As exig\u00eancias das condicionalidades implicam uma sobrecarga de trabalho para as mulheres e essa redu\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia \u00e0 mulher constitui um ponto nevr\u00e1lgico de programas que t\u00eam as mulheres como receptoras dos benef\u00edcios, podendo refor\u00e7ar a cultura da maternagem, sendo o cuidado com os filhos e com a casa uma tarefa prec\u00edpua e quase exclusiva das mulheres (Suarez e Libardoni, 2007; Arriagada e Mathivet, 2007; Villatoro, 2007; Zibecchi, s\/d; Gonzales de la Rocha, 2005), o que acaba por refor\u00e7ar pap\u00e9is tradicionais de g\u00eanero. Os programas de transfer\u00eancia de renda partilham da convic\u00e7\u00e3o de que as mulheres seriam mais respons\u00e1veis e capazes de oferecer o cuidado na esfera da reprodu\u00e7\u00e3o e isso s\u00e3o elas as titulares dos benef\u00edcios, refor\u00e7ando, ainda que n\u00e3o intencionalmente, o seu papel de m\u00e3e e cuidadora do lar.<\/p><p>Ent\u00e3o? O que fazer? Uma estrat\u00e9gia interessante seria inserir no Programa um componente de a\u00e7\u00e3o afirmativa para a equidade de g\u00eanero, talvez para as jovens das fam\u00edlias benefici\u00e1rias, visando prepar\u00e1-las para uma inser\u00e7\u00e3o mais qualificada para o mercado de trabalho no futuro. E desenhar estrat\u00e9gias de vincula\u00e7\u00e3o desses programas com programas de forma\u00e7\u00e3o profissional visando a inser\u00e7\u00e3o qualificada das mulheres no mercado de trabalho.<\/p><ol start=\"2\"><li><strong>Pol\u00edticas de cuidado, retaguarda para a inser\u00e7\u00e3o qualificada das mulheres no mercado de trabalho<\/strong><\/li><\/ol><p>Desde a d\u00e9cada de 70 o debate feminista sobre o Estado de Bem Estar destaca que o papel da fam\u00edlia nas configura\u00e7\u00f5es da prote\u00e7\u00e3o faz com que a mulher se torne a respons\u00e1vel pela provis\u00e3o dos cuidados de bem estar na esfera da reprodu\u00e7\u00e3o familiar, prestando um servi\u00e7o \u00e0 sociedade que, contudo, n\u00e3o \u00e9 pago (Goldani, 1998, apud Timo 2013). A precariedade dos recursos com os quais as m\u00e3es contam para dividir o cuidado dos filhos, associada \u00e0 \u00eanfase na maternidade e no papel prec\u00edpuo de m\u00e3e, acaba por limitar as perspectivas das mulheres para uma inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho com maior qualidade e melhor remunera\u00e7\u00e3o, o que dificulta uma\u00a0 autonomia mais real.<\/p><p>N\u00e3o se podem desconsiderar as rela\u00e7\u00f5es que existem entre as fun\u00e7\u00f5es de cuidado e a inser\u00e7\u00e3o das mulheres no mercado de trabalho. Conjugar o cuidado da casa e filhos com o trabalho remunerado \u00e9 uma dif\u00edcil equa\u00e7\u00e3o para todas as mulheres que s\u00e3o m\u00e3es, mas para as pobres \u00e9 um ponto ainda mais desafiador.<\/p><p>Uma pol\u00edtica de prote\u00e7\u00e3o social adequada aos desafios atuais exige que as tarefas de cuidado sejam compartilhadas com os homens e assumidas como dever pelo estado e pelo conjunto da sociedade; em uma estrutura de oportunidades que de fato permita \u00e0s mulheres uma inser\u00e7\u00e3o laboral mais digna e uma identidade que as situe para al\u00e9m de seu papel como m\u00e3es e provedoras exclusivas do cuidado de seus filhos.<\/p><p>Pol\u00edticas p\u00fablicas de cuidado para idosos, pessoas com defici\u00eancia e crian\u00e7as, como centros dia, abrigos, casas lares e creches p\u00fablicas, tornam-se centrais na modelagem das pol\u00edticas de enfrentamento da pobreza comprometidas com a equidade de g\u00eanero. A expans\u00e3o da oferta educativa para o pr\u00e9-escolar e a expans\u00e3o da jornada escolar s\u00e3o estrat\u00e9gias voltadas para o desenvolvimento das capacidades humanas de aprendizado, mas tamb\u00e9m reverberam no \u00e2mbito das fam\u00edlias, contribuindo para coletiviza\u00e7\u00e3o do cuidado com as crian\u00e7as e uma melhor distribui\u00e7\u00e3o, dentre os sexos, das obriga\u00e7\u00f5es de assist\u00eancia.<\/p><p>A experi\u00eancia escandinava de prote\u00e7\u00e3o social se caracteriza pelo enfoque da Invers\u00e3o Social (Kerstenetzky, 2014), que constitui uma perspectiva que orienta a provis\u00e3o do bem estar nessas sociedades Fundamentalmente, o conjunto da interven\u00e7\u00e3o envolve pol\u00edticas no\u00a0 \u00e2mbito da educa\u00e7\u00e3o (desde a primeira inf\u00e2ncia e durante toda a vida adulta); de concilia\u00e7\u00e3o da vida familiar com o trabalho, com provis\u00e3o de servi\u00e7os de cuidados; e pol\u00edticas de trabalho, que envolvem qualifica\u00e7\u00e3o, emprego protegido, seguro desemprego.<\/p><p>A universaliza\u00e7\u00e3o e a extens\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o durante todo o ciclo de vida, com provis\u00e3o de servi\u00e7os de qualidade e benef\u00edcios generosos, aliados a pol\u00edticas de emprego de qualidade e com qualifica\u00e7\u00f5es de longo prazo, caracterizam esse enfoque. Este tipo de provis\u00e3o de bem estar mant\u00e9m a centralidade do componente da seguridade social, uma vez que reconhece as falhas e debilidades do mercado de trabalho e sua incapacidade de autocorrigir-se; e tamb\u00e9m investe no fortalecimento da participa\u00e7\u00e3o de homens e mulheres no mercado de trabalho, via pol\u00edticas ativas de qualifica\u00e7\u00e3o profissional e pol\u00edticas passivas de transfer\u00eancias monet\u00e1rias, em uma combina\u00e7\u00e3o virtuosa de gasto compensat\u00f3rio e gasto em invers\u00e3o social (Kerstenetzky, 2014).<\/p><p>Quanto \u00e0 dimens\u00e3o das pol\u00edticas de concilia\u00e7\u00e3o fam\u00edlia-trabalho, seus objetivos\u00a0 consistem, sobretudo, \u00a0em possibilitar empregos de qualidade para as mulheres, com \u00eanfase na redu\u00e7\u00e3o do risco da pobreza e da desigualdade. Tais pol\u00edticas envolvem a provis\u00e3o de servi\u00e7os de cuidados para crian\u00e7as e idosos cuidados (como asilos, creches, escolas infantis) e benef\u00edcios de licen\u00e7a remunerada para pais e m\u00e3es, al\u00e9m de transfer\u00eancias monet\u00e1rias. O servi\u00e7o de cuidados absorvem quase 4% do PIB dos pa\u00edses n\u00f3rdicos, sendo este o gasto mais importante entre os pa\u00edses desenvolvidos (Kerstenetzky, 2014). Tais ofertas de servi\u00e7os de tem permitido conciliar o emprego feminino com a vida familiar, viabilizando menores chances da pobreza infantil.<\/p><ol start=\"3\"><li><strong>A esfera das representa\u00e7\u00f5es e os burocratas do n\u00edvel de rua como express\u00f5es das ideologias de g\u00eanero<\/strong><\/li><\/ol><p>A priva\u00e7\u00e3o objetiva da pobreza, mensurada pela baixa renda e por necessidades b\u00e1sicas insatisfeitas, se articula com dimens\u00f5es subjetivas ou aspectos de natureza psicossocial, definindo a condi\u00e7\u00e3o de pobreza como dupla, ao mesmo tempo material e menos tang\u00edvel. Com essa ideia de dupla dimens\u00e3o da pobreza (Raczynski, 1999) ressalta-se que esta n\u00e3o \u00e9 apenas priva\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, mas envolve aspectos subjetivos (cren\u00e7as, valores, atitudes, comportamentos), sendo necess\u00e1rio considerar essa condi\u00e7\u00e3o tanto para caracterizar a pobreza, principalmente cr\u00f4nica, quanto tamb\u00e9m para enfrent\u00e1-la.<\/p><p>Baixa autoestima, resigna\u00e7\u00e3o, apatia, ressentimento, subalternidade, baixa expectativa quanto ao futuro, s\u00e3o express\u00f5es de natureza n\u00e3o material que, de um lado, decorrem das experi\u00eancias cotidianas das desigualdades estruturais e, de outro, que acabam por limitar as possibilidades das pessoas pobres tra\u00e7arem estrat\u00e9gias de supera\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o em que se encontram. Evidentemente, estas atitudes s\u00e3o constru\u00eddas nas intera\u00e7\u00f5es que os indiv\u00edduos estabelecem com vizinhos, fam\u00edlia, comunidade e institui\u00e7\u00f5es, n\u00e3o sendo um atributo individual.<\/p><p>S\u00e3o aspectos que condicionam as diferentes respostas das fam\u00edlias \u00e0s dificuldades do entorno e s\u00e3o refor\u00e7ados ou superados tamb\u00e9m pela intera\u00e7\u00e3o entre as mulheres pobres e os agentes de ponta \u2013 profissionais do CRAS, professores, m\u00e9dicos do posto de sa\u00fade, servidores das delegacias de mulheres &#8211; encarregados da provis\u00e3o das pol\u00edticas. A atua\u00e7\u00e3o destes, alimentada pelas vis\u00f5es de mundo, preconceitos e representa\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, pode contribuir tanto para ampliar quanto para reduzir a desigualdade de g\u00eanero.<\/p><p>Nas palavras de Pires, \u201cas organiza\u00e7\u00f5es governamentais s\u00e3o, eminentemente, \u201cprocessadoras de pessoas\u201d e t\u00eam papel-chave na atribui\u00e7\u00e3o de <em>status <\/em>p\u00fablico aos seus usu\u00e1rios, com potenciais repercuss\u00f5es no deslocamento ou na estabiliza\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es e identidades sociais\u201d (Pires, 2020, p. 37). \u00c9 preciso, portanto estar atento para as intera\u00e7\u00f5es assim\u00e9tricas que ocorrem nos encontros burocr\u00e1ticos e como estas s\u00e3o mediadas por processos de etiquetamento, com efeitos nas percep\u00e7\u00f5es e atitudes das mulheres atendidas nos servi\u00e7os p\u00fablicos. \u00c9 fundamental a forma\u00e7\u00e3o dos profissionais de ponta das pol\u00edticas, para que estes possam atuar pautados por valores republicanos e comprometidos com a igualdade de g\u00eanero e n\u00e3o por vis\u00f5es natalistas e conservadoras sobre a fam\u00edlia e o papel da mulher reduzido \u00e0 esfera da reprodu\u00e7\u00e3o e do cuidado.<\/p><p><strong>Autoras: Carla Bronzo e Marina Silva<\/strong><\/p><p><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/p><p>ARRIAGADA, I. e MATHIVET, C. (2007)\u00a0 Los programas de al\u00edvio a la pobreza Puente y Oportunidades. Uma mirada desde los actores.\u00a0 <em>Serie Pol\u00edticas Sociales<\/em>, n\u00ba 134. Cepal, Chile.<\/p><p>BRONZO, Carla; LOBATO, Luiza. Um balan\u00e7o das evid\u00eancias e alguns achados sobre o amb\u00edguo efeito das transfer\u00eancias de renda sobre as mulheres. Congresso ALAS, Chile, 2013.<\/p><p>COHEN E., FRANCO, R. (2006)\u00a0 Los programas de transfer\u00eancias con corresponsabilidad em Am\u00e9rica Latina: similitudes y diferencias In. Cohen E. e Franco, R. (coord.) T<em>ransfer\u00eancias com coresponsabilidad. Uma mirada latinoamericana.<\/em>M\u00e9xico, SEDESOL n<\/p><p>FONSECA, Ana. Los sistemas de protecci\u00f3n social en Am\u00e9rica Latina: Un an\u00e1lisis de las transferencias monetarias condicionadas. Draft, 2006<\/p><p>GONZ\u00c1LEZ DE LA ROCHA, M. (2005) \u201cFamilias y pol\u00edtica social en M\u00e9xico. El caso de oportunidades\u201d. Reuni\u00f3n de expertos &#8211; Politicas hacia las familias, protecci\u00f3n e inclusi\u00f3n sociales. CEPAL.<\/p><p>GARRIDO, Lorena Armijo. Los programas de transfer\u00eancia condicionada de renda en Am\u00e9rica Latina. Cuestiones pendientes desde uma perspectiva de g\u00eanero. Working Paper (WP 2012-20). Gigapp. Grupo de Investigaci\u00f3n en Gobierno, Administraci\u00f3n e Pol\u00edticas P\u00fablicas. Instituto Universitario de Investigacion Ortega y Gasset. 2012<\/p><p>LAVINAS, L., COBO, B., &amp; VEIGA, A. (2019). Bolsa Fam\u00edlia: impacto das transfer\u00eancias de renda sobre a autonomia das mulheres pobres e as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero.\u00a0<em>Revista Latinoamericana De Poblaci\u00f3n<\/em>,\u00a0<em>6<\/em>(10), 31-56.<\/p><p>IBGE. (2021). Estat\u00edsticas de G\u00eanero: Indicadores sociais das mulheres no Brasil. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv101784_informativo.pdf\">https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv101784_informativo.pdf<\/a>&gt; Acesso em 07 de mar\u00e7o de 2021<\/p><p>IBGE. (2020). Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Cont\u00ednua 2019: Rendimento de todas as fontes. Dispon\u00edvel em: &lt; <a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv101709_informativo.pdf\">https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv101709_informativo.pdf<\/a> &gt; Acesso em 07 de mar\u00e7o de 2021<\/p><p>MOLYNEUX, Maxine. Mothers at the servisse of the New Poverty Agenda: Progresa\/Oportunidades, Mexico\u00b4s Conditional Transfer Program. Social Policy &amp; Administration. Vol 40. Numero 4. August 2006<\/p><p>NOVELLINO, Maria Salet Ferreira. Os estudos sobre feminiza\u00e7\u00e3o da pobreza e pol\u00edticas p\u00fablicas para mulheres. Trabalho apresentado no XIV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em Caxamb\u00fa MG \u2013 Brasil, de 20- 24 de Setembro de 2004<\/p><p>PAUTASSI, Laura. Nuevos desaf\u00edos para el abordaje del cuidado desde el enfoque de derechos. Reuni\u00f3n de Especialistas. Futuro de las familias y desaf\u00edos para las pol\u00edticas p\u00fablicas.CEPAL. Santiago de Chile, 2007<\/p><p>PIRES, Roberto Rocha C. Encontros Burocr\u00e1ticos e Suas Reverbera\u00e7\u00f5es Simb\u00f3licas: uma explora\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias de intera\u00e7\u00e3o cotidiana com agentes do Estado. Boletim de An\u00e1lise Pol\u00edtico-Institucional | n. 23 | Jun. 2020<\/p><p>RACZYNSKI, Dagmar\u00a0 La crisis de los viejos modelos de protecci\u00f3n social en America Latina: nuevas alternativas para enfrentar la pobreza In. TOKMAN, V. E. E O\u00b4DONELL, G (orgs) <em>Pobreza y desigualdad en America Latina: temas y nuevos desafios.<\/em> Buenos Aires, Ed. 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