{"id":727,"date":"2019-10-16T13:52:21","date_gmt":"2019-10-16T13:52:21","guid":{"rendered":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=727"},"modified":"2019-11-18T16:17:27","modified_gmt":"2019-11-18T16:17:27","slug":"as-desigualdades-educacionais-no-brasil-enfrentando-as-a-partir-da-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br\/?p=727","title":{"rendered":"As desigualdades educacionais no Brasil: enfrentando-as a partir da escola"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pilar Lacerda*<\/em><\/strong><\/p>\n<p>No ano 2000, eu lecionava Hist\u00f3ria em uma escola de jovens e adultos da rede municipal de BH. Nas turmas da manh\u00e3 e tarde, havia um n\u00famero consider\u00e1vel de alunos e alunas que eram adolescentes, tinham sido \u201cexpulsos\u201d das escolas regulares e foram estudar ali. O projeto pedag\u00f3gico da escola era inovador e o grupo de professores engajados no projeto. Os casos e as hist\u00f3rias eram exemplos vivos de como os mais pobres, os mais indefesos e desorganizados s\u00e3o \u201cexpulsos\u201d das escolas regulares. Ou sofrem m\u00faltiplas reprova\u00e7\u00f5es, ou desistem, ou n\u00e3o se acham capazes de estudar. Quando come\u00e7amos a ter um olhar pedag\u00f3gico baseado na concep\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o integral, colocando os alunos no centro do nosso trabalho, exercitando a escuta e o di\u00e1logo permanente, fomos aprendendo (porque estamos sempre em forma\u00e7\u00e3o) que a desigualdade tamb\u00e9m pode ser combatida a partir da escola e do seu projeto pol\u00edtico pedag\u00f3gico. Ao entender as dificuldades com os hor\u00e1rios da escola, incompat\u00edveis com o trabalho de porteiro de hospital de um dos nossos alunos, come\u00e7amos a flexibilizar as regras de entrada e sa\u00edda. Ao perceber a dificuldade de jovens trabalhadores em realizar tarefas escolares de um dia para o outro, fomos definindo uma agenda compat\u00edvel com a agenda deles (e n\u00e3o com a dos educadores, como tradicionalmente faz\u00edamos).<\/p>\n<p>Um aluno de 16 anos, morador de uma comunidade pobre e violenta, era arredio e agressivo. Um dia, uma professora perdeu a paci\u00eancia com ele e o chamou de \u201cfeio\u201d (ele tinha as orelhas muito deformadas). Ele se revoltou, amea\u00e7ou matar a professora, crise armada. Conselho Tutelar, m\u00e3e, reuni\u00e3o do conselho de classe. Eu fui a uma das sess\u00f5es com a psic\u00f3loga do Minist\u00e9rio P\u00fablico da Inf\u00e2ncia e Juventude. Enquanto este jovem era entrevistado, eu fiquei em um banco com a m\u00e3e, esperando nossas entrevistas. Ali, naqueles 30 minutos, eu aprendi tanto sobre este jovem, sobre as condi\u00e7\u00f5es de vida duras e violentas em que ele cresceu, da pobreza de morar em uma casa onde ratos entravam a noite e mordiam as orelhas das crian\u00e7as (!!!), da luta deste jovem para proteger sua irm\u00e3 do ass\u00e9dio do pai, da falta de comida, de cama para dormir&#8230; Ali estava um estudante v\u00edtima de uma sociedade que \u201cnaturalizou\u201d a pobreza, o racismo, a exclus\u00e3o. Naquele momento, pude entender que n\u00f3s educadores, n\u00e3o vamos conseguir distribuir renda, garantir moradia digna, prender pais abusadores&#8230; mas podemos sim, atrav\u00e9s da nossa pr\u00e1tica, guiada pelo projeto pedag\u00f3gico da escola, garantir que, ao conhecer cada estudante, com sua hist\u00f3ria \u00fanica, tenhamos projetos personalizados para cada um, para que cada estudante se sinta seguro, estimulado, reconhecido, acolhido. Que ele n\u00e3o se sinta um estrangeiro ali, mas uma parte daquela comunidade escolar.<\/p>\n<p>Segundo Gabriela Thomazinho**, ao pensarmos em desigualdade educacional, n\u00e3o podemos analisar a partir de um simples fator, pois existem diferentes desigualdades quando pensamos em educa\u00e7\u00e3o escolar. E cada tipo de desigualdade impacta diferentemente na desigualdade escolar, e, em um pa\u00eds como o Brasil, marcado por uma arraigada e indecente desigualdade social e econ\u00f4mica, os impactos ser\u00e3o quase sempre sobre os mais pobres, negros e perif\u00e9ricos.<\/p>\n<p>Existe a desigualdade de n\u00e3o ter acesso ao sistema escolar, existe a exclus\u00e3o dentro do pr\u00f3prio sistema, existem acessos a padr\u00f5es diferentes de qualidade educacional e existe a desigualdade de tratamento \u2013 quando estudantes t\u00eam acesso a condi\u00e7\u00f5es muito desiguais da oferta educacional, que deveriam ser, no m\u00ednimo, igual para todos. E o pior, e consequ\u00eancia dos fatores acima: a desigualdade de conhecimentos adquiridos.<\/p>\n<p>Algumas pol\u00edticas, como o Fundeb e o Piso Nacional Salarial de Professores, foram importantes para tentar diminuir a desigualdade e a iniquidade. Mas estas persistem e voltam a piorar, porque a desigualdade econ\u00f4mica e social tem aumentado e estamos regredindo aos n\u00edveis do final do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>O quadro \u00e9 agravado quando nos damos conta de que, frequentemente, os recursos educacionais t\u00eam uma distribui\u00e7\u00e3o regressiva, ou seja, beneficiam mais quem j\u00e1 est\u00e1 em melhores condi\u00e7\u00f5es. Por exemplo, ao analisar os indicadores de infraestrutura escolar, percebe-se que a maior parte das escolas com infraestrutura boa ou \u00f3tima atende as parcelas mais ricas da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante deste cen\u00e1rio, fica claro que a desigualdade educacional deve ser considerada quando se pensam e formulam as pol\u00edticas p\u00fablicas. \u00c9 preciso inten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e educativa de que \u00e9 necess\u00e1rio reduzir as desigualdades para garantir mais qualidade. Em um pa\u00eds como o Brasil, a busca da efici\u00eancia e do desempenho educacional s\u00f3 faz sentido se incorpora e expressa tamb\u00e9m a busca por justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>O Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o tem algumas metas e estrat\u00e9gias que pensam na redu\u00e7\u00e3o das desigualdades, como a estrat\u00e9gia 7.9, que busca reduzir a diferen\u00e7a nas avalia\u00e7\u00f5es de larga escala, e a estrat\u00e9gia 7.18, que define uma s\u00e9rie de itens de infraestrutura que devem estar presentes em todas as escolas at\u00e9 o final da vig\u00eancia do plano.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o sobre os meios de reduzir a desigualdade educacional deve orientar e ser central nos debates e elabora\u00e7\u00f5es de pol\u00edticas. Se na dimens\u00e3o do acesso ela \u00e9 mais objetiva, via amplia\u00e7\u00e3o do sistema p\u00fablico escolar, no \u00e2mbito da desigualdade de conhecimento ela \u00e9 mais complexa, pois passa pela defini\u00e7\u00e3o de quais conhecimentos devem ser adquiridos por todos os alunos brasileiros.<\/p>\n<p>A partir das considera\u00e7\u00f5es do texto da Gabriela Thomazinho, podemos pensar em a\u00e7\u00f5es efetivas, tanto a partir do governo, da sociedade civil ou das escolas, que sejam efetivas para diminuir a desigualdade educacional.<\/p>\n<p>No n\u00edvel macro, precisamos estar organizados para reivindicar uma escola que tenha uma boa biblioteca, uma quadra, salas ambientes, p\u00e1tios acolhedores. Banheiros limpos, comida boa, aulas todos os dias; professores com forma\u00e7\u00e3o adequada e remunera\u00e7\u00e3o compat\u00edvel com a import\u00e2ncia da fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isto temos que rever o projeto da escola, identificar quais pr\u00e1ticas s\u00e3o excludentes e\/ou elitistas, ensinar reconhecendo as diferen\u00e7as, evitar a reprova\u00e7\u00e3o sem uma an\u00e1lise da trajet\u00f3ria do aluno e fazermos da reflex\u00e3o sobre a nossa pr\u00e1tica o espa\u00e7o onde problemas podem ser resolvidos, atitudes reconsideradas, sem colocarmos nosso trabalho em um piloto autom\u00e1tico. Ou seja, sem nos desumanizarmos.<\/p>\n<p>A escola \u00e9 o espa\u00e7o do aprender, do criar, do querer ir mais longe. E isso n\u00e3o depende apenas dos estudantes, mas de todo posicionamento profissional que teremos, de engajamento ou n\u00e3o, de naturaliza\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando formos avaliar as cotas e outras pol\u00edticas afirmativas, temos que levar em conta o papel inclusivo e democr\u00e1tico dessas pol\u00edticas na redu\u00e7\u00e3o das desigualdades.<\/p>\n<p>N\u00f3s, educadores, n\u00e3o fazemos milagres dentro da escola. Por\u00e9m, somos profissionais de um equipamento p\u00fablico que garante direitos e, articulado com outros setores, com o territ\u00f3rio e a comunidade, tem um papel estrat\u00e9gico para enfrentar a injusti\u00e7a e a desigualdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>*Maria do Pilar Lacerda Almeida e Silva\u00a0graduou-se em Hist\u00f3ria, em 1979 (UFMG). Em 2001, especializou-se em Gest\u00e3o de Sistemas Educacionais, na PUC-Minas, foi professora de hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, de 1976 a 2001. Foi diretora do Centro de Forma\u00e7\u00e3o dos Profissionais da Educa\u00e7\u00e3o da Prefeitura de Belo Horizonte, de 1993 a 1996. Foi secret\u00e1ria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o da Prefeitura de Belo Horizonte, de 2002 a 2007. Elegeu-se presidente nacional da Uni\u00e3o nacional dos dirigentes municipais de educa\u00e7\u00e3o (Undime), de 2005 a 2007, onde liderou o movimento nacional em defesa de recursos do Fundeb para a Educa\u00e7\u00e3o Infantil. Foi Secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o de 2007 a 2012. Atualmente \u00e9 diretora da Funda\u00e7\u00e3o SM Brasil.<\/em><\/p>\n<p><em>** O artigo \u201c<strong>Desigualdade na educa\u00e7\u00e3o: um ponto a ser considerado nas pol\u00edticas p\u00fablicas<\/strong>\u201d, de Gabriela Thomazinho, publicado em 30 de janeiro de 2017, encontra-se dispon\u00edvel em: <\/em><a href=\"http:\/\/econoeduc.com.br\/2017\/01\/desigualdade-na-educacao-um-ponto-a-ser-considerado-nas-politicas-publicas\/\"><em>http:\/\/econoeduc.com.br\/2017\/01\/desigualdade-na-educacao-um-ponto-a-ser-considerado-nas-politicas-publicas\/<\/em><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pilar Lacerda* No ano 2000, eu lecionava Hist\u00f3ria em uma escola de jovens e adultos da rede municipal de BH. Nas turmas da manh\u00e3 e tarde, havia um n\u00famero consider\u00e1vel de alunos e alunas que eram adolescentes, tinham sido \u201cexpulsos\u201d das escolas regulares e foram estudar ali. 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