A saída do Brasil do Mapa da Fome da ONU em 2025 representa uma vitória histórica para o país e para sua democracia social. Esse marco não ocorreu por acaso: é o resultado direto de políticas públicas consistentes que colocaram a dignidade e o direito à alimentação no centro da agenda nacional. Programas como o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e as Cozinhas Solidárias, aliados à recuperação do emprego e da renda, demonstram que escolhas políticas podem transformar realidades e devolver esperança a milhões de famílias. Assim como em 2014, quando o Brasil havia alcançado pela primeira vez essa conquista, a experiência recente reforça que combater a fome exige compromisso público, coordenação institucional e vontade política para enfrentar desigualdades históricas. Mais do que um dado estatístico, estar novamente fora do Mapa da Fome é a prova concreta de que políticas sociais eficazes salvam vidas, reduzem vulnerabilidades e pavimentam o caminho para um desenvolvimento mais justo e sustentável.

  • Relatório

Nesta segunda feira (28/07), a FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations), em parceria com agências da ONU como FIDA, UNICEF, PMA e OMS, publicou o relatório “THE STATE OF FOOD SECURITY AND NUTRITION IN THE WORLD: ADDRESSING HIGH FOOD PRICE INFLATION FOR FOOD SECURITY AND NUTRITION”. O texto apresenta um panorama global atualizado da segurança alimentar ao redor do globo diante das principais questões geopolíticas que afetaram a distribuição de renda e, consequentemente, o acesso à alimentação de qualidade nos últimos anos, como a pandemia e a guerra da Ucrânia. Além disso, apresenta uma série de dados a respeito da evolução histórica da subnutrição e insegurança alimentar no século XXI, sempre relacionando com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável traçados para 2030, principalmente o objetivo de acabar com a fome (ODS 2) e apresenta, também, a relação entre inflação de alimentos e aumento da parcela da população que não consegue arcar com uma dieta equilibrada e os caminhos da política monetária para reverter essa situação. 

Nos últimos anos, houve sinais de redução da fome global. Em 2024, estima-se que 8,2% da população mundial enfrentou fome, uma queda em relação a 2023 (8,5%) e 2022 (8,7%), com destaque para melhorias no Sudeste e Sul da Ásia e na América do Sul, embora a fome continue crescendo em grande parte da África e no Oeste Asiático. Ainda assim, cerca de 673 milhões de pessoas enfrentaram fome em 2024, sendo 307 milhões na África, 323 milhões na Ásia e 34 milhões na América Latina e Caribe. Projeta-se que, em 2030, 512 milhões de pessoas ainda estarão em situação de fome, quase 60% delas na África. Paralelamente, 2,3 bilhões de pessoas viveram insegurança alimentar moderada ou grave, com prevalência maior em áreas rurais e entre mulheres (FAO et. al, 2025).

Apesar do aumento dos preços dos alimentos, que elevaram o custo médio de uma dieta saudável para US$ 4,46 por dia em 2024, o número de pessoas incapazes de pagar por essa dieta caiu de 2,76 bilhões (2019) para 2,6 bilhões (2024). No entanto, em regiões pobres, como na África e em países de baixa renda, esses números aumentaram. A desnutrição infantil mostra avanços na redução do nanismo (de 26,4% em 2012 para 23,2% em 2024) e no aumento da amamentação exclusiva (de 37% para 47,8%), mas a prevalência de emaciação, sobrepeso infantil e anemia em mulheres cresceu, assim como a obesidade adulta (FAO et. al, 2025).

A inflação alimentar global, intensificada pela pandemia e pela guerra na Ucrânia, atingiu níveis elevados entre 2021 e 2023, superando a inflação geral e impactando de forma mais grave os países de baixa renda, onde chegou a 30% em 2023. Esse cenário reduziu o poder de compra das famílias e ampliou a insegurança alimentar e a desnutrição infantil. Além disso, alimentos ultraprocessados, mais baratos por caloria, vêm substituindo opções mais nutritivas, enquanto o aumento dos preços de alimentos básicos pressiona ainda mais as dietas das populações pobres  (FAO et. al, 2025).

Para enfrentar esses desafios, recomenda-se combinar medidas de curto e longo prazo: proteger populações vulneráveis com programas sociais e alívio fiscal, alinhar políticas fiscais e monetárias para estabilizar mercados, investir em infraestrutura e sistemas agrícolas resilientes, melhorar a transparência de dados e promover mercados integrados para reduzir choques de preços. Essas ações são essenciais para mitigar desigualdades e avançar em direção às metas globais de segurança alimentar e nutrição até 2030.

Além do que foi exposto, o relatório também produz um produto de extrema importância para a análise da distribuição da fome no mundo: o Mapa da Fome da FAO/ONU:

Imagem 1: Mapa da Fome FAO/ONU

Disponível em: https://www.fao.org/interactive/hunger-map/en/

 

Trata-se literalmente de um mapa que expõe os resultados relacionados à segurança alimentar ou à subnutrição separadamente por país, sub-região ou região em uma média móvel dos três últimos anos, para amenizar o impacto de mudanças sazonais. Por se tratar de um produto de organizações internacionais de grande relevância, seus resultados são extremamente expressivos no que diz respeito à situação da fome de um país diante  do mundo. Estão expressos no mapa dois dados com diferentes metodologias de cálculo: o percentual de subnutrição da população (PoU)¹ e o nível de insegurança alimentar².

 

Brasil

O país apresenta um histórico de idas e vindas no que diz respeito ao dado que representa a conquista que justifica esse artigo, a subnutrição. Em 2014, após anos de políticas públicas eficazes de combate à fome, o Brasil apresentou, pela primeira vez em sua história, menos de 2,5% de sua população em estado de subalimentação grave, o que representa a saída do “Mapa da Fome” (BRASIL, 2025a). No entanto, após um período de desmonte das políticas sociais iniciado com a crise política e institucional que resultou no golpe à presidente Dilma (Observatório das Desigualdades, 2021) e com os efeitos da pandemia acentuados pela gestão desastrada e desumana do governo federal à época, o Brasil retornou em 2021 (com dados referentes ao triênio de 2019-2020-2021), chegando ao percentual de 2,8%. A situação se agravou ainda mais no ano seguinte (2020-2021-2022), atingindo 3,4% e em 2023, com a retomada dos programas sociais, houve o início do processo de recuperação, com um recuo ainda tímido para 3,2%. Sendo assim, a maior parte dos ganhos que possibilitaram a conquista anunciada pelo relatório (a retomada de um patamar inferior a 2,5%) ocorreu no ano de 2024, possivelmente pela continuidade das políticas que se iniciaram com o novo governo. 

 

 

Gráfico 1: Prevalência de insegurança alimentar severa ou moderada – Brasil

Fonte: FAO/ONU

 

Gráfico 2: Prevalência de insegurança alimentar severa no total da população – Brasil

Fonte: FAO/ONU

Os resultados apresentados na insegurança alimentar no Brasil, embora não representem também uma saída do mapa da fome, corroboram com os movimentos ao longo do tempo anteriormente citados: o primeiro gráfico mostra que a insegurança alimentar moderada e grave manteve-se relativamente estável até 2018, seguida de um aumento expressivo a partir de 2019, com pico no triênio 2020-2022 (atingindo cerca de 26% entre mulheres e 23% entre homens). Após esse período crítico, nota-se um declínio significativo até 2022-2024, retornando a níveis próximos aos observados antes da crise, o que reflete melhorias recentes no acesso aos alimentos.

O segundo gráfico, focado na insegurança alimentar grave, segue padrão semelhante, mas com níveis absolutos menores. Houve um crescimento abrupto entre 2018 e 2022, alcançando quase 10% entre mulheres e 7% entre homens, também com queda acentuada até 2024. O fato de as mulheres apresentarem prevalência mais alta em ambos os indicadores reforça a dimensão de gênero da insegurança alimentar (as linhas azuis representam a população feminina, já as vermelhas a masculina).

Sendo assim, é totalmente insensato acreditar que a saída do Brasil do mapa da fome, mais uma vez no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, se trata apenas de uma obra do acaso. Essa realização histórica é fruto da efetividade dos programas sociais. Por meio do Plano Brasil sem Fome, foram viabilizados programas como Bolsa Família, Cozinha Solidária, Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Dessa forma, foi possível retirar 24 milhões de pessoas da insegurança alimentar até o fim de 2023, reduzindo em 85% a insegurança alimentar e cumprir a meta de retirar o Brasil do Mapa da Fome muito antes de  2026 que era o prazo  estabelecido (BRASIL, 2025b)

Além disso, o mínimo histórico da taxa de desemprego (6,6%) possibilitou um grande avanço pras camadas menos favorecidas da população brasileira o que, evidentemente, contribui para a diminuição da insegurança alimentar: “das 1,7 milhão de vagas com carteira assinada criadas no Brasil em 2024, 98,8% foram ocupadas por pessoas cadastradas no Cadastro Único do Governo Federal. Entre os contratados, 1,27 milhão (75,5%) eram beneficiários do Bolsa Família.” (BRASIL, 2025b). Extrapolando um pouco o tema proposto nesse texto, os dados acima, além de explicar os avanços no combate a fome, também contribuem para derrubar ataques recorrentes aos programas sociais, como trazidos por Ricardo Faria, dono da Global Eggs em entrevista à Folha de São Paulo: “as pessoas estão viciadas no Bolsa Família” e que “não temos nem a chance de trazê-las para treinar e oferecer uma vida melhor, porque estão presas ao programa” (Lazzarotti e Miranda, 2025).

¹ Para chegar a esse dado, calcula-se quanto, em média, as pessoas comem em calorias por dia, em seguida mede-se como esse consumo está distribuído e um valor mínimo de energia necessário levando em consideração as características da população, como distribuição etária e de gênero. Por fim, se estabelece qual o percentual daquela população que não atinge o consumo mínimo necessário. São utilizadas diferentes bases de dados para estabelecer os parâmetros necessários nesse cálculo.

² Já os dados relacionados à insegurança alimentar foram obtidos por meio da aplicação de questionário em amostras representativas das populações presentes no mapa.

Referências bibliográficas 

 

BRASIL. Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Após mais de uma década, Brasil volta a deixar o Mapa da Fome sob governo do presidente Lula. Central de Conteúdos. 28 jul. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mulheres/pt-br/central-de-conteudos/noticias/2025/julho/apos-mais-de-uma-decada-brasil-volta-a-deixar-o-mapa-da-fome-sob-governo-do-presidente-lula. Acesso em: 05 ago. 2025.

 

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Brasil sai do Mapa da Fome da ONU: conquista histórica reflete políticas públicas eficazes. Notícias Desenvolvimento Social. 28 jul. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mds/pt-br/noticias-e-conteudos/desenvolvimento-social/noticias-desenvolvimento-social/brasil‑sai‑do‑mapa‑da‑fome‑da‑onu‑conquista‑historica‑reflete‑politicas‑publicas‑eficazes. Acesso em: 05 ago. 2025.

 

FAO; IFAD; UNICEF; WFP; WHO. The State of Food Security and Nutrition in the World 2025: addressing high food price inflation for food security and nutrition. Rome: FAO, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.4060/cd6008en. Acesso em: 05 ago. 2025.

 

LAZZAROTTI, Bruno; MIRANDA, Clarice. O que não contaram para o “Rei do Ovo” sobre o Programa Bolsa Família. Brasil de Fato (Observatório das Desigualdades/MG), 26 jun. 2025, 14h44. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/colunista/observatorios-das-desigualdades/2025/06/26/o-que-nao-contaram-para-o-rei-do-ovo-sobre-o-programa-bolsa-familia/. Acesso em: 05 ago. 2025.

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