{"id":1754,"date":"2021-05-25T21:01:38","date_gmt":"2021-05-25T21:01:38","guid":{"rendered":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=1754"},"modified":"2021-05-26T18:39:32","modified_gmt":"2021-05-26T18:39:32","slug":"o-massacre-do-jacarezinho-e-a-necropolitica-do-estado-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=1754","title":{"rendered":"O massacre do jacarezinho e a necropol\u00edtica do Estado brasileiro"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"1754\" class=\"elementor elementor-1754\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-47dc011 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"47dc011\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-50aaa6a\" data-id=\"50aaa6a\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-74de92c elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"74de92c\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: right;\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cA carne mais barata do mercado \u00e9 a carne negra<\/span><\/i><\/p><p style=\"text-align: right;\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">Na cara dura<\/span><\/i><\/p><p style=\"text-align: right;\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0S\u00f3 cego que n\u00e3o v\u00ea\u201d<\/span><\/i><\/p><p style=\"text-align: right;\"><b><i>A carne. Elza Soares<\/i><\/b><\/p><p><span style=\"font-weight: 400;\">No dia 6 de maio de 2021, uma <\/span><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/rj\/rio-de-janeiro\/noticia\/2021\/05\/06\/operacao-no-jacarezinho-rio-tem-numero-recorde-de-mortes.ghtml\"><span style=\"font-weight: 400;\">opera\u00e7\u00e3o<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE), da Pol\u00edcia Civil do Rio no Jacarezinho, comunidade da zona norte da cidade do Rio de Janeiro, resultou na morte de 28 pessoas &#8211; 27 cidad\u00e3os civis e um policial. A opera\u00e7\u00e3o pretendia investigar o aliciamento de crian\u00e7as e adolescentes para atividades criminosas e as mortes apuradas at\u00e9 o momento j\u00e1 tornam esse evento a maior chacina da hist\u00f3ria da cidade do Rio de Janeiro e a segunda opera\u00e7\u00e3o mais letal j\u00e1 vivida no Estado do Rio, ficando atr\u00e1s apenas da chacina da Baixada, que ocorreu em 2005 e deixou 29 v\u00edtimas. \u00c9 importante ressaltar que tanto a chacina da Baixada quanto a chacina de Vig\u00e1rio Geral, terceiro maior massacre ocorrido em 1993 e ocasionando 21 mortes, foram causadas por <\/span><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2021\/05\/policia-faz-operacao-mais-letal-da-historia-do-rj-com-ao-menos-25-mortos.shtml\"><span style=\"font-weight: 400;\">policiais em atividades clandestinas<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> e, portanto, em opera\u00e7\u00f5es extralegais. O epis\u00f3dio do Jacarezinho escancara mais uma vez como a viol\u00eancia e letalidade policial se constituem como graves problemas no campo da seguran\u00e7a p\u00fablica e evidenciam cada vez mais a urg\u00eancia de se debater o aumento da letalidade policial nos \u00faltimos anos. Este \u00e9 o tema do texto que segue, fruto da parceria entre o N\u00facleo de Estudos em Seguran\u00e7a P\u00fablica (NESP -FJP) e o Observat\u00f3rio das Desigualdades (FJP\/CORECON \u2013 MG).<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400;\">Na opera\u00e7\u00e3o realizada no Jacarezinho no \u00faltimo dia 06 de maio, a Pol\u00edcia Civil pretendia cumprir <\/span><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/politica\/blog\/octavio-guedes\/post\/2021\/05\/07\/operacao-no-jacarezinho-dos-21-alvos-de-mandados-3-foram-mortos-e-3-foram-presos.ghtml\"><span style=\"font-weight: 400;\">21 mandados <\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">de pris\u00e3o. Cumpriu apenas 3 e outros 3 jovens que estavam entre os alvos da a\u00e7\u00e3o morreram. As outras 24 v\u00edtimas n\u00e3o tinham rela\u00e7\u00e3o alguma com a opera\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de n\u00e3o ter produzido resultados investigativos, a a\u00e7\u00e3o violou <\/span><a href=\"http:\/\/portal.stf.jus.br\/noticias\/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=444960&amp;ori=1\"><span style=\"font-weight: 400;\">a decis\u00e3o <\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">do Ministro Edson Fachin que trata da suspens\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es policiais em comunidades do Rio de Janeiro durante a pandemia da COVID-19. Segundo essa decis\u00e3o, as opera\u00e7\u00f5es policiais s\u00e3o autorizadas apenas em casos absolutamente excepcionais, se a interven\u00e7\u00e3o for devidamente justificada ao Minist\u00e9rio P\u00fablico, al\u00e9m de ter a obriga\u00e7\u00e3o de adotar o m\u00e1ximo de cuidado para n\u00e3o colocar a popula\u00e7\u00e3o em risco.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400;\">Infelizmente, epis\u00f3dios de letalidade policial t\u00eam se tornado cada vez mais comuns nos \u00faltimos anos. Nesse m\u00eas de maio completa-se um ano do <\/span><a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/brasil\/casa-onde-joao-pedro-foi-morto-tem-72-marcas-de-tiros-diz-entidade\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">Caso Jo\u00e3o Pedro<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, crian\u00e7a que foi brutalmente assassinada dentro de sua resid\u00eancia, durante uma opera\u00e7\u00e3o policial no Complexo do Salgueiro. Na casa onde a a\u00e7\u00e3o aconteceu, a per\u00edcia encontrou 72 marcas de tiros nas paredes. E casos como o de Jo\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o espor\u00e1dicos: em 2019 o caso de <\/span><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/rj\/rio-de-janeiro\/noticia\/2019\/09\/23\/entenda-como-foi-a-morte-da-menina-agatha-no-complexo-do-alemao-zona-norte-do-rio.ghtml\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c1gatha F\u00e9lix<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, assassinada no Complexo do Alem\u00e3o pela Pol\u00edcia quando voltava para a casa com a m\u00e3e, ganhou propor\u00e7\u00e3o nacional. Epis\u00f3dios como os descritos acima refletem como no Brasil, o Estado \u00e9 legitimado por uma parcela da popula\u00e7\u00e3o a praticar a chamada <\/span><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/09\/opinion\/1562688743_395031.html\"><span style=\"font-weight: 400;\">necropol\u00edtica<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, conceito do fil\u00f3sofo camaron\u00eas Achille Mbembe utilizado para se referir a uma pol\u00edtica de Estado que decide quais corpos merecem morrer e quais merecem viver, em que administrar a morte torna-se uma atividade mais central do que garantir a vida dos cidad\u00e3os.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 2020, com a crise econ\u00f4mica e sanit\u00e1ria causada pela pandemia da COVID-19, as mortes decorrentes de interven\u00e7\u00f5es policiais se intensificaram ainda mais. Nos seis primeiros meses de 2020, o pa\u00eds alcan\u00e7ou a marca de <\/span><a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/expresso\/2020\/10\/19\/A-alta-da-letalidade-policial-em-2019.-E-a-sequ%C3%AAncia-em-2020\"><span style=\"font-weight: 400;\">3.181 mortes por policiais<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, um aumento de 6% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2019, momento em que ocorreram 3.002 assassinatos decorrentes de interven\u00e7\u00f5es policiais. No caso do estado de S\u00e3o Paulo, a letalidade policial bateu recorde no primeiro semestre de 2020, com um aumento de 20% quando comparado com o mesmo per\u00edodo em 2019, sendo que o primeiro semestre de 2020 foi o intervalo em que a pol\u00edcia mais matou no estado em duas <\/span><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2020\/07\/letalidade-policial-bate-recorde-e-homicidios-durante-a-pandemia-em-sp.shtml\"><span style=\"font-weight: 400;\">d\u00e9cadas<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. Com todos os exemplos citados at\u00e9 aqui, fica claro que o massacre do Jacarezinho n\u00e3o foi um fato isolado, mas sim reflexo de uma <\/span><a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/perspectiva\/2021\/05\/07\/O-massacre-de-Jacarezinho-e-o-projeto-miliciano-de-2022\"><span style=\"font-weight: 400;\">pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> adotada pelo Estado e que tem ganhado cada vez mais for\u00e7a nos \u00faltimos anos, com a narrativa da guerra \u00e0s drogas e o discurso do \u201ccidad\u00e3o de bem\u201d contra o \u201cbandido\u201d, refor\u00e7ando o fetiche punitivista de \u201cque bandido bom \u00e9 bandido morto\u201d.\u00a0<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400;\">Antes de adentrar a discuss\u00e3o sobre as desigualdades explicitadas e produzidas pela letalidade policial, \u00e9 essencial situar o lugar do Brasil com rela\u00e7\u00e3o a esse fen\u00f4meno. Quando se comparam os n\u00edveis de letalidade policial no Brasil com os dos Estados Unidos, por exemplo, nota-se que as pol\u00edcias norte-americanas mataram 11.090 pessoas em 30 anos (1983-2012), enquanto no Brasil as pol\u00edcias foram respons\u00e1veis pela morte de 11.197 pessoas em um per\u00edodo de apenas 5 anos (2009-2013). Tais n\u00fameros evidenciam como as pol\u00edcias brasileiras possuem um padr\u00e3o bastante abusivo do uso da for\u00e7a letal e que destoa da maior parte dos pa\u00edses no mundo (FBSP, 2014). Para se ter uma ideia da amplitude do problema, o gr\u00e1fico 1 ilustra a taxa de homic\u00eddios e o percentual de mortes provocadas pelas Pol\u00edcias dentre todos os homic\u00eddios, para o Brasil, Col\u00f4mbia, El Salvador e Venezuela. Observa-se que, apesar de a Col\u00f4mbia possuir uma taxa de homic\u00eddios pr\u00f3xima \u00e0 brasileira, a propor\u00e7\u00e3o de mortes decorrentes de interven\u00e7\u00f5es policiais \u00e9 significativamente menor. Enquanto a Pol\u00edcia colombiana responde s\u00f3 por 1,9% dos homic\u00eddios, a Pol\u00edcia brasileira responde por cerca de 10,8%, percentual bastante pr\u00f3ximo ao de El Salvador, mas que possui uma taxa de homic\u00eddio 118% maior que a brasileira (FBSP, 2019).<\/span><\/p><p style=\"text-align: center;\"><b>Gr\u00e1fico 1:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Taxas de homic\u00eddio e percentual de mortes decorrentes de interven\u00e7\u00f5es policiais<\/span><\/p><p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-1756 aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem14-1-300x152.png\" alt=\"\" width=\"468\" height=\"237\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem14-1-300x152.png 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem14-1.png 564w\" sizes=\"(max-width: 468px) 100vw, 468px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP, 2019)<\/span><\/p><p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Nota: Dados da Col\u00f4mbia, El salvador e Venezuela referem-se a 2017 e os dados do Brasil s\u00e3o de 2018.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo o 14\u00ba Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, em 2019 o Brasil alcan\u00e7ou <\/span><a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/expresso\/2020\/10\/19\/A-alta-da-letalidade-policial-em-2019.-E-a-sequ%C3%AAncia-em-2020\"><span style=\"font-weight: 400;\">o maior n\u00famero de mortes<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> em decorr\u00eancia de interven\u00e7\u00f5es policiais desde que esse par\u00e2metro come\u00e7ou a ser acompanhado (FBSP, 2020). O gr\u00e1fico 2 apresenta a taxa de letalidade, indicador que corresponde ao n\u00famero de cidad\u00e3os mortos pela pol\u00edcia para cada grupo de 100 mil habitantes, para o Brasil e para os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, a t\u00edtulo de ilustra\u00e7\u00e3o. Em primeiro lugar, percebe-se que Minas Gerais possui uma taxa de letalidade mais baixa, apresentando uma taxa anual m\u00e9dia de 0,50, inferior \u00e0 taxa anual m\u00e9dia no Brasil de 1,5. J\u00e1 no caso do Rio de Janeiro os n\u00fameros s\u00e3o alarmantes, apresentando uma taxa anual m\u00e9dia de 5,30, bastante superior \u00e0 m\u00e9dia nacional. Al\u00e9m disso, nota-se que, a partir de 2013, h\u00e1 uma tend\u00eancia de aumento nas taxas de letalidade, tanto nos estados quanto no Brasil como um todo e, no caso do Rio, esse comportamento \u00e9 ainda mais intenso, com as taxas de letalidade saltando de 2,5 em 2013 para 10,5 em 2019.\u00a0<\/span><\/p><p style=\"text-align: center;\"><b>Gr\u00e1fico 2: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Evolu\u00e7\u00e3o das taxas de letalidade policial para Minas Gerais, Rio de Janeiro e Brasil, 2009-2019<\/span><\/p><p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-1757 aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem15-300x184.png\" alt=\"\" width=\"430\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem15-300x184.png 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem15.png 567w\" sizes=\"(max-width: 430px) 100vw, 430px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: ZILLI et al, 2020; FBSP, 2020; ISP, 2020. Elaborado pelos autores.<\/span><\/p><p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Nota:Dados de Minas Gerais: (Zilli et al., 2020)*<\/span><\/p><p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Dados Rio de Janeiro: Instituto de Seguran\u00e7a P\u00fablica (ISP, 2020)<\/span><\/p><p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Dados Brasil: FBSP, 2020\u00a0<\/span><\/p><p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*Dados de 2018 e 2019 retirados do FBSP, 2020<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400;\">Assim como outro <\/span><a href=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=1637\"><span style=\"font-weight: 400;\">texto<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> do Observat\u00f3rio apontou semanas atr\u00e1s, o padr\u00e3o de v\u00edtimas da letalidade policial \u00e9 majoritariamente masculino, respondendo por cerca de 99,2% dos casos, sendo que a maioria \u00e9 de jovens entre 15 e 29 anos, representando cerca de 74,3% do total de v\u00edtimas (FBSP, 2020). Quanto \u00e0 seletividade racial, o gr\u00e1fico 3 exp\u00f5e a composi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica e mortes decorrentes de interven\u00e7\u00f5es policiais no Brasil. Verifica-se que os negros\u00b9<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, que constituem cerca de 55% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, representam 75,4% dos mortos pela pol\u00edcia, contrastando com apenas 24,4% dos brancos. Na sequ\u00eancia, o gr\u00e1fico 4 compara as mortes decorrentes de interven\u00e7\u00f5es policiais, por faixa et\u00e1ria, com as v\u00edtimas de homic\u00eddio doloso e observa-se que, al\u00e9m de as v\u00edtimas de interven\u00e7\u00f5es policiais serem majoritariamente jovens, para diversas faixas et\u00e1rias esse n\u00famero supera as v\u00edtimas de homic\u00eddio. Nessa perspectiva, a faixa et\u00e1ria que abrange jovens de 20 a 24 anos chama aten\u00e7\u00e3o pela maior parcela de v\u00edtimas decorrentes de interven\u00e7\u00f5es policiais, alcan\u00e7ando 33,6% contra apenas 21,7% de v\u00edtimas de homic\u00eddio doloso. Al\u00e9m disso, os jovens de at\u00e9 29 anos representam cerca de 78,5% do total de v\u00edtimas de interven\u00e7\u00f5es policiais, evidenciando como a letalidade policial no Brasil possui caracter\u00edsticas nada arbitr\u00e1rias, atingindo um p\u00fablico espec\u00edfico, neste caso jovens, homens e negros.\u00a0<\/span><\/p><p style=\"text-align: center;\"><b>Gr\u00e1fico 3:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Composi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica e mortes decorrentes de interven\u00e7\u00f5es policiais no Brasil<\/span><\/p><p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-1758 aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem16-300x164.png\" alt=\"\" width=\"448\" height=\"245\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem16-300x164.png 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem16.png 428w\" sizes=\"(max-width: 448px) 100vw, 448px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte:\u00a0 Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP, 2019)<\/span><\/p><p style=\"text-align: center;\"><b>Gr\u00e1fico 4:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Faixa et\u00e1ria das v\u00edtimas fatais de interven\u00e7\u00f5es policiais no Brasil, 2017-2018<\/span><\/p><p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-1759 aligncenter\" src=\"http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem17-300x163.png\" alt=\"\" width=\"464\" height=\"252\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem17-300x163.png 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem17.png 561w\" sizes=\"(max-width: 464px) 100vw, 464px\" \/><\/p><p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP, 2019)<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400;\">Em suma, o fen\u00f4meno da letalidade policial tem se agravado nos \u00faltimos anos no Brasil, acentuando-se ainda mais durante a pandemia da COVID-19. Acontecimentos como o massacre do Jacarezinho e tantos outros citados nesse texto deveriam causar como\u00e7\u00e3o nacional, press\u00e3o para investigar a opera\u00e7\u00e3o e responsabilizar os autores, assim como deveriam provocar debates acirrados sobre os problemas das organiza\u00e7\u00f5es policiais e sua alta letalidade. Todavia, no Brasil, um dia ap\u00f3s a trag\u00e9dia, o vice-presidente <\/span><a href=\"https:\/\/brasil.estadao.com.br\/noticias\/rio-de-janeiro,tudo-bandido-diz-mourao-sem-provas-em-referencia-aos-24-mortos-pela-policia-no-rio,70003707496?utm_source=twitter:newsfeed&amp;utm_medium=social-organic&amp;utm_campaign=redes-sociais:052021:e&amp;utm_content=:::&amp;utm_term=\"><span style=\"font-weight: 400;\">aplaude a opera\u00e7\u00e3o<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> e o presidente <\/span><a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/brasil\/bolsonaro-parabeniza-policia-do-rio-de-janeiro-apos-acao-no-jacarezinho\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">parabeniza<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> a Pol\u00edcia Civil do Rio pelo ocorrido, fatos que demonstram como a necropol\u00edtica praticada pelo Estado brasileiro todos os dias ao matar pessoas negras e pobres das periferias se apresenta como um grande desafio para superar as desigualdades sociais e econ\u00f4micas que refor\u00e7am o racismo estrutural, a pobreza e o abismo de cidadania.<\/span><\/p><p>\u00a0<\/p><p>\u00b9<span style=\"font-weight: 400;\">A categoria negra \u00e9 definida pela soma de pretos e pardos, conforme classifica\u00e7\u00e3o do IBGE.<\/span><\/p><p>\u00a0<\/p><p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Autores: Marina Silva sob supervis\u00e3o de Marcus Vin\u00edcius, Luis Felipe Zilli e Amanda Matar\u00a0<\/span><\/i><\/p><p>\u00a0<\/p><p><b>Refer\u00eancias\u00a0<\/b><\/p><p><span style=\"font-weight: 400;\">FBSP. F\u00d3RUM BRASILEIRO DE SEGURAN\u00c7A P\u00daBLICA. 8\u00ba anu\u00e1rio brasileiro de seguran\u00e7a p\u00fablica. S\u00e3o Paulo: FBSP, 2014.\u00a0<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400;\">FBSP.F\u00d3RUM BRASILEIRO DE SEGURAN\u00c7A P\u00daBLICA. 13\u00ba anu\u00e1rio brasileiro de seguran\u00e7a p\u00fablica. S\u00e3o Paulo: FBSP, 2019<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400;\">FBSP.F\u00d3RUM BRASILEIRO DE SEGURAN\u00c7A P\u00daBLICA. 14\u00ba anu\u00e1rio brasileiro de seguran\u00e7a p\u00fablica. S\u00e3o Paulo: FBSP, 2010<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400;\">ISP. Instituto de Seguran\u00e7a P\u00fablica. S\u00e9ries hist\u00f3ricas anuais de taxa de letalidade violenta no Estado do Rio de Janeiro e grandes regi\u00f5es. Dispon\u00edvel em &lt;<\/span><a href=\"http:\/\/www.ispdados.rj.gov.br\/Arquivos\/SeriesHistoricasLetalidadeViolenta.pdf\"><span style=\"font-weight: 400;\">http:\/\/www.ispdados.rj.gov.br\/Arquivos\/SeriesHistoricasLetalidadeViolenta.pdf<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> &gt;<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400;\">ZILLI, L. F.; COUTO, V. A.; FIGUEIREDO, A. M.; BATITUCCI, E. C.; MARINHO, K. R. L.; CRUZ, M. V. G. Letalidade e Vitimiza\u00e7\u00e3o Policial em Minas Gerais: caracter\u00edsticas gerais do fen\u00f4meno em anos recentes. <\/span><b>Revista Brasileira de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, v. 14, n. 2, p. 46\u201363, 2020.<\/span><\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA carne mais barata do mercado \u00e9 a carne negra Na cara dura \u00a0S\u00f3 cego que n\u00e3o v\u00ea\u201d A carne. Elza Soares No dia 6 de maio de 2021, uma opera\u00e7\u00e3o da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE), da Pol\u00edcia Civil do Rio no Jacarezinho, comunidade da zona norte da cidade do Rio de Janeiro, resultou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1755,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ocean_post_layout":"","ocean_both_sidebars_style":"","ocean_both_sidebars_content_width":0,"ocean_both_sidebars_sidebars_width":0,"ocean_sidebar":"","ocean_second_sidebar":"","ocean_disable_margins":"enable","ocean_add_body_class":"","ocean_shortcode_before_top_bar":"","ocean_shortcode_after_top_bar":"","ocean_shortcode_before_header":"","ocean_shortcode_after_header":"","ocean_has_shortcode":"","ocean_shortcode_after_title":"","ocean_shortcode_before_footer_widgets":"","ocean_shortcode_after_footer_widgets":"","ocean_shortcode_before_footer_bottom":"","ocean_shortcode_after_footer_bottom":"","ocean_display_top_bar":"default","ocean_display_header":"default","ocean_header_style":"","ocean_center_header_left_menu":"","ocean_custom_header_template":"","ocean_custom_logo":0,"ocean_custom_retina_logo":0,"ocean_custom_logo_max_width":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_width":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_width":0,"ocean_custom_logo_max_height":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_height":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_height":0,"ocean_header_custom_menu":"","ocean_menu_typo_font_family":"","ocean_menu_typo_font_subset":"","ocean_menu_typo_font_size":0,"ocean_menu_typo_font_size_tablet":0,"ocean_menu_typo_font_size_mobile":0,"ocean_menu_typo_font_size_unit":"px","ocean_menu_typo_font_weight":"","ocean_menu_typo_font_weight_tablet":"","ocean_menu_typo_font_weight_mobile":"","ocean_menu_typo_transform":"","ocean_menu_typo_transform_tablet":"","ocean_menu_typo_transform_mobile":"","ocean_menu_typo_line_height":0,"ocean_menu_typo_line_height_tablet":0,"ocean_menu_typo_line_height_mobile":0,"ocean_menu_typo_line_height_unit":"","ocean_menu_typo_spacing":0,"ocean_menu_typo_spacing_tablet":0,"ocean_menu_typo_spacing_mobile":0,"ocean_menu_typo_spacing_unit":"","ocean_menu_link_color":"","ocean_menu_link_color_hover":"","ocean_menu_link_color_active":"","ocean_menu_link_background":"","ocean_menu_link_hover_background":"","ocean_menu_link_active_background":"","ocean_menu_social_links_bg":"","ocean_menu_social_hover_links_bg":"","ocean_menu_social_links_color":"","ocean_menu_social_hover_links_color":"","ocean_disable_title":"default","ocean_disable_heading":"default","ocean_post_title":"","ocean_post_subheading":"","ocean_post_title_style":"","ocean_post_title_background_color":"","ocean_post_title_background":0,"ocean_post_title_bg_image_position":"","ocean_post_title_bg_image_attachment":"","ocean_post_title_bg_image_repeat":"","ocean_post_title_bg_image_size":"","ocean_post_title_height":0,"ocean_post_title_bg_overlay":0.5,"ocean_post_title_bg_overlay_color":"","ocean_disable_breadcrumbs":"default","ocean_breadcrumbs_color":"","ocean_breadcrumbs_separator_color":"","ocean_breadcrumbs_links_color":"","ocean_breadcrumbs_links_hover_color":"","ocean_display_footer_widgets":"default","ocean_display_footer_bottom":"default","ocean_custom_footer_template":"","ocean_post_oembed":"","ocean_post_self_hosted_media":"","ocean_post_video_embed":"","ocean_link_format":"","ocean_link_format_target":"self","ocean_quote_format":"","ocean_quote_format_link":"post","ocean_gallery_link_images":"on","ocean_gallery_id":[],"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1754","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-analise","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1754","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1754"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1754\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1765,"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1754\/revisions\/1765"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1755"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1754"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1754"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/observatoriodesigualdade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