{"id":1548,"date":"2021-03-12T11:25:23","date_gmt":"2021-03-12T11:25:23","guid":{"rendered":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=1548"},"modified":"2021-03-12T11:28:10","modified_gmt":"2021-03-12T11:28:10","slug":"as-desigualdades-de-genero-no-servico-publico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=1548","title":{"rendered":"As desigualdades de g\u00eanero no servi\u00e7o p\u00fablico"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"1548\" class=\"elementor elementor-1548\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-1e09718 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"1e09718\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-9dfdc1f\" data-id=\"9dfdc1f\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-3b56a19 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"3b56a19\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>A forma de ingresso no servi\u00e7o p\u00fablico, via de regra por meio dos concursos p\u00fablicos, e a exist\u00eancia de crit\u00e9rios impessoais de progress\u00e3o nas carreiras podem levar \u00e0 ideia de que a desigualdade de g\u00eanero \u00e9 pouco expressiva, ou at\u00e9 mesmo inexistente, no servi\u00e7o p\u00fablico brasileiro. Contudo, nem mesmo o servi\u00e7o p\u00fablico escapa \u00e0 desigualdade de g\u00eanero que marca de forma t\u00e3o estruturante a sociedade brasileira e, sobretudo, o mundo do trabalho. Assim, dando continuidade \u00e0s an\u00e1lises do Observat\u00f3rio das Desigualdades para o Dia Internacional da Mulher, esta nota aborda tr\u00eas desafios e tr\u00eas propostas para o enfrentamento da desigualdade de g\u00eanero no setor p\u00fablico.<\/p><p>O primeiro desafio se relaciona ao acesso das mulheres ao servi\u00e7o p\u00fablico. De in\u00edcio, \u00e9 preciso pontuar que as mulheres constituem a maioria das pessoas ocupadas nas tr\u00eas esferas do servi\u00e7o p\u00fablico civil<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> (Felix Lopez e Erivelton Guedes, 2020). Contudo, o acesso de homens e mulheres a \u00e1reas mais valorizadas do servi\u00e7o p\u00fablico ainda \u00e9 bastante desigual: as mulheres continuam excessivamente concentradas em ocupa\u00e7\u00f5es consideradas \u201ctipicamente femininas\u201d e de pior remunera\u00e7\u00e3o, como professoras, enfermeiras, assistentes e secret\u00e1rias em geral. Assim, evidencia-se como o setor p\u00fablico tamb\u00e9m reproduz a divis\u00e3o sexual do trabalho (Helene Hirata e Daniele Kergoat, 2007) que ocorre de forma mais vis\u00edvel no \u00e2mbito privado.<\/p><p>A essa tend\u00eancia de separa\u00e7\u00e3o de homens e mulheres em determinadas profiss\u00f5es e em determinadas \u00e1reas ou setores do mundo do trabalho, d\u00e1-se o nome de <em>segrega\u00e7\u00e3o horizontal <\/em>(Daniela Vaz, 2013). Contribuem para a segrega\u00e7\u00e3o horizontal os estere\u00f3tipos de g\u00eanero, que ser\u00e3o detalhados \u00e0 frente, que atribuem \u00e0s mulheres a responsabilidade pelas atividades relacionadas ao <em>cuidado<\/em>. Eles acabam por moldar as diferentes rela\u00e7\u00f5es sociais e influenciam no horizonte de expectativas de homens e mulheres. No setor p\u00fablico, \u00e9 preciso considerar, ainda, que as mulheres se encontram em desvantagem para se preparar para os concursos p\u00fablicos mais valorizados e concorridos. Em decorr\u00eancia da divis\u00e3o sexual do trabalho, as mulheres dedicam, em m\u00e9dia, muito mais horas de trabalho no \u00e2mbito dom\u00e9stico do que os homens, restando-lhes menos dispon\u00edveis para competir, em igualdade de condi\u00e7\u00f5es, para o ingresso nas carreiras mais bem remuneradas (Rodolfo Bechluft, 2019).<\/p><p>A segrega\u00e7\u00e3o horizontal pode ser evidenciada nos seguintes dados a respeito do servi\u00e7o p\u00fablico federal: em 2014, as mulheres eram a minoria nos Minist\u00e9rios da Justi\u00e7a (21,2%), Ci\u00eancia Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o (34,8%), Fazenda (41,5%) e Planejamento, Or\u00e7amento e Gest\u00e3o (41,9%); enquanto compunham a maioria nos Minist\u00e9rios da Sa\u00fade (56,9%), Previd\u00eancia Social (54,9%) e Desenvolvimento Social e Combate \u00e0 Fome (58%)\u00a0(Enap, 2014). Tais dados constatam, ainda, que as mulheres ocupam menos cargos de chefia e menor remunera\u00e7\u00e3o. O gr\u00e1fico 1, elaborado por Bechtlufft (2019), em estudo sobre as desigualdades de remunera\u00e7\u00e3o no setor p\u00fablico, refere-se \u00e0s carreiras do Poder Executivo de Minas Gerais. Nele, os pontos mais roxos representam as carreiras com maior percentual de mulheres e os pontos mais verdes, as carreiras com maior percentual de homens. \u00c9 poss\u00edvel visualizar de forma n\u00edtida a exist\u00eancia de uma divis\u00e3o de g\u00eanero entre as carreiras: h\u00e1 uma grande concentra\u00e7\u00e3o de mulheres (acima de 75%) nas carreiras ligadas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o (auxiliar de servi\u00e7os da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e assistente t\u00e9cnica de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica); enquanto as carreiras de auditor fiscal, investigador de pol\u00edcia e auxiliar de transporte e obras p\u00fablicas s\u00e3o compostas majoritariamente por homens.<\/p><p>Ainda, o gr\u00e1fico evidencia a desigualdade salarial entre as carreiras majoritariamente ocupadas por homens e as majoritariamente ocupadas por mulheres: a concentra\u00e7\u00e3o de pontos roxos \u00e9 muito maior na regi\u00e3o abaixo da linha de tend\u00eancia que estabelece a correla\u00e7\u00e3o entre escolaridade e remunera\u00e7\u00e3o, enquanto os pontos acima da linha s\u00e3o predominantemente verdes. Isso significa que, mesmo quando os n\u00edveis de escolaridade das carreiras s\u00e3o equivalentes, as carreiras majoritariamente compostas por homens t\u00eam remunera\u00e7\u00f5es muito superiores \u00e0quelas compostas majoritariamente por mulheres.<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 1: Percentual de mulheres e remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia das carreiras do Poder Executivo Estadual controlados pelo n\u00edvel de escolaridade \u2013 Minas Gerais \u2013 2018<\/p><p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1549\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/1-4.jpg\" alt=\"\" width=\"834\" height=\"542\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/1-4.jpg 834w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/1-4-300x195.jpg 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/1-4-768x499.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 834px) 100vw, 834px\" \/><\/p><p>Fonte: Bechtlufft, 2019.<\/p><p>Mesmo quando conseguem superar a barreira ao acesso, as mulheres encontram outras dificuldades, relacionadas \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do trabalho no setor p\u00fablico, o que afeta sua perman\u00eancia no trabalho e o desenvolvimento de suas carreiras. Nesse contexto, dois obst\u00e1culos ao exerc\u00edcio do trabalho no setor p\u00fablico podem ser destacados. O primeiro deles \u00e9 a j\u00e1 citada divis\u00e3o sexual do trabalho: as mulheres ainda s\u00e3o as principais respons\u00e1veis por organizar e executar o trabalho dom\u00e9stico e cuidar das pessoas que vivem no domic\u00edlio, o que impacta na forma com que se engajam nas formas de trabalho remuneradas. Dessa forma, as mulheres, principalmente as que possuem dependentes, det\u00eam menos tempo dispon\u00edvel para adquirir qualifica\u00e7\u00f5es extras e, consequentemente, t\u00eam reduzidas suas probabilidades de progress\u00e3o na carreira.<\/p><p>\u00c9 preciso considerar, al\u00e9m disso, que a maternidade ocorre, geralmente, em idades centrais no processo de ascens\u00e3o profissional, e que a paternidade ainda \u00e9 vivenciada de modo pouco solid\u00e1rio com as mulheres, gerando impactos bem distintos para os homens. Esse padr\u00e3o \u00e9 acentuado pelo fato de que, no Brasil, a licen\u00e7a paternal, mesmo no servi\u00e7o p\u00fablico, \u00e9 de pouqu\u00edssimos dias, e tirada concomitantemente \u00e0 licen\u00e7a maternal, refor\u00e7ando assim a ideia de que o cuidado dos filhos \u00e9 responsabilidade quase que exclusiva da m\u00e3e. Al\u00e9m disso, o curto per\u00edodo de licen\u00e7a paternidade pode ter impacto no trabalho exercido pelas mulheres no setor p\u00fablico, porque refor\u00e7a a influ\u00eancia do g\u00eanero como fator de diferencia\u00e7\u00e3o para aloca\u00e7\u00e3o em cargos de chefia e fun\u00e7\u00f5es gratificadas.<\/p><p>O segundo obst\u00e1culo ao exerc\u00edcio do trabalho das mulheres no setor p\u00fablico est\u00e1 ligado aos estere\u00f3tipos de g\u00eanero, que levam a uma divis\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es dentro do ambiente de trabalho. Os estere\u00f3tipos de g\u00eanero s\u00e3o defini\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias e arbitr\u00e1rias, que atribuem caracter\u00edsticas e habilidades diferentes para homens e mulheres. Em uma sociedade patriarcal, essas defini\u00e7\u00f5es resultam de uma perspectiva social dominada pelo sexo masculino, de forma que as compet\u00eancias e demais atributos considerados femininos s\u00e3o vistos como dotados de menor valor ou inferiores. Diversos estudos apontam que os estere\u00f3tipos de g\u00eanero nas organiza\u00e7\u00f5es refor\u00e7am o preconceito contra as mulheres, caracterizando os homens como \u201cnaturalmente\u201d possuidores de lideran\u00e7a, for\u00e7a, racionalidade e domina\u00e7\u00e3o, enquanto as mulheres s\u00e3o vistas como d\u00f3ceis, menos inteligentes, sens\u00edveis e menos capazes.<\/p><p>No \u00e2mbito do servi\u00e7o p\u00fablico, os estere\u00f3tipos podem justificar a destina\u00e7\u00e3o, aos homens, das atividades de lideran\u00e7a, criar barreiras ao acesso de mulheres a esses cargos e afast\u00e1-las das decis\u00f5es organizacionais. Al\u00e9m da ideia de naturaliza\u00e7\u00e3o da lideran\u00e7a como atributo masculino, outro pressuposto ainda muito disseminado defende que as mulheres se utilizam da sexualidade como forma de galgar posi\u00e7\u00f5es nas organiza\u00e7\u00f5es. Os estere\u00f3tipos atingem de forma ainda mais grave as mulheres negras. Em estudo que aborda as mulheres negras na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica de Minas Gerais (Let\u00edcia Godinho &amp; Renata Souza-Seidl, 2021), o repert\u00f3rio de discrimina\u00e7\u00f5es identificado corrobora os achados de outras pesquisas e abarca: o n\u00e3o reconhecimento da compet\u00eancia de gestoras negras para ocupar determinadas \u00a0fun\u00e7\u00f5es; a ocupa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de um posto de trabalho \u2013 ou seja, sem poder de decis\u00e3o ou de fun\u00e7\u00f5es correspondentes; o recorrente descr\u00e9dito; a apropria\u00e7\u00e3o da autoria de ideias; o ass\u00e9dio moral e sexual, entre muitas outras.<\/p><p>Os estere\u00f3tipos (de g\u00eanero, ra\u00e7a e diversos tantos que atingem as mulheres, como os geracionais) tamb\u00e9m contribuem para terceiro desafio, relacionado ao alcance das mulheres a posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a. Conhecido na literatura como \u201cteto de vidro\u201d, este fen\u00f4meno caracteriza-se pela menor velocidade com que as mulheres ascendem na carreira, o que resulta em sua sub-representa\u00e7\u00e3o nos cargos de comando das organiza\u00e7\u00f5es e, consequentemente, nas altas esferas do poder, do prest\u00edgio e das remunera\u00e7\u00f5es. O fen\u00f4meno \u00e9 observado mesmo quando as mulheres s\u00e3o dotadas de caracter\u00edsticas produtivas id\u00eanticas ou superiores \u00e0s de seus cong\u00eaneres do sexo masculino (Vaz, 2013).<\/p><p>A partir do gr\u00e1fico 2 \u00e9 poss\u00edvel visualizar o fen\u00f4meno do \u201cteto de vidro\u201d na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica federal, em que os homens ocupam 75% dos cargos de Dire\u00e7\u00e3o e Assessoramento Superior (DAS) n\u00edvel 6 e 7, os mais altos do governo. Analisando pelos crit\u00e9rios de g\u00eanero e ra\u00e7a, verifica-se que os cargos s\u00e3o majoritariamente ocupados por homens brancos (57%), seguidos pelas mulheres brancas (20%), homens negros (14%) e, por \u00faltimo, as mulheres negras, que ocupam somente 4% desses cargos.\u00a0<\/p><p>Gr\u00e1fico 2: Distribui\u00e7\u00e3o dos cargos de DAS 5 e 6 do Executivo federal, por sexo, cor ou ra\u00e7a (2020)<\/p><p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1550\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/2-4.jpg\" alt=\"\" width=\"813\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/2-4.jpg 813w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/2-4-300x155.jpg 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/2-4-768x397.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 813px) 100vw, 813px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\">Fonte: Ipea &#8211; Atlas do Estado Brasileiro. Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do gr\u00e1fico.<\/p><p>Na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica em geral, para os altos postos de comando \u2013 os cargos em comiss\u00e3o \u2013 inexiste a obrigatoriedade de realiza\u00e7\u00e3o de concurso p\u00fablico para contrata\u00e7\u00e3o de servidores. O acesso a esses cargos ocorre por nomea\u00e7\u00e3o, inclusive de indiv\u00edduos que n\u00e3o sejam servidores de carreira do Estado, o que abre margem a pr\u00e1ticas discriminat\u00f3rias. Contudo, a menor presen\u00e7a feminina nos cargos de chefia e dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser associada exclusivamente a isso. Como j\u00e1 abordado, \u00e9 preciso tamb\u00e9m levar em conta o conflito cotidiano vivido pelas mulheres para conciliar suas vidas profissional e pessoal, e os estere\u00f3tipos e preconceitos enfrentados no contexto das organiza\u00e7\u00f5es. Como consequ\u00eancia do reduzido n\u00famero de mulheres em cargos de decis\u00e3o, h\u00e1 a dificuldade de implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas e medidas que estimulem uma maior participa\u00e7\u00e3o feminina nas inst\u00e2ncias superiores da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica (Vaz, 2013).<\/p><p>Diante dos desafios apresentados, quais medidas podem ser adotadas para o enfrentamento das desigualdades de g\u00eanero no setor p\u00fablico?<\/p><p>Em primeiro lugar, s\u00e3o necess\u00e1rias a\u00e7\u00f5es mais estruturantes voltadas para a educa\u00e7\u00e3o de toda a popula\u00e7\u00e3o contra os estere\u00f3tipos de g\u00eanero, que s\u00e3o treinados e testados desde a inf\u00e2ncia. Um programa de incentivo \u00e0 participa\u00e7\u00e3o das meninas em atividades de ci\u00eancia, tecnologia e engenharia seria muito importante para estimular a escolha por cursos dessa \u00e1rea (Camile Mesquita, 2020). Tamb\u00e9m podem ser feitas a\u00e7\u00f5es educativas, que fomentem a participa\u00e7\u00e3o feminina em \u00e1reas do setor p\u00fablico que hoje s\u00e3o majoritariamente ocupadas por homens, como as fiscais e de planejamento.<\/p><p>Quanto aos desafios ligados \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do trabalho e \u00e0 ascens\u00e3o a cargos de chefia pelas mulheres no setor p\u00fablico, vimos que ambos t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com a sobrecarga de trabalho dom\u00e9stico das mulheres, sendo necess\u00e1rias medidas para lidar com esse desequil\u00edbrio. Uma delas consiste no aumento do tempo da licen\u00e7a paternidade, para que ela se iguale \u00e0 licen\u00e7a maternidade, a fim de alterar o quadro de responsabiliza\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria das mulheres em rela\u00e7\u00e3o aos filhos e mitigar as discrimina\u00e7\u00f5es de g\u00eanero na ocupa\u00e7\u00e3o de cargos de chefia. Outra possibilidade \u00e9 instituir a licen\u00e7a parental, quando cabe aos pais a decis\u00e3o sobre como dividir o uso da licen\u00e7a de acordo com os interesses do casal. Esse \u00e9 o modelo adotado pela Su\u00e9cia, em que a licen\u00e7a parental \u00e9 de 480 dias, sendo que 90 dias devem ser obrigatoriamente tirados pelo pai. Antes dessa cota compuls\u00f3ria para os homens, quase 90% dos dias eram utilizados por mulheres<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, o que demonstra a import\u00e2ncia dessa obrigatoriedade para a efetividade da licen\u00e7a parental enquanto pol\u00edtica de combate \u00e0 desigualdade de g\u00eanero.<\/p><p>Al\u00e9m disso, a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica pode adotar pol\u00edticas de gest\u00e3o de pessoas que garantam a concilia\u00e7\u00e3o entre a vida privada e o trabalho, como recomenda\u00e7\u00f5es para os dirigentes que n\u00e3o fa\u00e7am reuni\u00e3o fora do expediente, que promovam treinamentos durante o hor\u00e1rio de trabalho e para que n\u00e3o utilizem a maternidade ou o cuidado de dependentes como crit\u00e9rio de exclus\u00e3o para a realiza\u00e7\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o de determinadas fun\u00e7\u00f5es. \u00c9 importante, ainda, que os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos mantenham atualizados e divulguem dados sobre seus servidores, com recorte de g\u00eanero e ra\u00e7a\/cor, e com indicadores de cargos, para fomentar a transpar\u00eancia e tornar poss\u00edvel a produ\u00e7\u00e3o de diagn\u00f3sticos que possam ser utilizados como ferramenta para tomadas de decis\u00f5es estrat\u00e9gicas de conscientiza\u00e7\u00e3o, qualifica\u00e7\u00e3o, promo\u00e7\u00e3o e ascens\u00e3o aos cargos de lideran\u00e7a (Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho, s.d.).<\/p><p>Diante das evid\u00eancias apontadas, \u00e9 urgente o reconhecimento das desigualdades de g\u00eanero no servi\u00e7o p\u00fablico, superando a ideia do servi\u00e7o p\u00fablico como um ambiente \u201cneutro\u201d, em que mulheres e homens, brancas e negras, t\u00eam as mesmas oportunidades de ingresso e ascens\u00e3o nas carreiras. E, reconhecidas as desigualdades, \u00e9 preciso deixar de lado o discurso de que n\u00e3o h\u00e1 nada a ser feito, de que o dever de impessoalidade da Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica n\u00e3o permite medidas de enfrentamento \u00e0s desigualdades de g\u00eanero. O Estado tem poderosos instrumentos para criar um ambiente institucional mais favor\u00e1vel \u00e0 execu\u00e7\u00e3o do trabalho pelas mulheres, que garantam uma concilia\u00e7\u00e3o mais saud\u00e1vel entre a vida privada e a profissional, mas tamb\u00e9m para contribuir para mudan\u00e7as estruturais na sociedade brasileira.\u00a0<\/p><p><strong>Autoras: <\/strong><\/p><p>Let\u00edcia Godinho de Souza, Doutora em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pesquisadora na Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro (FJP) e integrante do Grupo de Pesquisa Estado, G\u00eanero e Diversidade, da FJP.<\/p><p>Lu\u00edsa Filizzola Costa Lima, graduada em Direito pela UFMG, graduanda em Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica na FJP e integrante do Observat\u00f3rio das Desigualdades.<\/p><p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p><p>Bechtlufft, Rodolfo P. <em>Desigualdade de remunera\u00e7\u00e3o no setor p\u00fablico: poder, prest\u00edgio e discrimina\u00e7\u00e3o na remunera\u00e7\u00e3o das carreiras do Poder Executivo do Estado de Minas Gerais<\/em>. Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso, Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro. Belo Horizonte, 2019.<\/p><p>Let\u00edcia Godinho &amp; Renata Souza-Seidl (orgs). <em>Mulheres, negras e gestoras: porque sim!<\/em> Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e7ao Pinheiro; Belo Horizonte, 2021 (<em>no prelo<\/em>).<\/p><p>Enap. <em>Enap estudos: Servidores P\u00fablicos Federais &#8211; g\u00eanero 2014<\/em>.\u00a0<\/p><p>Lopez, Felix, &amp; Guedes, Erivelton. <em>Tr\u00eas d\u00e9cadas de evolu\u00e7\u00e3o do funcionalismo p\u00fablico no Brasil (1986-2017)<\/em>: <em>Atlas do Estado Brasileiro<\/em>. Bras\u00edlia: Ipea, 2020.<\/p><p>Mesquita, Camile. S. <em>Desigualdade de g\u00eanero na remunera\u00e7\u00e3o persiste na burocracia federal brasileira<\/em>. 2020. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/anesp.org.br\/todas-as-noticias\/2020\/3\/11\/desigualdade-de-gnero-na-remunerao-persiste-na-burocracia-federal-brasileira\">http:\/\/anesp.org.br\/todas-as-noticias\/2020\/3\/11\/desigualdade-de-gnero-na-remunerao-persiste-na-burocracia-federal-brasileira<\/a><\/p><p>Godinho, Let\u00edcia, Gomes, Ana Paula Salej, &amp; Sousa, Ros\u00e2nia R. (2018). <em>Mulheres na fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica. M\u00f3dulo 3: Os estere\u00f3tipos de g\u00eanero e a rela\u00e7\u00e3o entre mundo do trabalho e mundo familiar<\/em>. Belo Horizonte: Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro, 2018.<\/p><p>Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho. <em>Manual de boas pr\u00e1ticas para promo\u00e7\u00e3o de igualdade de g\u00eanero. <\/em>Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/mpt.mp.br\/pgt\/publicacoes\/cartilhas\/guia-para-fortalecer-a-insercao-e-ascensao-da-mulher-no-mercado-de-trabalho\/@@display-file\/arquivo_pdf\">https:\/\/mpt.mp.br\/pgt\/publicacoes\/cartilhas\/guia-para-fortalecer-a-insercao-e-ascensao-da-mulher-no-mercado-de-trabalho\/@@display-file\/arquivo_pdf<\/a><\/p><p>Vaz, Daniela V. O teto de vidro nas organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas: evid\u00eancias para o Brasil. <em>Economia e sociedade<\/em>, Campinas, v. 22., pp. 765-790. 2013.<\/p><p>Hirata, Helene &amp; Kergoat, Daniele. Novas configura\u00e7\u00f5es da divis\u00e3o sexual do trabalho .\u00a0<em>Cadernos de Pesquisa<\/em>. v. 37, n. 132, set.\/dez. 2007.<\/p><p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Esse fato pode ser explicado por alguns fatores, como o melhor desempenho das mulheres em rela\u00e7\u00e3o aos homens no que tange aos anos de escolaridade, a forma geralmente impessoal de acesso ao emprego p\u00fablico, que mitiga a ocorr\u00eancia de discrimina\u00e7\u00f5es nas contrata\u00e7\u00f5es, e at\u00e9 mesmo certa prefer\u00eancia das mulheres por formas de emprego mais est\u00e1veis, que lhes garante melhores condi\u00e7\u00f5es para a conciliar a vida dom\u00e9stica e o trabalho profissional.<\/p><p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> BBC Brasil. <em>Su\u00e9cia obriga pais a tirar pelo menos 3 meses de licen\u00e7a-paternidade. <\/em>Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2016\/01\/160106_suecia_parternidade_trabalho_fd\">https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2016\/01\/160106_suecia_parternidade_trabalho_fd<\/a><\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A forma de ingresso no servi\u00e7o p\u00fablico, via de regra por meio dos concursos p\u00fablicos, e a exist\u00eancia de crit\u00e9rios impessoais de progress\u00e3o nas carreiras podem levar \u00e0 ideia de que a desigualdade de g\u00eanero \u00e9 pouco expressiva, ou at\u00e9 mesmo inexistente, no servi\u00e7o p\u00fablico brasileiro. Contudo, nem mesmo o servi\u00e7o p\u00fablico escapa \u00e0 desigualdade 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