Será que a letalidade do novo coronavírus varia de acordo com as condições socioeconômicas dos afetados?

O Núcleo de Operações em Inteligência e Saúde (NOIS)[1] vem publicando estudos sobre o avanço da COVID-19 no Brasil. A nota técnica publicada pelo grupo no dia 27 de maio foi sobre a variação na letalidade da doença segundo grupos socioeconômicos observados. Esse debate nos interessa especialmente porque escancara muitas desigualdades que pretendemos denunciar. Por isso, o post de hoje apresenta alguns pontos desta Nota Técnica.[2]

Antes, vamos explicar a base de dados utilizadas pelo NOIS neste estudo. Um dos sintomas que mais frequentemente leva ao óbito nos casos de COVID 19 é a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Como o intuito foi analisar as taxas de letalidade, o grupo estudado foi aquele acometido pela SRAG cujas pessoas, concomitantemente, testaram positivo para a COVID 19. Os dados são disponibilizados pelo Ministério da Saúde, e o estudo utilizou informações disponíveis até o dia 18/05/2020.Dentro deste grupo, analisou-sea letalidade nos subgrupos de raça/cor, idade e escolaridade.[3]Em suma,o estudo verificou a letalidade nos casos mais graves da doença, considerando estes grupos. Vamos aos resultados.

Entre as pessoas analisadas na pesquisa, o percentual de pacientes negros que morreram é maior que o de brancos: 55% e 34%, respectivamente. Isso é consequência de desigualdades raciais e do racismo estrutural que temos denunciado em diversos contextos – agora, no acesso à saúde e à qualidade de vida.

Os gráficos que seguem mostram que a combinação de vulnerabilidades pode aumentar ainda mais o risco de morte em decorrência da COVID-19 – ou seja, é um importante indício de que devemos enfrentar e combater essas desigualdades com seriedade.

Com relação à faixa etária, muito nos é dito sobre o maior perigo do novo coronavírus para os mais velhos. Mas, se segmentarmos estes episódios por raça e idade ao mesmo tempo, vemos que em qualquer faixa etária a letalidade foi maior entre os negros, principalmente entre os 50 e 70 anos, o que confirma a desigualdade que o primeiro gráfico apontou. Ou seja, estimar a concentração de riscos considerando apenas a idade é insuficiente.

A educação é outro campo onde se observa profundas desigualdades. Sabe se que a escolaridade é maior entre os mais ricos e a renda pode restringir ou ampliar o acesso a serviços sanitários e de saúde. Essa desigualdade tem uma grave implicação nos resultados em relação à letalidade da COVID 19: quanto menor o nível de escolaridade, maior foi a letalidade. Entre as pessoas sem escolaridade com a manifestação grave da doença, 71% morreram. Entre as pessoas com curso superior também com a manifestação grave, 23% morreram.

É oportuno ressaltar que, considerados ao mesmo tempo a escolaridade e a raça, o estudo segue confirmando o racismo presente na nossa sociedade:  os negros morreram em maior proporção que os brancos, em todos os níveis de escolaridade. Isso indica que o acesso a alguns direitos, como à educação, não exclui as demais desigualdades. No estudo, constatou-se que as pessoas negras sem escolaridade morreram em proporções 4 vezes maiores do que as pessoas brancas graduadas. Em média, considerando todos os níveis educacionais, os negros morreram proporcionalmente 37% mais que os brancos. 

O estudo também apontou para desigualdades regionais expressivas – a taxa de letalidade foi de aproximadamente 33% nos municípios com melhores IDHM, mas naqueles com piores condições de vida esta taxa foi de quase 62%. 

O que estas informações nos mostram são as consequências materiais das diversas desigualdades presentes na nossa sociedade. Neste cenário de pandemia, as nossas mazelas ficam ainda mais evidentes – e o desdobramento mais palpável, que também é o mais cruel, a desigualdade no direito à vida, nos mostra a urgência em denunciar e em mobilizar esforços para encarar as profundas desigualdades que nos cerca.

Notas:

[1] Conheça o grupo e outras publicações: https://sites.google.com/view/nois-pucrio/home

[2] Disponível em:  https://drive.google.com/file/d/1tSU7mV4OPnLRFMMY47JIXZgzkklvkydO/view?usp=sharing

[3]Também foi analisado no estudo, mas não aprofundaremos neste texto, a letalidade em relação ao Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) dos municípios onde ocorreram os casos e o tipo de internação (se o paciente estava na enfermaria ou na UTI).

 

Autora: Mariana Parreiras Cândido [graduanda em Administração Pública na Fundação João Pinheiro], sob a orientação de Bruno Lazzarotti [pesquisador na Fundação João Pinheiro].

 

Texto baseado na Nota Técnica nº 11: “Análise socioeconômica da taxa de letalidade da COVID-19 no Brasil”, do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS). Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1tSU7mV4OPnLRFMMY47JIXZgzkklvkydO/view

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