{"id":1542,"date":"2021-03-11T11:06:47","date_gmt":"2021-03-11T11:06:47","guid":{"rendered":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=1542"},"modified":"2021-03-11T11:07:14","modified_gmt":"2021-03-11T11:07:14","slug":"desafios-e-caminhos-para-a-equidade-de-genero-no-mercado-de-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=1542","title":{"rendered":"Desafios e caminhos para a equidade de g\u00eanero no mercado de trabalho"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"1542\" class=\"elementor elementor-1542\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-aad2197 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"aad2197\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-57a20f8\" data-id=\"57a20f8\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-6bca185 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"6bca185\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>Ano passado, para lembrar o m\u00eas de luta das mulheres pela igualdade de g\u00eanero, escrevi um texto para o Observat\u00f3rio das Desigualdades da Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro resumindo os principais desafios para as mulheres no mundo do trabalho, pontuando especialmente a m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o das tarefas dom\u00e9sticas n\u00e3o remuneradas, o trabalho de cuidado com crian\u00e7as, idosos e adultos dependentes e a segrega\u00e7\u00e3o ocupacional que direciona as mulheres para espa\u00e7os mais desvalorizados no mercado de trabalho, a despeito dos avan\u00e7os educacionais alcan\u00e7ados por n\u00f3s. Algumas semanas depois, a pandemia do covid-19 se alastrava pelo Brasil e diversas medidas de conten\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a afetaram duramente os modos de vida e de trabalho da popula\u00e7\u00e3o.<\/p><p>A crise sanit\u00e1ria descortinou ainda mais esses dois pilares da desigualdade de g\u00eanero na sociedade brasileira. A sobrecarga de trabalho das mulheres recrudesceu com o fechamento das escolas e, em um momento posterior, com a ado\u00e7\u00e3o do ensino remoto para alguns n\u00edveis de ensino. O que foi refor\u00e7ada com a maior presen\u00e7a dos membros adultos no domic\u00edlio, resultante do afastamento do trabalho ou da ado\u00e7\u00e3o do teletrabalho para determinados segmentos (onde as atividades eram condizentes com esses expedientes) e do desemprego, para a parcela da popula\u00e7\u00e3o que tinha uma inser\u00e7\u00e3o ainda mais vulner\u00e1vel no mercado. Com isso, as <a href=\"https:\/\/sidra.ibge.gov.br\/tabela\/4093\">taxas de atividade<\/a>, ou seja, a propor\u00e7\u00e3o de pessoas que estavam no mercado de trabalho, alcan\u00e7aram os menores n\u00edveis em, pelo menos, duas d\u00e9cadas. E a <a href=\"https:\/\/sidra.ibge.gov.br\/tabela\/4093\">taxa de desemprego<\/a> aumentou expressivamente. Isso tamb\u00e9m afetou os homens, mas para as mulheres os efeitos foram mais intensos.<\/p><p>O mercado de trabalho formal teve uma acentuada retra\u00e7\u00e3o, especialmente entre abril e junho. A recupera\u00e7\u00e3o posterior foi muito mais lenta para as mulheres que terminaram o ano com saldo negativo de emprego formal, enquanto para os homens foi positivo. Em <a href=\"https:\/\/app.powerbi.com\/view?r=eyJrIjoiNWI5NWI0ODEtYmZiYy00Mjg3LTkzNWUtY2UyYjIwMDE1YWI2IiwidCI6IjNlYzkyOTY5LTVhNTEtNGYxOC04YWM5LWVmOThmYmFmYTk3OCJ9\">Minas Gerais<\/a>, os homens fecharam 2020 com saldo positivo de 40,1 mil empregos.\u00a0 Para as mulheres o saldo do ano foi negativo em -7.397 empregos, segundo dados do Minist\u00e9rio da Economia. Isso porque os nichos de trabalho feminino (a exce\u00e7\u00e3o das trabalhadoras dos servi\u00e7os da sa\u00fade) s\u00e3o justamente aqueles com maiores restri\u00e7\u00f5es de funcionamento, tais como o com\u00e9rcio, as atividades gerenciais e os servi\u00e7os de educa\u00e7\u00e3o. Algumas dessas mudan\u00e7as vieram para ficar. Os servi\u00e7os de educa\u00e7\u00e3o, por exemplo, anteciparam o processo que j\u00e1 gestavam a partir da ado\u00e7\u00e3o de novas tecnologias poupadoras de for\u00e7a de trabalho, como o ensino h\u00edbrido, automatiza\u00e7\u00e3o de atividades gerenciais, etc.<\/p><p>O trabalho dom\u00e9stico remunerado, fora dessa estat\u00edstica de trabalho formal, tamb\u00e9m sofreu forte impacto. Vale lembrar que, at\u00e9 2019, 1\/3 das mulheres negras eram empregadas dom\u00e9sticas; que configuram um dos segmentos mais vulner\u00e1veis do nosso pa\u00eds e que representa nossa estrutura arcaica, racista e estruturalmente desigual. \u00c9 muito importante olhar para esse segmento porque, por meio dele, \u00e9 poss\u00edvel compreender a intersec\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, classe e ra\u00e7a e, ao mesmo tempo, as solu\u00e7\u00f5es privadas de enfrentamento da m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o das tarefas dom\u00e9sticas n\u00e3o remuneradas e de cuidados. Al\u00e9m do patriarcalismo e da divis\u00e3o sexual do trabalho, que diz que trabalho de casa \u00e9 trabalho de mulher, a baixa presen\u00e7a do Estado no provimento dos servi\u00e7os de cuidado acarreta na solu\u00e7\u00e3o privada das fam\u00edlias por meio da delega\u00e7\u00e3o dessas atividades para outras mulheres, as mulheres pobres e geralmente negras e imigrantes para a realiza\u00e7\u00e3o das tarefas dom\u00e9sticas a fim de liberar as mulheres de classe m\u00e9dia e alta para o trabalho no mercado.<\/p><p>\u00c9 importante fazer um par\u00eantese para justificar a import\u00e2ncia da esfera da reprodu\u00e7\u00e3o. O trabalho de reprodu\u00e7\u00e3o da vida cotidiana n\u00e3o tem um valor somente privado, ou seja, ele n\u00e3o \u00e9 importante e reconfortante apenas para os n\u00facleos familiares &#8211; pais, av\u00f3s e tios que se orgulham do sucesso de sua parentela, ou se entristecem pela reprodu\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel de vida da fam\u00edlia. Considerando apenas o mundo do trabalho, reitera-se que toda a sociedade se beneficia com a cria\u00e7\u00e3o de filhos saud\u00e1veis, bem formados, que conseguem alcan\u00e7ar n\u00edveis educacionais elevados e se inserir no mercado produtivamente gerando riqueza para os n\u00facleos familiares, mas tamb\u00e9m para a sociedade como um todo. Isso significa que o trabalho de reprodu\u00e7\u00e3o, os afazeres dom\u00e9sticos e de cuidados s\u00e3o apropriados por toda a sociedade. Sem mencionar que geram valor econ\u00f4mico. Por isso, acreditamos ser injusto que esse trabalho recaia somente sobre alguns, na verdade, algumas: as mulheres.\u00a0 Especialmente porque isso se d\u00e1 em preju\u00edzo de sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o. Seja de autonomia econ\u00f4mica (j\u00e1 que parte expressiva das mulheres depende economicamente de outros para sua subsist\u00eancia), das situa\u00e7\u00f5es de pobreza (as mulheres est\u00e3o sobrerepresentadas na popula\u00e7\u00e3o pobre), da sobrecarga de trabalho (a dupla jornada de trabalho constrange e molda a forma de participa\u00e7\u00e3o das mulheres no mercado de trabalho).<\/p><p>As profundas de diferen\u00e7as entre brancos e negros no mercado de trabalho se esvaem quando se trata da distribui\u00e7\u00e3o do trabalho n\u00e3o remunerado de cuidado e afazeres dom\u00e9sticos entre homens e mulheres, conforme se v\u00ea no gr\u00e1fico a seguir.<\/p><p style=\"text-align: center;\"><strong>Gr\u00e1fico 1<\/strong> Tempo m\u00e9dio destinado ao trabalho remunerado e n\u00e3o remunerado da popula\u00e7\u00e3o acima de 20 a 59 anos, por sexo e ra\u00e7a\/cor, Minas Gerais, 2018 (M\u00e9dia de horas semanais)<\/p><p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1543\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/1-3.jpg\" alt=\"\" width=\"465\" height=\"279\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/1-3.jpg 465w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/1-3-300x180.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 465px) 100vw, 465px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Fonte: IBGE. Pnad cont\u00ednua, 2018<\/p><p>Neste sentido elencamos dois aspectos desafiadores para as pol\u00edticas p\u00fablicas a fim de enfrentar esses pilares da desigualdade de g\u00eanero, pensando nos efeitos da crise sanit\u00e1ria nas assimetrias entre homens e mulheres:<\/p><ul><li>Desenvolver pol\u00edticas de co-responsabiliza\u00e7\u00e3o de Estado, mercado e fam\u00edlias.<\/li><\/ul><p>A Cepal chama aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia da organiza\u00e7\u00e3o de um sistema de cuidado nos pa\u00edses latino americanos por meio da constru\u00e7\u00e3o da responsabilidade coletiva dos cuidados, com revaloriza\u00e7\u00e3o dessas atividades a partir do reconhecimento dos cuidados como uma dimens\u00e3o essencial para o bem estar. Alguns exemplos seriam benef\u00edcios e aux\u00edlios para o cuidado com idosos e deficientes, servi\u00e7os de educa\u00e7\u00e3o infantil e de sa\u00fade, licen\u00e7as (como a licen\u00e7a parental, para acompanhamento de filhos doentes, etc).<\/p><p>Amplia\u00e7\u00e3o da cobertura da educa\u00e7\u00e3o infantil, por exemplo, \u00e9 uma das demandas mais frequentes das mulheres. Diversas pesquisas da Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro (quantitativas e qualitativas), seja no meio urbano, seja no rural indicaram essa necessidade (al\u00e9m de ser extensamente indicado na bibliografia pertinente ao tema).\u00a0 As formas privadas de solu\u00e7\u00e3o dessa quest\u00e3o t\u00eam um alto custo para as mulheres, especialmente para as mais pobres. Como se v\u00ea no gr\u00e1fico a seguir, o n\u00edvel da ocupa\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e9 bem maior quando n\u00e3o h\u00e1 crian\u00e7as de at\u00e9 3 anos de idade no domic\u00edlio, demonstrando a perda de autonomia econ\u00f4mica.<\/p><p style=\"text-align: center;\"><strong>Gr\u00e1fico 2<\/strong> N\u00edvel da ocupa\u00e7\u00e3o das pessoas de 25 a 49 anos de idade, com ou sem crian\u00e7as de at\u00e9 3 anos vivendo no domic\u00edlio (%)<\/p><p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1544\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/2-3.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"326\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/2-3.jpg 545w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/2-3-300x179.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 545px) 100vw, 545px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Fonte IBGE. PNAD Cont\u00ednua, 2019.<\/p><p>A primeira meta do Plano Nacional da Educa\u00e7\u00e3o estabeleceu a universaliza\u00e7\u00e3o da oferta de vagas para as crian\u00e7as de 4 e 5 anos at\u00e9 2016, e cobertura de 50% para as de 0 a 3 anos. No entanto, em 2019, 64% das crian\u00e7as de 0 e 3 anos n\u00e3o frequentavam creche ou escola, segundo o <a href=\"https:\/\/sidra.ibge.gov.br\/tabela\/7140\">IBGE<\/a>, e 7,1% das de 4 e 5 anos.<\/p><p>\u00c9 importante que sejam desenvolvidas pol\u00edticas de co-responsabilidade entre Estado, mercado e fam\u00edlia a fim de impedir que essas quest\u00f5es fiquem restritas a uma dimens\u00e3o individual, que \u00e9 altamente desvantajosa para as mulheres.<\/p><ul><li>Incentivo \u00e0 diversifica\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o profissional<\/li><\/ul><p>As trajet\u00f3rias escolares de meninas e meninos \u00e9 ainda muito pautada pelos estere\u00f3tipos de g\u00eanero apesar do grande avan\u00e7o das mulheres no sistema de ensino e em carreiras mais valorizadas socialmente, como a medicina, alguns ramos da ci\u00eancia e da alta gest\u00e3o. Relat\u00f3rio recente da <a href=\"https:\/\/www.mckinsey.com\/~\/media\/McKinsey\/Featured%20Insights\/Future%20of%20Organizations\/The%20future%20of%20work%20after%20COVID%2019\/The-future-of-work-after-COVID-19-Executive-summary.pdf?shouldIndex=false\">McKinsey<\/a> (2021) aponta algumas mudan\u00e7as estruturais no mercado de trabalho desencadeadas pela crise sanit\u00e1ria em v\u00e1rios pa\u00edses. O impacto para nos nichos de trabalho feminino indica necessidade maior de transi\u00e7\u00e3o ocupacional depois da pandemia. As ocupa\u00e7\u00f5es em expans\u00e3o s\u00e3o as carreiras em ci\u00eancias, tecnologia, engenharia e matem\u00e1tica e as ci\u00eancias da sa\u00fade mais especializadas. Ou seja, justamente nos segmentos de menor presen\u00e7a as mulheres.<\/p><p>A import\u00e2ncia da diversifica\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o profissional das mulheres j\u00e1 estava na pauta das necessidades de redu\u00e7\u00e3o da segrega\u00e7\u00e3o ocupacional e agora parece ganhar novos contornos e import\u00e2ncia.<\/p><p>Precisamos avan\u00e7ar na compreens\u00e3o dos mecanismos que desestimulam as meninas a escolherem determinadas profiss\u00f5es. Para isso \u00e9 necess\u00e1rio investir na forma\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o de gestores p\u00fablicos e docentes sens\u00edveis \u00e0s desigualdades de g\u00eanero. Al\u00e9m, do apoio e incentivo de estudos que visam compreender os mecanismos de produ\u00e7\u00e3o das assimetrias de meninas e meninos na escola.<\/p><p>\u00a0<\/p><p><em>Autora: N\u00edcia Raies Moreira de Souza \u00e9 Doutora em Sociologia pela UFMG e Pesquisadora da Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro.<\/em><\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ano passado, para lembrar o m\u00eas de luta das mulheres pela igualdade de g\u00eanero, escrevi um texto para o Observat\u00f3rio das Desigualdades da Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro resumindo os principais desafios para as mulheres no mundo do trabalho, pontuando especialmente a m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o das tarefas dom\u00e9sticas n\u00e3o remuneradas, o trabalho de cuidado com crian\u00e7as, idosos e 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