{"id":2880,"date":"2023-02-28T19:54:46","date_gmt":"2023-02-28T19:54:46","guid":{"rendered":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=2880"},"modified":"2023-02-28T20:09:17","modified_gmt":"2023-02-28T20:09:17","slug":"quem-e-o-culpado-pela-pobreza-a-justificacao-da-desigualdade-na-catequese-meritocratica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=2880","title":{"rendered":"Quem \u00e9 o culpado pela pobreza? A justifica\u00e7\u00e3o da desigualdade na catequese meritocr\u00e1tica"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"2880\" class=\"elementor elementor-2880\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-db61507 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"db61507\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-c0b639c\" data-id=\"c0b639c\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-29a5c46 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"29a5c46\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p><span style=\"font-weight: 400;\">A rede estadual de educa\u00e7\u00e3o do Paran\u00e1 protagonizou, nos \u00faltimos dias, uma pol\u00eamica que ilustra um dos mecanismos pelos quais at\u00e9 mesmo os alt\u00edssimos n\u00edveis de desigualdade se legitimam em sociedades como a brasileira. Como parte do material usado na disciplina de Educa\u00e7\u00e3o Financeira, foi adquirido pela secretaria de educa\u00e7\u00e3o do estado, segundo o sindicato dos profissionais de educa\u00e7\u00e3o, um material de apoio para os professores que diferenciava a &#8220;mentalidade rica\u201d da\u00a0 \u201cmentalidade pobre\u201d (UOL, 2023). Ainda segundo o portal UOL, esse documento seria ministrado aos alunos do 6\u00ba ano e disponibilizado online, de maneira semelhante a uma apresenta\u00e7\u00e3o de slides. Ap\u00f3s se tornar p\u00fablico e gerar grande repercuss\u00e3o negativa, o material passou a n\u00e3o compor mais as ferramentas did\u00e1ticas dispon\u00edveis para a disciplina,\u00a0 considerado \u201cinadmiss\u00edvel\u201d pela secretaria de educa\u00e7\u00e3o do Paran\u00e1. O material reproduzido abaixo (imagem 1) refor\u00e7a a culpabiliza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo pela pr\u00f3pria pobreza, a partir de uma l\u00f3gica meritocr\u00e1tica, t\u00e3o ao gosto dos pretensos <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">coachs<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> motivacionais que povoam as redes sociais e livrarias de aeroporto pelo mundo afora. De acordo com esta vis\u00e3o, a pobreza seria resultado de uma mentalidade (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">mindset<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">) pobre (e, portanto, inadequada) e n\u00e3o dos fatores enraizados na sociedade brasileira que perpetuam a pobreza e a desigualdade ao longo das gera\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/span><\/p><p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Imagem 1 &#8211; Material de apoio para a disciplina de educa\u00e7\u00e3o financeira para professores do ensino estadual do Paran\u00e1<\/span><\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-d8a4633 elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"d8a4633\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"512\" height=\"288\" src=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Imagem-1.png\" class=\"attachment-large size-large wp-image-2881\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Imagem-1.png 512w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Imagem-1-300x169.png 300w\" sizes=\"(max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-047f694 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"047f694\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\">Fonte: UOL (2023)<\/p><p>Antes de discutir a que serve e quais os efeitos deste tipo de abordagem, vamos aos fatos. Afinal de contas, o que seria uma sociedade meritocr\u00e1tica? At\u00e9 que ponto desempenho e m\u00e9rito explicam a distribui\u00e7\u00e3o e a ocupa\u00e7\u00e3o de diferentes posi\u00e7\u00f5es na estrutura social? Segundo esta vis\u00e3o, nas sociedades modernas, as recompensas \u2013 renda, sal\u00e1rio, prest\u00edgio, posi\u00e7\u00e3o social \u2013 seriam distribu\u00eddos cada vez mais pelo desempenho e menos pelas caracter\u00edsticas de origem ou herdadas \u2013 contexto familiar, sexo, g\u00eanero, ra\u00e7a, grupo \u00e9tnico, local de nascimento etc. Assim, em primeiro lugar, os indiv\u00edduos seriam cada vez mais recompensados pelo que demonstraram ser capazes de realizar e n\u00e3o pela sua origem social. Segundo, se a desigualdade nas recompensas monet\u00e1rias ou de outra natureza corresponderia, de um lado, \u00e0 capacidade e empenho dos indiv\u00edduos, ela decorreria, de outro lado, da necessidade de atrair os indiv\u00edduos mais capazes, preparados e dedicados para aquelas fun\u00e7\u00f5es mais importantes e exigentes para o funcionamento da sociedade. Segundo esta concep\u00e7\u00e3o, portanto, as desigualdades resultantes seriam n\u00e3o apenas justas, mas necess\u00e1rias. Temos ent\u00e3o um tipo de justificativa para as desigualdades que pode ser compat\u00edvel com o princ\u00edpio de que todos nascem iguais em direitos. De forma mais sistem\u00e1tica, pode-se dizer que uma sociedade poderia ser considerada meritocr\u00e1tica apenas quando reunisse as condi\u00e7\u00f5es presentes no Box 1, retirado do Boletim \u201cDesigualdade, mobilidade e a meritocracia \u00e0 brasileira: anatomia de uma fal\u00e1cia.\u201d [1]<\/p><p style=\"text-align: center;\">Box 1 &#8211; A Sociedade Meritocr\u00e1tica. Condi\u00e7\u00f5es e suposi\u00e7\u00f5es para sua viabilidade.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-fcf2bd9 elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"fcf2bd9\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"396\" src=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Box-1-768x396.jpeg\" class=\"attachment-medium_large size-medium_large wp-image-2889\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Box-1-768x396.jpeg 768w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Box-1-300x155.jpeg 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Box-1.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-709cc22 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"709cc22\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\">Fonte: Boletim n\u00ba 2 [1]<\/p><p>O apelo da ideologia meritocr\u00e1tica vem justamente do fato de que seus fundamentos parecem, \u00e0 primeira vista, bastante razo\u00e1veis. Mas \u00e9 preciso avaliar em que medida estes supostos se comprovam de fato. Os primeiros supostos indicam que as posi\u00e7\u00f5es sociais se distribuem segundo o m\u00e9rito e a qualifica\u00e7\u00e3o, adquiridos e demonstrados ao longo da vida, e n\u00e3o por filia\u00e7\u00e3o heredit\u00e1ria. Isto implica que a meritocracia sup\u00f5e uma elevada mobilidade social. Em outras palavras, uma sociedade meritocr\u00e1tica \u00e9 aquela que oferece boas chances para que as pessoas mudem de posi\u00e7\u00e3o social. A mobilidade intergeracional refere-se \u00e0 probabilidade de que uma pessoa venha a ocupar uma posi\u00e7\u00e3o social diferente daquela de seus pais. De maneira muito simplificada, pode-se dizer que se saber a posi\u00e7\u00e3o social dos seus pais (ocupa\u00e7\u00e3o, sal\u00e1rio, escolaridade) me permite prever com acerto qual ser\u00e1 a sua posi\u00e7\u00e3o social, esta sociedade tem baixa mobilidade intergeracional. Uma sociedade com baixa mobilidade, portanto, indica que as posi\u00e7\u00f5es e recompensas mais valorizadas n\u00e3o est\u00e3o abertas a todos os grupos sociais, n\u00e3o dependem apenas do empenho e da compet\u00eancia, mas resultam de condi\u00e7\u00f5es herdadas ou da discrimina\u00e7\u00e3o racial, de g\u00eanero, orienta\u00e7\u00e3o sexual, \u00e9tnica ou de outros tipos de preconceito, enfim, de sua origem social.<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 1 &#8211; N\u00famero esperado de gera\u00e7\u00f5es que levariam para um descendente de uma fam\u00edlia situada entre os 10% de menor rendimento alcan\u00e7asse a renda m\u00e9dia de seu pa\u00eds<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-a09b160 elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"a09b160\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"302\" src=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-1-768x302.jpeg\" class=\"attachment-medium_large size-medium_large wp-image-2888\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-1-768x302.jpeg 768w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-1-300x118.jpeg 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-1.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-2cd7465 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"2cd7465\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>Nota: Essas estimativas s\u00e3o baseadas em simula\u00e7\u00f5es e pretendem ser ilustrativas. Elas n\u00e3o devem ser interpretadas como fornecedoras do tempo exato que uma pessoa vinda de fam\u00edlia de baixa renda vai precisar para atingir a renda m\u00e9dia. As estimativas s\u00e3o baseadas em ganhos continuados (elasticidades) de pais e filhos e o atual n\u00edvel de renda familiar do decil mais pobre e a m\u00e9dia, assumindo elasticidades constantes, seguindo Bowles e Gintis (2002). A baixa renda \u00e9 definida aqui como o primeiro decil de renda, ou seja, os 10% mais pobres da popula\u00e7\u00e3o. (OCDE, 2018)<\/p><p style=\"text-align: center;\">Fonte: \u201cA Broken Social Elevator? How to Promote Social Mobility\u201d (OCDE, 2018); Banco de Dados OCDE.<\/p><p>O gr\u00e1fico 1 estima quantas gera\u00e7\u00f5es demorariam hipoteticamente para que os filhos de uma fam\u00edlia situada entre os 10% de menor rendimento alcan\u00e7assem a renda m\u00e9dia de seu pa\u00eds. Quanto maior a mobilidade intergeracional, menos tempo seria necess\u00e1rio para que isto ocorresse. Como se v\u00ea no gr\u00e1fico, h\u00e1 bastante varia\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses, mas em m\u00e9dia demorariam entre quatro e cinco gera\u00e7\u00f5es para que isto ocorra. Ou seja, na maioria dos pa\u00edses, em m\u00e9dia, se algu\u00e9m pertence aos 10% mais pobres, apenas seu tataraneto alcan\u00e7ar\u00e1 a renda m\u00e9dia daquele pa\u00eds. O caso do Brasil \u00e9 ainda muito mais grave, pois em nosso pa\u00eds seriam necess\u00e1rias n\u00e3o cinco, mas nove gera\u00e7\u00f5es para que os filhos das fam\u00edlias de baixa renda alcan\u00e7assem a renda m\u00e9dia da popula\u00e7\u00e3o. Isto quer dizer que, no caso brasileiro, cerca de 70% das diferen\u00e7as de rendimento entre os pais de uma gera\u00e7\u00e3o s\u00e3o transmitidos aos seus filhos. Isto quer dizer que, na imensa maioria dos casos, a posi\u00e7\u00e3o social que uma pessoa ocupa \u00e9 muito mais herdada do que \u201cconquistada\u201d, seja l\u00e1 qual for sua \u201cmentalidade\u201d.<br \/>Al\u00e9m disso, o pr\u00f3prio mercado de trabalho est\u00e1 longe de recompensar apenas o m\u00e9rito, independentemente das origens sociais de uma pessoa. As chances de mulheres e negros no mercado de trabalho s\u00e3o muito piores do que as de brancos e homens, mesmo quando alcan\u00e7am, a duras penas, n\u00edveis similares de escolaridade, como mostram os gr\u00e1ficos 2 e 3.<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 2 &#8211; N\u00edvel de ocupa\u00e7\u00e3o por sexo, segundo o n\u00edvel de instru\u00e7\u00e3o (Brasil, 2021)<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-921fe05 elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"921fe05\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"378\" src=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-2-768x378.jpeg\" class=\"attachment-medium_large size-medium_large wp-image-2887\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-2-768x378.jpeg 768w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-2-300x148.jpeg 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-2.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-d190b24 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"d190b24\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\">Fonte: IBGE &#8211; PNAD Cont\u00ednua (2021)<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 3 &#8211; Rendimento-hora m\u00e9dio real do trabalho principal das pessoas ocupadas, por cor ou ra\u00e7a, segundo n\u00edvel de instru\u00e7\u00e3o (Brasil, 2021)<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-f60d226 elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"f60d226\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"391\" src=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-3-768x391.jpeg\" class=\"attachment-medium_large size-medium_large wp-image-2886\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-3-768x391.jpeg 768w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-3-300x153.jpeg 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-3.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-719d489 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"719d489\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\">Fonte: IBGE &#8211; PNAD Cont\u00ednua (2021)<\/p><p>As informa\u00e7\u00f5es contidas nos gr\u00e1ficos 2 e 3 ilustram o fato de que, mesmo em condi\u00e7\u00f5es de qualifica\u00e7\u00e3o semelhantes, os grupos mais vulner\u00e1veis da sociedade t\u00eam um acesso mais dif\u00edcil ao mercado de trabalho e, quando conseguem uma ocupa\u00e7\u00e3o, sua remunera\u00e7\u00e3o \u00e9 sistematicamente inferior. Ou seja, forma\u00e7\u00e3o e qualifica\u00e7\u00e3o s\u00e3o certamente fundamentais (como tamb\u00e9m fica claro nos gr\u00e1ficos), mas n\u00e3o contam toda a hist\u00f3ria da desigualdade: h\u00e1 mecanismos persistentes e disseminados de discrimina\u00e7\u00e3o e mantuten\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais.<br \/>Finalmente, ainda que n\u00e3o houvesse discrimina\u00e7\u00e3o, sexismo e racismo institucionalizados no mercado de trabalho e todas as posi\u00e7\u00f5es e as recompensas sociais neste \u00e2mbito fossem distribu\u00eddas apenas a partir das qualifica\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos, isto s\u00f3 representaria algum tipo de meritocracia se o acesso \u00e0 forma\u00e7\u00e3o e qualifica\u00e7\u00e3o fosse igualit\u00e1rio, garantindo a todos as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas necess\u00e1rias para disputar, com alguma chance razo\u00e1vel, as oportunidades sociais.<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 4 &#8211; Percentual da popula\u00e7\u00e3o de 15 a 17 anos que frequentava o ensino m\u00e9dio ou havia conclu\u00eddo a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, por renda domiciliar per capita (Brasil, 2016 &#8211; 2019)<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-e682730 elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"e682730\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"413\" src=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-4-768x413.jpeg\" class=\"attachment-medium_large size-medium_large wp-image-2885\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-4-768x413.jpeg 768w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-4-300x161.jpeg 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-4.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-898703d elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"898703d\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\">Fonte: Elaborado pela Dired\/Inep com base em dados da PNAD\/IBGE<\/p><p>Um sistema educacional totalmente igualit\u00e1rio &#8211; ou seja, em que as condi\u00e7\u00f5es familiares ou de origem n\u00e3o limitem ou favore\u00e7am as oportunidades educacionais das pessoas &#8211; \u00e9 algo que nenhum pa\u00eds ainda alcan\u00e7ou. No entanto, existem pa\u00edses que conseguem minorar bastante as desigualdades educacionais. N\u00e3o \u00e9 o caso do Brasil. Apesar de muitos avan\u00e7os desde a Constitui\u00e7\u00e3o de 88, \u00e9 hoje de conhecimento geral que ainda estamos longe de garantir o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o de qualidade a todos os nossos cidad\u00e3os. Os exemplos desta desigualdade s\u00e3o in\u00fameros. A t\u00edtulo de ilustra\u00e7\u00e3o, o Gr\u00e1fico 4 mostra como o acesso, perman\u00eancia e progress\u00e3o, mesmo na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica (que deveria ser universal) \u00e9 desigual: enquanto 91% dos jovens de 15 a 17 anos de maior renda frequentavam ou j\u00e1 haviam conclu\u00eddo o ensino m\u00e9dio, entre os jovens mais pobres este percentual alcan\u00e7ava apenas 61%.<\/p><p>Ou seja, pode-se perguntar se uma sociedade totalmente meritocr\u00e1tica seria desej\u00e1vel ou justa; pode-se perguntar se, de fato, podemos dizer que \u201cmerecemos\u201d alguma coisa e se, mesmo que houvesse igualdade de oportunidades, n\u00edveis muito altos de desigualdade seriam aceit\u00e1veis e quais as suas consequ\u00eancias em outras esferas da vida social. No entanto, como demonstramos acima, n\u00e3o importa o que se pense sobre estes temas, a realidade \u00e9 que a ideia de que a maior parte das desigualdades econ\u00f4micas e ocupacionais sejam explicadas por diferen\u00e7as de capacidade e esfor\u00e7o \u201cpelo m\u00e9rito\u201d \u00e9 francamente desmentida pelas evid\u00eancias dispon\u00edveis.<\/p><p>Mesmo assim, vale a pena nos perguntarmos porque, apesar de evidentemente falso, o tipo de vis\u00e3o expresso neste material \u00e9 t\u00e3o disseminado e tem tanto apelo, a ponto de compor o material did\u00e1tico de uma rede p\u00fablica significativa como a do Paran\u00e1. Deve-se perguntar ainda se \u00e9 um caso isolado de falta de bom senso e se \u00e9 inofensivo do ponto de vista da reprodu\u00e7\u00e3o da desigualdade.<\/p><p>A verdade \u00e9 que esse ocorrido exp\u00f5e a multidimensionalidade das consequ\u00eancias que a desigualdade social pode gerar nos contextos sociais. Dessa forma, ela n\u00e3o existe somente pela perspectiva econ\u00f4mica ou por uma dimens\u00e3o objetiva, como a divis\u00e3o de classes presente na sociedade brasileira, a desigualdade social possui um lado subjetivo, que marca o indiv\u00edduo a partir das significa\u00e7\u00f5es que ele produz de acordo com suas experi\u00eancias vividas (Melsert e Bock, 2015). Assim, os espa\u00e7os ocupados na cidade, as diferen\u00e7as de acesso a servi\u00e7os e bens p\u00fablicos, o acesso \u00e0 cultura, etc, contribuem para a forma\u00e7\u00e3o de uma idealiza\u00e7\u00e3o do que \u00e9 ser pobre e do que \u00e9 ser rico, que serve como condi\u00e7\u00e3o para a perpetua\u00e7\u00e3o dessas desigualdades na sociedade (Melsert e Bock, 2015). Esse aspecto subjetivo pode ser exemplificado pela situa\u00e7\u00e3o nas escolas p\u00fablicas do Paran\u00e1, com o material did\u00e1tico que define o que seria uma mentalidade pobre e uma mentalidade rica.<\/p><p>Tendo isso em vista, essas representa\u00e7\u00f5es v\u00e3o para al\u00e9m do cotidiano do indiv\u00edduo, sendo reproduzidas em narrativas de novelas, livros, filmes, assim como, nas constru\u00e7\u00f5es de identidade utilizadas em campanhas de marketing (Freire Filho, 2004). Ainda segundo Freire Filho (2004), \u201cA avaliac\u0327a\u0303o que os indivi\u0301duos fazem de si mesmo e de seus interesses, sob o influxo crescente dos referenciais midia\u0301ticos, interfere substancialmente, por sua vez, nas demandas poli\u0301ticas que expressam ou deixam de pleitear\u201d. Al\u00e9m disso, segundo Leite (2005), \u201ca mesma pobreza e os mesmos pobres podem ser representados de formas diferentes, de acordo com o ser social daqueles que os representem.[&#8230;] diferentes representac\u0327o\u0303es [&#8230;] conduzem a atitudes e valores tambe\u0301m varia\u0301veis em relac\u0327a\u0303o ao assunto.\u201d<\/p><p>Dentro da m\u00eddia brasileira, a representa\u00e7\u00e3o das classes mais pobres geralmente s\u00e3o de car\u00e1ter depreciativo e como uma forma humor\u00edstica, ao satirizar os s\u00edmbolos relacionados a essa parte da sociedade. A reprodu\u00e7\u00e3o desses estere\u00f3tipos aparece como uma estrat\u00e9gia de controle dessas \u201ccorporeidades que devem ser contidas pelos c\u00f3digos dominantes\u201d e subjugadas aos espa\u00e7os espec\u00edficos destinados \u00e0s classes mais pobres, caso contr\u00e1rio, podem gerar rea\u00e7\u00f5es violentas por parte da sociedade considerada como &#8220;elite&#8221; (Mendon\u00e7a e Jord\u00e3o, 2014). Essa sensa\u00e7\u00e3o de desconforto da classe rica torna-se aparente por meio da m\u00eddia, que \u201cexpo\u0303em os preconceitos e as fraturas de uma sociedade que se queria harmo\u0302nica e deixam visi\u0301veis va\u0301rias formas de antagonismos, especialmente nas fronteiras de classes sociais\u201d (Mendon\u00e7a e Jord\u00e3o, 2014).<\/p><p>Esses estere\u00f3tipos transparecem na m\u00eddia por meio da desigualdade racial, por exemplo, na medida em que a maior parte da popula\u00e7\u00e3o pobre \u00e9 negra. Desse modo, as pessoas negras s\u00e3o representadas nas novelas como pap\u00e9is secund\u00e1rios e raramente aparecem em an\u00fancios publicit\u00e1rios, como mostram os gr\u00e1ficos abaixo. Apenas 5% dos protagonistas de novelas entre 1994 e 2014 eram negros (gr\u00e1fico 5) e apenas 12% das figuras humanas em publicidades eram negras nos an\u00fancios no peri\u00f3dico de maior circulacao entre 1987 e 2017 (gr\u00e1fico 6).<\/p><p style=\"text-align: center;\">Gr\u00e1fico 5 &#8211; Protagonistas por cor em novelas da Rede Globo entre 1994 e 2014 (%)<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-2e6b76f elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"2e6b76f\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"512\" height=\"321\" src=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-5.png\" class=\"attachment-large size-large wp-image-2883\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-5.png 512w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-5-300x188.png 300w\" sizes=\"(max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-b9ee2b5 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"b9ee2b5\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: GEEMA &#8211; IESP\/UERJ (2015)\u00a0<\/span><\/p><p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Gr\u00e1fico 6 &#8211; Figuras humanas por cor em an\u00fancios do seman\u00e1rio de maior circula\u00e7\u00e3o nacional entre 1987 e 2017 (%)<\/span><\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-2c77e3a elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"2c77e3a\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"512\" height=\"317\" src=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-6.png\" class=\"attachment-large size-large wp-image-2884\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-6.png 512w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Grafico-6-300x186.png 300w\" sizes=\"(max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-cd415c8 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"cd415c8\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>Fonte: GEEMA &#8211; IESP\/UERJ (2020)<\/p><p>Ao considerar isso, esse conjunto de cren\u00e7as e de estere\u00f3tipos acabam por serem reproduzidos em situa\u00e7\u00f5es aparentemente inofensivas, como no caso do material did\u00e1tico para as aulas de educa\u00e7\u00e3o financeira nas escolas p\u00fablicas do Paran\u00e1. Contudo, eles produzem consequ\u00eancias muito maiores do que as inicialmente imaginadas. Na verdade, eles contribuem para a perpetua\u00e7\u00e3o dessas idealiza\u00e7\u00f5es, como colocado por Melsert e Bock (2015), no Brasil existem quatro elementos que contribuem para essa legitima\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais: primeiro, \u00e9 a exist\u00eancia de uma l\u00f3gica meritocr\u00e1tica, que justifica a posi\u00e7\u00e3o de uma pessoa na sociedade de acordo com o seu esfor\u00e7o individual; segundo, \u00e9 a import\u00e2ncia dada \u00e0 escola, que \u00e9 colocada como institui\u00e7\u00e3o salvadora, mas tem sua m\u00e1 qualidade naturalizada; terceiro, \u00e9 atribuir a culpa das desigualdades existentes ao Estado negligente, retirando a culpa das elites; e, por \u00faltimo, as camadas mais ricas da sociedade tamb\u00e9m n\u00e3o possuem grande compreens\u00e3o dos mecanismos que reproduzem a estrutura de desigualdade social no pa\u00eds.<\/p><p>A reprodu\u00e7\u00e3o de um material desses em escolas p\u00fablicas, que concentram a maior parte dos estudantes oriundos de fam\u00edlias pobres e que s\u00e3o ambientes onde os indiv\u00edduos passam cerca de 11,8 anos de suas vidas &#8211; escolaridade m\u00e9dia brasileira em 2020 (Moderna, 2021), influenciando em suas experi\u00eancias de vida, contribui para que seja refor\u00e7ada uma imagem predominantemente criada por \u201cn\u00e3o-pobres\u201d, que s\u00e3o vistos \u201cem termos do que lhes faltam\u201d, s\u00e3o considerados agentes de pouca influ\u00eancia sobre o mundo (Leite, 2005). No Brasil, Melsert e Bock (2015) identificam que o jovem pobre desvaloriza a sua realidade, ele como pessoa, a sua fam\u00edlia e as institui\u00e7\u00f5es \u00e0s quais tem acesso, possuindo um desejo de se aproximar do \u201crico\u201d. Ao contr\u00e1rio, para os jovens ricos a pobreza est\u00e1 relacionada com precariedade e consideram suas realidades como metas que os jovens pobres deveriam alcan\u00e7ar (Melsert e Bock, 2015).<\/p><p>Em conclus\u00e3o, essas representa\u00e7\u00f5es que se propagam pela sociedade e que acabam por compor as cren\u00e7as dos indiv\u00edduos, possuem papel fundamental na forma\u00e7\u00e3o de suas identidades (Leite, 2005). Segundo Santos, Mota e Silva (2013), \u201ca percepc\u0327a\u0303o da existe\u0302ncia de pessoas pobres e misera\u0301veis e\u0301 obscurecida por um arsenal de justificativas que normalizam as condic\u0327o\u0303es preca\u0301rias de existe\u0302ncia de um segmento da populac\u0327a\u0303o, como, por exemplo, as ideias de meritocracia, de trajeto\u0301rias pessoais fracassadas, de sorte ou azar\u201d. Por fim, isso contribui para a aceita\u00e7\u00e3o de suas realidades sem serem questionadas, como se fosse algo natural, ou seja, deixam de realizar demandas poli\u0301ticas ou lutarem por seus direitos como cidad\u00e3os, facilitando a perpetua\u00e7\u00e3o das desigualdades existentes.<\/p><p>\u00a0<\/p><p>Autores: Lorena Auarek, Anna Clara Mattos e Bruno Lazzarotti<\/p><p>*O Observat\u00f3rio das Desigualdades \u00e9 um projeto de extens\u00e3o. O conte\u00fado e as opini\u00f5es expressas n\u00e3o refletem necessariamente o posicionamento da Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro ou do CORECON \u2013 MG.<\/p><p>\u00a0<\/p><p><strong>Nota<\/strong> <br \/>[1] O boletim \u201cDesigualdade, mobilidade e a meritocracia \u00e0 brasileira: anatomia de uma fal\u00e1cia\u201d est\u00e1 dispon\u00edvel no blog do Observat\u00f3rio das Desigualdades (http:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/).<\/p><p>\u00a0<\/p><p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p><p>FREIRE FILHO, Jo\u00e3o. M\u00eddia, estere\u00f3tipo e representa\u00e7\u00e3o das minorias. Revista Eco-P\u00f3s, v. 7, n. 2, p. 45-71, 2004. <\/p><p>G1. Ensino m\u00e9dio p\u00fablico tem 8,6% de estudantes de fam\u00edlias ricas, diz IBGE. G1, S\u00e3o Paulo e Belo Horizonte 28 nov. 2012. Disponi\u0301vel em &lt;https:\/\/g1.globo.com\/educacao\/noticia\/2012\/11\/ensino-medio-publico-tem-86-de-estudantes-de-familias-ricas-diz-ibge.html&gt;. <\/p><p>IBGE. S\u00edntese de indicadores sociais : uma an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o brasileira. 2015. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv95011.pdf&gt;.<\/p><p>LEITE, Izildo Corr\u00eaa. Pobreza, representa\u00e7\u00f5es, identidade e Pol\u00edtica Social. Jornada Internacional de Pol\u00edticas P\u00fablicas, 2, S\u00e3o Lu\u00eds, 2005.<\/p><p>MELSERT, Ana Lu\u00edsa; BOCK, Ana Merces Bahia. Dimens\u00e3o subjetiva da desigualdade social: estudo de projetos de futuro de jovens ricos e pobresI. Educa\u00e7\u00e3o e Pesquisa, v. 41, n. 3, p. 773-806.<\/p><p>MENDON\u00c7A, Maria Luiza Martins de; JORD\u00c3O, Jana\u00edna Vieira de Paula. Nojo de pobre: representa\u00e7\u00f5es do popular e preconceito de classe. 2014.<\/p><p>MODERNA. Anu\u00e1rio Brasileiro da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica. 2021. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.moderna.com.br\/anuario-educacao-basica\/2021\/index.html&gt;. <\/p><p>SANTOS, Luane Neves; MOTA, Alessiv\u00e2nia M\u00e1rcia Assun\u00e7\u00e3o; SILVA, Marcus Vin\u00edcius de Oliveira. A dimens\u00e3o subjetiva da subcidadania: considera\u00e7\u00f5es cobre a desigualdade social Brasileira. Psicologia: Ci\u00eancia e Profiss\u00e3o, v. 33, p. 700-715, 2013.<\/p><p>UOL. Material para professores do Paran\u00e1 diferencia &#8216;mentalidade rica&#8217; e &#8216;pobre&#8217;. UOL, S\u00e3o Paulo 10 fev. 2023. Disponi\u0301vel em &lt;https:\/\/educacao.uol.com.br\/noticias\/2023\/02\/10\/material-professores-parana-educacao-financeira.htm&gt;.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rede estadual de educa\u00e7\u00e3o do Paran\u00e1 protagonizou, nos \u00faltimos dias, uma pol\u00eamica que ilustra um dos mecanismos pelos quais at\u00e9 mesmo os alt\u00edssimos n\u00edveis de desigualdade se legitimam em sociedades como a brasileira. 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