{"id":4902,"date":"2026-05-06T15:26:58","date_gmt":"2026-05-06T15:26:58","guid":{"rendered":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=4902"},"modified":"2026-05-06T15:26:58","modified_gmt":"2026-05-06T15:26:58","slug":"a-ilusao-da-autonomia-plataformizacao-uberizacao-e-a-nova-face-da-desigualdade-trabalhista-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=4902","title":{"rendered":"A ilus\u00e3o da autonomia: plataformiza\u00e7\u00e3o, uberiza\u00e7\u00e3o e a nova face da desigualdade trabalhista no Brasil"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">A ilus\u00e3o da autonomia: plataformiza\u00e7\u00e3o, uberiza\u00e7\u00e3o e a nova face da desigualdade trabalhista no Brasil<\/span><\/h1>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><em>Autoria: Felipe Longo e Rafaela Bovareto<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><em>Supervis\u00e3o, orienta\u00e7\u00e3o e corre\u00e7\u00e3o: Bruno Lazzarotti<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4903 aligncenter\" src=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img1.png\" alt=\"\" width=\"772\" height=\"505\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img1.png 800w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img1-300x196.png 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img1-768x502.png 768w\" sizes=\"(max-width: 772px) 100vw, 772px\" \/><\/span><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Foto: Jaqueline Deister<\/strong><\/span><\/h5>\n<ol>\n<li>\n<h2><span style=\"color: #000000;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/h2>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0Voc\u00ea sabe o que \u00e9 a uberiza\u00e7\u00e3o do trabalho? E a plataformiza\u00e7\u00e3o dele? E o que seria o trabalho algor\u00edtmico? Como isso se liga \u00e0 ind\u00fastria do <em>just-in-time<\/em> e ao capitalismo informacional contempor\u00e2neo? S\u00e3o muitos conceitos e o assunto \u00e9 complexo, envolvendo diretamente as vidas de milh\u00f5es de trabalhadores em todo o ocidente, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas n\u00e3o vamos nos precipitar ou expandir demais o pensamento, vamos falar do nosso pa\u00eds. Nesse sentido, vamos come\u00e7ar respondendo \u00e0s perguntas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0A <strong>uberiza\u00e7\u00e3o <\/strong>\u00e9 um fen\u00f4meno nomeado recentemente, mas que pode ser considerado antigo dentro da estrutura da economia capitalista, com Ab\u00edlio, Amorim e Grohmann, em 2021, definindo como um processo hist\u00f3rico de precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, de distanciamento da figura do patr\u00e3o dos empregados e do trabalho sob demanda, se diferenciando do trabalho em turnos fixos. Esse distanciamento do trabalhador de uma rotina fixa leva o mesmo a um estresse constante de sempre estar dispon\u00edvel para seu trabalho, sendo algo mais comumente visto nos trabalhadores de aplicativo, como de transporte particular ou entrega, mas tamb\u00e9m com influenciadores digitais e outros trabalhadores por demanda que n\u00e3o possuem dias de folga, f\u00e9rias, ou sal\u00e1rio m\u00ednimo, nem possuem os direitos de um empres\u00e1rio independente, mas geram lucro aos donos de grandes corpora\u00e7\u00f5es, donas das plataformas atrav\u00e9s das quais esses chamados \u201cmicroempreendedores individuais\u201d realizam seu of\u00edcio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0J\u00e1 a <strong>plataformiza\u00e7\u00e3o<\/strong> (Ab\u00edlio<em> et al<\/em>, 2021) \u00e9 a difus\u00e3o das plataformas digitais como ferramentas de trabalho \u2013 ou de intermedia\u00e7\u00e3o do trabalho &#8211; nos diferentes setores da economia, como as redes sociais na comunica\u00e7\u00e3o e propaganda, ou os aplicativos de entrega no setor aliment\u00edcio ou compras online, ou mesmo no transporte, com plataformas para pedir pelo servi\u00e7o de motoristas ou mesmo alug\u00e1-los. De todo modo, hoje quase tudo o que se vai fazer requer um aplicativo, uma plataforma digital a ser instalada, um cadastro a ser feito, e essa informatiza\u00e7\u00e3o dos processos, \u00e9 a plataformiza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0A <strong>gest\u00e3o algor\u00edtmica<\/strong> por sua vez \u00e9 abordada por Grohmann em 2019 e \u00e9 definida como o conjunto de pr\u00e1ticas de supervis\u00e3o, governan\u00e7a e controle exercidas remotamente por algoritmos sobre os trabalhadores, reduzindo custos de gerencia- mento e retirando a necessidade da presen\u00e7a do trabalhador ou mesmo de contratos formais. Esse fen\u00f4meno \u00e9 tornado real atrav\u00e9s de sistemas de puni\u00e7\u00e3o e recompensa financeiras, metas estabelecidas pelo algoritmo da plataforma e normas autom\u00e1ticas, que n\u00e3o precisam ser explicadas, elas continuam existindo mesmo se todos os entregadores pararem de segui-las, pois s\u00e3o nativas das plataformas, podendo ser mudadas apenas com press\u00e3o coletiva organizada ou normas regulat\u00f3rias, mas n\u00e3o com mobiliza\u00e7\u00e3o simples ou processos trabalhistas, como normas internas de um escrit\u00f3rio, por exemplo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0Esses conceitos acabam por trazer a l\u00f3gica do <strong><em>just-in-time<\/em><\/strong> do setor secund\u00e1rio (ind\u00fastria e manufatura) para o setor terci\u00e1rio da economia (com\u00e9rcio e servi\u00e7os), aumentando a velocidade dos servi\u00e7os mas sem aumentar a rentabilidade do trabalho para quem o realiza, reduzindo custos e aumentando lucros de acionistas, que enriquecem atrav\u00e9s do trabalho de pessoas n\u00e3o registradas e que, portanto, n\u00e3o possuem v\u00ednculo legal com eles, reduzindo seu poder de a\u00e7\u00e3o contra esses empres\u00e1rios. Tal configura\u00e7\u00e3o tende a fortalecer as desigualdades, se tornando uma forma de \u2018fuga\u2019 da carteira de trabalho, deixando de garantir os direitos b\u00e1sicos ao empregado, ao mesmo tempo que refor\u00e7a valores individualistas do neoliberalismo e tendo sua dissemina\u00e7\u00e3o facilitada pelo hist\u00f3rico do trabalho informal, o \u2018bico\u2019, no Brasil, que passa a ser chamado de \u2018empreendedorismo individual\u2019, no qual n\u00e3o se \u00e9 um trabalhador precarizado, mas um \u2018empres\u00e1rio de si mesmo\u2019, enquanto trabalha tanto quanto ou mais que um trabalhador registrado para ter uma renda mensal um pouco maior, mas com muito menos prote\u00e7\u00e3o pelas leis.<\/span><\/p>\n<h2><span style=\"color: #000000;\"><strong>2. O mito do \u201cempreendedor de si mesmo\u201d<\/strong><\/span><\/h2>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0Ao falar em empreendedorismo individual, devemos pensar no discurso neoliberal que visa reduzir horas improdutivas e fragmentar a rotina do trabalhador, o colocando a servi\u00e7o permanente da empresa sem precisar garantir os instrumentos ou qualquer forma de seguridade a algu\u00e9m que faz as vezes de um empregado. Para Ab\u00edlio<em> et al.<\/em> (2021) o mito do empreendedor de si mesmo seria uma forma de mascarar um \u201ctrabalhador <em>just-in-time<\/em> no setor terci\u00e1rio\u201d, sempre dispon\u00edvel para o patr\u00e3o, mas que s\u00f3 recebe pelo tempo que passa sendo produtivo, mas sem descanso real, sem se desligar totalmente de sua fun\u00e7\u00e3o laboral em momento algum.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-4904 aligncenter\" src=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img2.png\" alt=\"\" width=\"615\" height=\"505\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img2.png 879w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img2-300x246.png 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img2-768x631.png 768w\" sizes=\"(max-width: 615px) 100vw, 615px\" \/><\/span><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Por Stefanie Moreira, no Sotero Prosa. Acesso em 04 \/ 05 \/ 2026 <\/strong><strong>&lt;<u><a style=\"color: #000000;\" href=\"https:\/\/www.soteroprosa.com\/single-post\/empreendedor-de-si-mesmo-ou-empregado-precarizado\">https:\/\/www.soteroprosa.com\/single-post\/empreendedor-de-si-mesmo-ou-empregado-precarizado<\/a><\/u>&gt; <\/strong><\/span><\/h5>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0Segundo esse ponto de vista, o trabalho uberizado e plataformizado se torna uma alternativa tecnol\u00f3gica e \u201clivre\u201d ao trabalho tradicional, prometendo uma melhor qualidade de vida para uma popula\u00e7\u00e3o que sofre apesar das leis trabalhistas fortes do Brasil, mas lhes gerando condi\u00e7\u00f5es cada vez mais prec\u00e1rias, conforme a necessidade de ampliar o lucro dos acionistas aumenta. Isso tende a minar a independ\u00eancia dos trabalhadores, os atomiza, individualiza como concorrentes uns contra os outros em busca de uma entrega mais valiosa, de um b\u00f4nus tempor\u00e1rio, dificultando a organiza\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo que amplia as desigualdades j\u00e1 alarmantes existentes no nosso pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0No artigo de Duarte e Guerra, as autoras estabelecem os termos de \u201cmicroempreendedor\u201d e \u201cmotorista parceiro\u201d como estrat\u00e9gias ret\u00f3ricas comuns para disfar\u00e7ar a posi\u00e7\u00e3o do trabalhador como um funcion\u00e1rio. Apesar desse discurso muitas vezes n\u00e3o funcionar por si s\u00f3 para convencer seus usu\u00e1rios, sua combina\u00e7\u00e3o com um sistema \u201cgameficado\u201d de recompensa, mapas de calor e puni\u00e7\u00f5es sist\u00eamicas geram um \u201ccontrole suave\u201d sobre os prestadores de servi\u00e7o, que se v\u00eaem num estado de \u201cbeta-perp\u00e9tuo\u201d, em que suas vontades s\u00e3o secund\u00e1rias e sua l\u00f3gica de trabalho pode ser alterada com uma pequena mudan\u00e7a no algoritmo feita pela companhia dona do aplicativo usado para trabalhar.<\/span><\/p>\n<h2><span style=\"color: #000000;\"><strong>3. A gest\u00e3o algor\u00edtmica: o chefe invis\u00edvel<\/strong><\/span><\/h2>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>\u00a0 \u00a0 <\/strong>Uma nova forma de gest\u00e3o capaz de fazer o trabalhador cobrar a si mesmo, aumentando sua produtividade, reduzindo custos de contrata\u00e7\u00e3o e retirando a necessidade de gestores menores? Parece perfeito para um sistema que busca lucro apesar dos danos \u00e0 dignidade humana. Essa \u00e9 a gest\u00e3o algor\u00edtmica, que, atrav\u00e9s de ideias neoliberais de \u2018menos direitos trabalhistas reduzem o desemprego\u2019, justificam essa forma de trabalho sem registro e sem direitos delimitados, tratando o trabalhador como funcion\u00e1rio ou como empreendedor aut\u00f4nomo quando conv\u00e9m \u00e0 corpora\u00e7\u00e3o. Junior e Macedo (2024) argumentam que o algoritmo \u2018protege\u2019 a empresa das responsabilidades de garantia de direitos trabalhistas a partir de uma falsa vantagem de um pagamento mensal maior, mas sem garantir seguro do ve\u00edculo usado, horas extras, f\u00e9rias, dias de descanso semanal etc.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0Nesse sentido, Duarte e Guerra (2019) discorrem sobre como o algoritmo se torna um chefe invis\u00edvel, colocando um valor emocional na avalia\u00e7\u00e3o do seu trabalho atrav\u00e9s dos usu\u00e1rios, que avaliam em notas de 0 a 10 ou de 1 a 5 estrelas, atribuindo peso a cada servi\u00e7o prestado, aumentando a carga mental do trabalho. Al\u00e9m disso, os mecanismos espec\u00edficos, como a pr\u00f3pria avalia\u00e7\u00e3o de usu\u00e1rio por trabalhador, pre\u00e7o din\u00e2mico de acordo com condi\u00e7\u00f5es do ambiente, taxas de aceita\u00e7\u00e3o e cancelamento de pedidos e metas para obten\u00e7\u00e3o de b\u00f4nus de pagamento menores do que o valor de horas extras, todos eles contribuem para a ilus\u00e3o da liberdade do trabalhador, de fazer a pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o, o pr\u00f3prio hor\u00e1rio. Ainda assim, atrav\u00e9s dos pre\u00e7os din\u00e2micos, por exemplo, o algoritmo faz com que a maioria dos trabalhadores esteja ativa em dado hor\u00e1rio de pico, ou os incentiva a trabalhar em momentos impr\u00f3prios, como entregadores e motoristas de aplicativo que recebem mais por trabalhar sob fortes chuvas, ventos ou sol, ou mesmo em hor\u00e1rios perigosos como durante a madrugada em regi\u00f5es de pouca ou nenhuma circula\u00e7\u00e3o de pessoas. Esse controle suave \u00e9 a face real do chefe invis\u00edvel, uma &#8220;regra natural&#8221; gerada artificialmente para gerir o trabalho sem intermedi\u00e1rios humanos.<\/span><\/p>\n<h2><span style=\"color: #000000;\"><strong>4. O cen\u00e1rio brasileiro e a justi\u00e7a do trabalho<\/strong><\/span><\/h2>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0O avan\u00e7o da plataformiza\u00e7\u00e3o no Brasil ocorre em um terreno f\u00e9rtil de desigualdades estruturais. Diferente do Norte Global, onde a <em>gig economy<\/em> muitas vezes surge como uma mudan\u00e7a no padr\u00e3o de emprego est\u00e1vel, no Brasil o &#8220;bico&#8221;, a &#8220;vira\u00e7\u00e3o&#8221; e o trabalho informal sempre foram a norma para a gest\u00e3o da sobreviv\u00eancia da classe trabalhadora. Nesse contexto, segundo AB\u00cdLIO, L. C.; AMORIM, H; GROHMANN, R (2021): \u201cas plataformas materializam, portanto, a possibilidade de uma apropria\u00e7\u00e3o monopolizada e racionalizada de modos de vida perif\u00e9ricos, ao mesmo tempo em que d\u00e3o ind\u00edcios de que os elementos que estruturam esses modos de vida s\u00e3o pass\u00edveis de se generalizar nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho\u201d.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\">4.1 <strong>A pandemia como catalisador da precariza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0A crise da COVID-19 foi o divisor de \u00e1guas que potencializou esse cen\u00e1rio no pa\u00eds. Nesse cen\u00e1rio, a redu\u00e7\u00e3o de postos de trabalho formal e a queda de sal\u00e1rios empurraram milhares de brasileiros para as plataformas como estrat\u00e9gia de subsist\u00eancia. Dados do IBGE indicam que, no final de 2022, o Brasil j\u00e1 contava com cerca de 1,5 milh\u00e3o de pessoas trabalhando por meio de aplicativos de servi\u00e7os (ver gr\u00e1fico X). Para muitos desses trabalhadores, a plataforma se apresenta como a &#8220;\u00fanica alternativa poss\u00edvel&#8221; em um horizonte de desemprego estrutural pand\u00eamico.<\/span><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Gr\u00e1fico 1:<\/strong> N\u00famero de motoristas cadastrados na Uber por ano<\/span><\/h5>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4905 aligncenter\" src=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img3.png\" alt=\"\" width=\"447\" height=\"444\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img3.png 447w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img3-300x298.png 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img3-150x150.png 150w\" sizes=\"(max-width: 447px) 100vw, 447px\" \/><\/span><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Fonte<\/strong>: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria com base em dados do IBGE<\/span><\/h5>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>4.2 O debate sobre o v\u00ednculo empregat\u00edcio no TST<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0Atualmente, a justi\u00e7a brasileira vive um intenso embate sobre o reconhecimento da rela\u00e7\u00e3o de emprego (baseada nos requisitos de pessoalidade, habitualidade, onerosidade e subordina\u00e7\u00e3o) entre motoristas e entregadores e as empresas, como a Uber e o iFood. Diante disso, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) apresenta diverg\u00eancias significativas entre suas turmas (ver imagem Y):<\/span><\/p>\n<ul>\n<li><span style=\"color: #000000;\">Turmas como a 4\u00aa e a 5\u00aa tendem a negar o v\u00ednculo, argumentando que a possibilidade de o trabalhador ficar <em>offline<\/em> e a flexibilidade de hor\u00e1rios indicam uma autonomia incompat\u00edvel com a subordina\u00e7\u00e3o jur\u00eddica cl\u00e1ssica. O argumento \u00e9 que o trabalhador atua como um &#8220;parceiro&#8221; que assume os riscos do neg\u00f3cio.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #000000;\">Por outro lado, turmas como a 2\u00aa e a 8\u00aa t\u00eam proferido decis\u00f5es hist\u00f3ricas de reconhecimento. O argumento central \u00e9 que a Uber n\u00e3o vende apenas tecnologia, mas servi\u00e7o de transporte, e exerce um controle neo-fordista por meio de algoritmos (SALES JUNIOR, J. V.; MACEDO, A. G. M).<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Imagem<\/strong>: diverg\u00eancias entre as turmas do TST (Tribunal Superior do Trabalho)<\/span><\/h5>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4906 aligncenter\" src=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img-4.png\" alt=\"\" width=\"693\" height=\"381\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img-4.png 693w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img-4-300x165.png 300w\" sizes=\"(max-width: 693px) 100vw, 693px\" \/><\/span><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Fonte:<\/strong> elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria com base em Jose Viana de Sales Junior (2024)<\/span><\/h5>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>4.3 A monopoliza\u00e7\u00e3o do controle: subordina\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica e ramifica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0A grande mudan\u00e7a trazida pelas plataformas \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o do gerente humano por instru\u00e7\u00f5es automatizadas, o que chamamos de subordina\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica. Nesse modelo, o controle \u00e9 exercido de forma remota e constante, redesenhando as rela\u00e7\u00f5es de trabalho atrav\u00e9s de dois pilares:<\/span><\/p>\n<ul>\n<li><span style=\"color: #000000;\">Gest\u00e3o por dados: o algoritmo processa volumes imensos de informa\u00e7\u00f5es para decidir, de forma opaca, a distribui\u00e7\u00e3o de tarefas e os ganhos. O trabalhador vive sob um &#8220;despotismo algor\u00edtmico&#8221;, sem transpar\u00eancia sobre as regras que regem sua pontua\u00e7\u00e3o ou poss\u00edveis bloqueios (demiss\u00f5es autom\u00e1ticas) (AB\u00cdLIO, L. C.; AMORIM, H; GROHMANN, R.)<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #000000;\">Gamifica\u00e7\u00e3o (Soft Control): para induzir produtividade sem dar ordens diretas, as plataformas usam elementos de jogos, como estrelas, rankings e notifica\u00e7\u00f5es. Mecanismos como o pre\u00e7o din\u00e2mico funcionam como iscas que direcionam o trabalhador no mapa, modulando seu comportamento de forma sedutora, mas coercitiva (GROHMANN, R)<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0Essa estrutura cria um autogerenciamento subordinado, em que trabalhador acredita ser um &#8220;empreendedor de si mesmo&#8221; pela flexibilidade de hor\u00e1rios, mas, na pr\u00e1tica, est\u00e1 submetido a um controle t\u00e9cnico e econ\u00f4mico muito mais r\u00edgido e invis\u00edvel do que no modelo tradicional.<\/span><\/p>\n<h2><span style=\"color: #000000;\"><strong>5. Desigualdades e assimetrias do trabalho<\/strong><\/span><\/h2>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0A plataformiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o atinge a todos da mesma forma. Ela opera sobre uma divis\u00e3o internacional do trabalho digital, em que, enquanto a demanda e o capital est\u00e3o concentrados em grandes centros, a oferta de trabalho \u00e9 dispersa geograficamente, permitindo que empresas operem de forma ilimitada enquanto os trabalhadores permanecem presos aos seus territ\u00f3rios e \u00e0s suas car\u00eancias locais.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>5.1 Marcadores de g\u00eanero, ra\u00e7a e territ\u00f3rio<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0A explora\u00e7\u00e3o trabalhista n\u00e3o \u00e9 igual para todos. O trabalho mediado por plataformas \u00e9 atravessado por clivagens sociais profundas, no que tange ao g\u00eanero, \u00e0 ra\u00e7a e ao territ\u00f3rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0A plataformiza\u00e7\u00e3o do trabalho n\u00e3o \u00e9 um processo neutro, pois reproduz desigualdades hist\u00f3ricas atrav\u00e9s da feminiza\u00e7\u00e3o de setores espec\u00edficos, como ocorre em aplicativos de trabalho dom\u00e9stico e de cuidados (ex: TaskRabbit e Care.com), que apresentam uma composi\u00e7\u00e3o majoritariamente feminina (GROHMANN, R, 2020). Esses marcadores de g\u00eanero influenciam as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e os perfis dos trabalhadores, resultando em formas distintas de apropria\u00e7\u00e3o de valor pelas empresas. Al\u00e9m disso, a gest\u00e3o algor\u00edtmica pode automatizar o preconceito atrav\u00e9s de vieses de g\u00eanero inscritos em sistemas de contrata\u00e7\u00e3o e sele\u00e7\u00e3o, que operam de forma opaca nos bastidores da tecnologia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0Ademais, o marcador racial \u00e9 um componente cr\u00edtico, pois o &#8220;desencaixapretamento&#8221; das l\u00f3gicas tecnol\u00f3gicas revela que os algoritmos possuem vieses capazes de automatizar e aprofundar desigualdades raciais (GROHMANN, R, 2020). Esses sistemas de gerenciamento e sele\u00e7\u00e3o de trabalhadores podem carregar preconceitos estruturais que impactam diretamente quem \u00e9 contratado ou priorizado pelas plataformas. Assim, a explora\u00e7\u00e3o no trabalho digital \u00e9 atravessada por uma interseccionalidade onde a ra\u00e7a define tanto o n\u00edvel de vulnerabilidade quanto a intensidade da submiss\u00e3o ao controle algor\u00edtmico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0Por fim, a geografia do trabalho de plataforma estabelece uma oferta de trabalho dispersa frente a uma demanda de capital concentrada, permitindo que empresas operem de forma ilimitada enquanto os trabalhadores permanecem presos \u00e0s car\u00eancias de onde vivem (ver imagem z). No Brasil, a plataformiza\u00e7\u00e3o captura o modo de vida perif\u00e9rico \u2014 historicamente marcado pela &#8220;vira\u00e7\u00e3o&#8221; e pelo trabalho informal \u2014 e o converte em um autogerenciamento subordinado racionalizado por corpora\u00e7\u00f5es globais. Esse cen\u00e1rio aprofunda o &#8220;privil\u00e9gio da servid\u00e3o&#8221; no Sul Global, onde a tecnologia \u00e9 vendida como &#8220;trabalho do futuro&#8221;, mas, na pr\u00e1tica, utiliza a precariedade territorial para reduzir os custos de produ\u00e7\u00e3o ao patamar zero (GROHMANN, R, 2020).<\/span><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Imagem:<\/strong>\u00a0Diagrama de pir\u00e2mide sobre a estrutura das plataformas<\/span><\/h5>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4907 aligncenter\" src=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img5.png\" alt=\"\" width=\"536\" height=\"404\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img5.png 536w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img5-300x226.png 300w\" sizes=\"(max-width: 536px) 100vw, 536px\" \/><\/span><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Fonte:<\/strong> elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria com base em AB\u00cdLIO, L. C.; AMORIM, H; GROHMANN, R, 2021<\/span><\/h5>\n<h2><span style=\"color: #000000;\"><strong>6. Alternativas de resist\u00eancia e caminhos para a transforma\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/h2>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>6.1 A luta pela regula\u00e7\u00e3o e direitos m\u00ednimos<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0A regula\u00e7\u00e3o \u00e9 vista como uma ferramenta para impedir que a tecnologia seja usada para a sonega\u00e7\u00e3o de direitos trabalhistas. No Brasil, o debate central recai sobre a necessidade de uma legisla\u00e7\u00e3o que acompanhe a evolu\u00e7\u00e3o do trabalho sem permitir a transgress\u00e3o de direitos b\u00e1sicos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0Propostas como o Projeto de Lei 3748\/20 buscam institucionalizar prote\u00e7\u00f5es, embora autores alertem para o risco de certas regula\u00e7\u00f5es (como o &#8220;trabalho sob demanda&#8221;) acabarem legitimando a precariedade. Al\u00e9m disso, \u00e9 urgente que o uso de algoritmos seja transparente e que os trabalhadores tenham o direito de serem ouvidos e participarem da gest\u00e3o das regras que ditam seu trabalho.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>6.2 A import\u00e2ncia da organiza\u00e7\u00e3o coletiva<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0 \u00a0A resist\u00eancia contra a plataformiza\u00e7\u00e3o e uberiza\u00e7\u00e3o tem se manifestado tanto em formatos tradicionais (sindicatos) quanto em redes horizontais e globais. O movimento #BrequeDosApps \u00e9 um exemplo de como motoristas e entregadores utilizam a pr\u00f3pria tecnologia para suspender o fluxo da gest\u00e3o algor\u00edtmica e tornar vis\u00edveis as condi\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o. Ademais, surgem sindicatos inovadores, como o <em>Game Workers Unite<\/em> e o <em>Turker Nation<\/em>, que se colocam contra a vigil\u00e2ncia excessiva e lutam por melhores condi\u00e7\u00f5es em nichos espec\u00edficos como o microtrabalho e a ind\u00fastria de games.<\/span><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Imagem<\/strong>: manifesta\u00e7\u00e3o Breque dos Apps em BH<\/span><\/h5>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4908 aligncenter\" src=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img6.png\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img6.png 1024w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img6-300x169.png 300w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img6-768x432.png 768w, https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/img6-800x450.png 800w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/span><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Cr\u00e9dito<\/strong>: Amanda Serrano\/BHAZ<\/span><\/h5>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">AB\u00cdLIO, L. C.; AMORIM, H; GROHMANN, R. Uberiza\u00e7\u00e3o e plataformiza\u00e7\u00e3o do trabalho no Brasil: conceitos, processos e formas. Sociologias (UFRGS). Porto Alegre\/RS, n. 23, 2021.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">DUARTE, F. C. P.; GUERRA, A. Plataformiza\u00e7\u00e3o e trabalho algor\u00edtmico: contribui\u00e7\u00f5es dos Estudos de Plataforma para o fen\u00f4meno da uberiza\u00e7\u00e3o. Revista Eptic, v. 22, n. 2, 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">GROHMANN, R. Plataformiza\u00e7\u00e3o do trabalho: entre a datafica\u00e7\u00e3o, a financeiriza\u00e7\u00e3o e a racionalidade neoliberal. Revista Eptic, v. 22, n. 1, 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">SALES JUNIOR, J. V.; MACEDO, A. G. M. Plataformiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho no Brasil: uberiza\u00e7\u00e3o, precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e a constitui\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo de emprego. UNI-RN, 2024.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ilus\u00e3o da autonomia: plataformiza\u00e7\u00e3o, uberiza\u00e7\u00e3o e a nova face da desigualdade trabalhista no Brasil Autoria: Felipe Longo e Rafaela Bovareto Supervis\u00e3o, orienta\u00e7\u00e3o e corre\u00e7\u00e3o: Bruno Lazzarotti Foto: Jaqueline Deister Introdu\u00e7\u00e3o \u00a0 \u00a0Voc\u00ea sabe o que \u00e9 a uberiza\u00e7\u00e3o do trabalho? E a plataformiza\u00e7\u00e3o dele? E o que seria o trabalho algor\u00edtmico? 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