No Brasil, pessoas trans estão em situação de vulnerabilidade devido a diversos fatores, inclusive à violência que enfrentam todos os dias. O preconceito e o estigma contra essa comunidade resulta na falta de apoio familiar e institucional, que se somam à discriminação aberta no mercado de trabalho informal e, mais ainda, no mercado formal. Muitas pessoas trans se vêem sem alternativas de encontrar uma forma de renda estável e segura, e uma parcela considerável acaba em situação de rua ou pobreza extrema. 

O estudo “Proteção Social e produção do cuidado a travestis e mulheres trans no município de Belo Horizonte”, feito pela pesquisadora Lindalva Guimarães, analisa a situação de pessoas trans em situação de rua na capital mineira. A partir de entrevistas, a pesquisa demonstra que, em todos os casos analisados, a violência de gênero foi  o que motivou as trans entrevistadas a sair de casa. Também foi constatado que a maioria sai de casa antes dos 18 anos de idade e passa a viver em casas de prostituição, sem obter oportunidades concretas para encontrar uma fonte de renda segura. Com poucas alternativas de emprego formal, seja por preconceito nos processos seletivos ou por baixa escolaridade e qualificação profissional, pessoas trans recorrem à marginalização e à precarização como forma de sobrevivência.

Barreiras para a permanência no emprego formal

Para uma pessoa trans, a trajetória profissional passa por dificuldades desde o momento em que buscam por educação. Seja na escola ou na faculdade – locais que essa comunidade luta para ocupar – pessoas trans se deparam com violência constante. Isso acontece por meio de agressões físicas e verbais explícitas, ou através de micro agressões que dificultam o dia a dia dessa comunidade, como é o exemplo do desrespeito do uso do banheiro adequado para essas pessoas ou o não uso do nome social escolhido pelo indivíduo. É importante ressaltar que, muitas vezes, o preconceito é proferido por pessoas próximas ao indivíduo ou por profissionais da educação, como familiares, colegas, diretores e professores.

Por conta dessas agressões, pessoas trans têm mais dificuldade de concluir os estudos de nível médio. Segundo a pesquisa realizada em 2022 pelo instituto TransVida, através do Grupo pela Vidda, com apoio do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, que entrevistou 147 pessoas transexuais, 49% dos entrevistados conseguiram concluir o ensino médio, mas menos da metade dos que alcançaram esse feito (21,1%, dentro dos que completaram o ensino médio e 10,34% do total) escolheu prosseguir com uma graduação. A porcentagem tão alta de indivíduos que não concluem o ensino médio é preocupante, visto que, atualmente, a conclusão do ensino médio se tornou majoritariamente um pré -requisito para contratação pelas empresas.

Quando falamos do Ensino Superior, que também depende que os indivíduos concluam o ensino médio, o cenário de violência não é diferente. Em entrevista para a Globo News, Maite Schneider, advogada e  cofundadora da plataforma TransEmpregos, relata a sua dificuldade para conseguir estágio: “Quando eu estava no quarto período (da faculdade de Direito), fui a vinte escritórios procurando estágio e nenhum me deu emprego. Eu tranco o curso achando que o problema estava comigo”. O relato de Maite não apenas evidencia as barreiras postas no caminho de ascensão de pessoas trans, mas também demonstra como a transfobia é um processo cruel e desumanizante, a ponto de fazer com que as vítimas se sintam responsáveis pelas consequências do preconceito que sofrem, se culpando por não terem alcançado algum objetivo individual, como se o problema estivesse no seu próprio mérito e não no preconceito estrutural da sociedade brasileira. 

As dificuldades enfrentadas para conseguir formação adequada afetam a qualificação profissional desses indivíduos. Com tantas dificuldades para conseguir vagas no curso superior e em cursos profissionalizantes, muitas pessoas trans não concluem os estudos nem buscam especialização. Um grande número de pessoas trans que sofrem preconceito não realizam denúncias e abandonam os estudos após episódios de violência. Com isso, elas começam a lutar por uma vaga no mercado de trabalho já em desvantagem.

Quando chega o momento em que entram no mercado de trabalho formal após já terem enfrentado inúmeras barreiras, indivíduos trans têm mais dificuldade de acesso e permanência em um emprego. A pesquisa do Instituto TransVida de 2022 revelou que, dentre os entrevistados, apenas 15% relataram ter um trabalho com carteira assinada, enquanto 15,6% têm trabalho autônomo formal e 27,2%, trabalho autônomo informal. Quando não conseguem acesso ao emprego formal, muitos dependem do trabalho informal ou da prostituição como forma de geração de renda. 

Os resultados encontrados pela Trans Vida são corroborados pelo mapeamento de pessoas trans no município de São Paulo, realizado pelo  Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec), o qual revelou que 58% dos entrevistados realiza alguma atividade remunerada, entretanto, em sua maioria, essas atividades são informais ou autônomas, temporárias ou sem contrato de trabalho. 

Outro levantamento, feito pela plataforma To.gather (a qual trabalha com dados para acelerar a diversidade nas empresas) analisou 300 empresas, acumulando 1,5 milhão de trabalhadores e apontou que a população LGBTQIA + ocupa apenas 4,5% dos postos de trabalho, sendo que as pessoas trans, são ainda menos representadas, ocupando cerca de 0,38% dos cargos.

  

Fonte: GloboNews

Mesmo após conseguirem a vaga, o indivíduo com frequência é a única pessoa trans nos seus respectivos locais de trabalho, onde suas necessidades são invisibilizadas e seus direitos não são respeitados. A pesquisa  realizada pelo projeto TransVida, aponta que mais da metade (52,7%) dos entrevistados afirma que é o único trabalhador transexual da empresa, e 25,9% dizem que há entre duas e dez pessoas trans entre os funcionários. 

Esse cenário tem como consequência o sentimento de falta de pertencimento. Quando alguém não se sente representado pelas pessoas do seu convívio o que resta é um sentimento de solidão e isolamento. Isso porque não existe ninguém como você, capaz de entender verdadeiramente suas necessidades. A sensação de explicar repetidamente sua identidade e os percalços que sofre a fim de que suas demandas sejam sanadas é, no mínimo, exaustiva. Nesses momentos, ter um aliado que não descarte suas inquietações é essencial.

É por essa razão que oferecer a vaga de emprego é fundamental, mas sem o preparo adequado do ambiente de trabalho, pode não ser suficiente. É preciso promover espaços verdadeiramente acolhedores, que promovam a equidade, a segurança psicológica, o respeito e a permanência das pessoas trans em seus cargos. É preciso que os outros trabalhadores cis gêneros entendam o que é ser uma pessoa trans e tudo que essa identidade envolve, ao mesmo tempo em que compreendam a importância de se contratar essa comunidade. Esse tipo de cuidado na gestão é de extrema relevância, porque tem o potencial de trazer mudanças na cultura organizacional, promovendo mais respeito dentro da organização como um todo.

A construção de redes de apoio para pessoas trans no mercado de trabalho é muito importante. Por isso, é essencial dar destaque a projetos como o TransEmprego. Essa plataforma conecta em um único lugar currículos de pessoas trans e empresas com interesse em promover a diversidade. Além de fornecer canais que promovem e auxiliam as contratações diariamente, a plataforma fornece cursos de formação e atividades para os usuários, e conteúdos informativos para implementação e aperfeiçoamento dos seus processos de inclusão para as empresas.

A dificuldade de trazer dados robustos e o papel da política para a inclusão 

Atualmente, ainda é muito difícil levantar dados oficiais sobre a situação da população trans no Brasil. Na maioria dos casos, são associações e entidades não governamentais que fazem levantamentos em meio a dificuldades de acesso à informação. O Ministério do Trabalho e Emprego reconhece essas dificuldades e acrescenta que, como a captação desses dados passa pela autodeclaração, são precisos documentos de identificação da orientação sexual ou identidade de gênero, o que dificulta ainda mais o processo. 

Como pode ser visto por esse texto, a maioria das informações existentes são obtidas através de entrevistas. Adicionalmente, o público dessas entrevistas está concentrado nas grandes cidades do país, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, o que faz com que a falta de informação para cidades pequenas seja maior.

Sem números oficiais, fica difícil embasar e viabilizar políticas públicas voltadas para essa população. Dessa forma esse grupo e suas demandas continuam invisíveis.

A falta de dados oficiais não deveria impedir que pessoas trans tenham direito à inclusão. É por essa razão que autoridades políticas que defendem a causa são tão importantes, visto que são esses indivíduos que fazem com que o tópico entre em pauta, ainda que colocá-lo na agenda política seja uma realização complicada.

Ativistas como Erika Hilton e  Duda Salabert são personalidades marcantes que representam os percalços e as vitórias dos caminhos de políticos trans no Brasil. Mesmo diante de violência política e ameaças dentro e fora das arenas políticas, Erika e Duda persistem e lutam pelo direito de exercício político.

Erika Hilton, hoje Deputada Federal e líder da bancada do PSOL na Câmara dos Deputados, usa do seu lugar de destaque na política para denunciar os atos violentos que pessoas LGBTQIA+ sofrem diariamente. Como quando criticou o uso de discursos homofóbicos e de fundamentalismo religioso que apoiavam a PL que proibia o casamento homoafetivo no país. Enquanto busca por respeito, Erika não desiste de buscar transformação, sendo uma das principais figuras na luta contra a escala 6X1. 

Duda Salabert também é deputada federal, além de ser professora de literatura e usa seu lugar na política para ser vista para além da sua identidade de gênero. Duda luta pelo meio ambiente, pelos direitos das mulheres e pela educação de qualidade. Ela também participa de projetos de lei importantes, como o PL 5696/2023, que busca garantir água potável nas escolas.

Erika e Duda não são as únicas e nem serão as últimas. A comunidade trans resiste e nossa missão como sociedade é se juntar à luta. 

Autora

Maria Luiza Vilela Francisco

A

Referências

AVELAR, Rezende; et al. (TRANS)GREDINDO PRECONCEITOS?
A ESCASSEZ DE TRAVESTIS E TRANSEXUAIS NO
MUNDO DO TRABALHO. Historiæ, Rio Grande, v. 13, n. 1, p. 45-71. 2022 

GURGEL, Miguel. Pesquisa avalia situação de moradoras de rua trans e travestis em Belo Horizonte. Faculdade de Medicina UFMG. Belo Horizonte, fevereiro de 2019. Disponível em: https://www.medicina.ufmg.br/pesquisa-avalia-situacao-de-moradoras-de-rua-trans-e-travestis-em-belo-horizonte/

LISBOA, Vinícius. Pesquisa descreve barreiras para acesso de pessoas trans ao emprego. Agência Brasil.  Rio de Janeiro, Dezembro de 2022. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2022-12/pesquisa-descreve-barreiras-para-acesso-de-pessoas-trans-ao-emprego

 

MACHADO, Lucas, GONÇALVES, Andressa e LAGE, Renata. Estudo revela que 0,38% dos postos de trabalho no país são ocupados por pessoas trans. GloboNews – Jornal das Dez, 15 maio 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/globonews/jornal-das-dez/noticia/2024/05/15/estudo-revela-que-038percent-dos-postos-de-trabalho-no-pais-sao-ocupados-por-pessoas-trans.ghtml

Por preconceito, pessoas transgêneras têm mais dificuldade de encontrar trabalho, o que aumenta a marginalização dessa população.  CRESS-MGE, Fevereiro de 2023. Disponível em https://www.cress-mg.org.br/2023/02/10/por-preconceito-pessoas-transgeneras-tem-mais-dificuldade-de-encontrar-trabalho-o-que-aumenta-a-marginalizacao-dessa-populacao/

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