No último dia 22 de setembro, celebramos os 80 anos de Gonzaguinha, cantor que transformou em poesia as dores, as alegrias e as contradições do Brasil. Filho do rei do baião Luiz Gonzaga e da cantora Odaléia Guedes, teve a infância marcada pela perda da mãe e pela vida no Morro de São Carlos, no Rio de Janeiro, onde
“Sentava bem lá no alto
Pivete olhando a cidade
Sentindo o cheiro do asfalto
Desceu por necessidade”
Foi dessa experiência dura, mas também cheia de afetos populares, que Gonzaguinha “desceu o São Carlos, pegou um sonho e partiu”. Foi deste “fogo em seus olhos” que nasceu a força de sua obra, que com uma mistura de protesto, ironia e ternura que até hoje ressoa em nossa memória coletiva.
Foi na década de 1970, em pleno regime militar, que Gonzaguinha se consolidou como uma das vozes mais marcantes e necessárias da música brasileira. Nos festivais, sua presença era repleta de letras afiadas e por um tom irônico que denunciava a repressão, a alienação e as desigualdades sociais. Não foram poucas as vezes em que enfrentou a censura, diversas de suas músicas foram alvo de repressão por exporem a repressão e a injustiça da ordem vigente. Ainda assim, ele não se calou e fez da música seu espaço de enfrentamento político. Mas sua luta era também sua festa. Mesmo nos momentos mais duros, nunca renunciou ao caráter revolucionário da alegria e nunca sucumbiu ao cinismo, pondo “fé na fé da moçada”,
“Eu vou à luta é com essa juventude
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade
Que não tá na saudade e constrói a manhã desejada
Aquele que sai da batalha
E entra no botequim, pede uma cerva gelada
E agita na mesa logo uma batucada
Aquele que manda um pagode
E sacode a poeira suada da luta, e faz a brincadeira
Pois o resto é besteira e nós estamos pelaí”
Para além da luta, suas músicas tratam de temas como amor, esperança e da necessidade de acreditar em dias melhores. Ao longo dos anos 1980, já em um momento que o Brasil começava a respirar ares de abertura democrática, ele se aproximou ainda mais do grande público, levando para os rádios e palcos mensagens que misturavam crítica e esperança, sempre de forma emocionante.
Sua morte, em 1991, interrompeu precocemente uma trajetória que unia arte e resistência. Mas seu legado permanece, Gonzaguinha foi uma expressão das contradições do país e um símbolo da coragem de cantar mesmo quando a voz era perseguida. Sua obra continua ecoando e reforçando que mesmo em momentos de turbulências e opressões a arte é resistência.
Falando de sua obra, quem nunca se viu embalado, no gogó, pela música “o que é o que é”, repetindo: “É bonita, é bonita e é bonita”? Os afetos que as músicas de Gonzaguinha seguem despertando em nós são evidentes, assim como suas letras de luta, com ironias marcantes, que apenas por meio da música nos permitem transbordar de sentidos questões que tantas vezes trazemos em posts do Observatório das Desigualdades. Uma dessas músicas é “Comportamento Geral”, lançada em 1973, no álbum “Luiz Gonzaga Jr.”, e que já foi regravada inúmeras vezes, merecendo uma marcante versão de Elza Soares (https://www.youtube.com/watch?v=Ttn6V_r3D9Y&list=RDTtn6V_r3D9Y&start_radio=1):
“Você deve notar que não tem mais tutu
E dizer que não está preocupado
Você deve lutar pela xepa da feira
E dizer que está recompensado
Você deve estampar sempre um ar de alegria
E dizer: Tudo tem melhorado
Você deve rezar pelo bem do patrão
E esquecer que está desempregado
Você merece
Você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba e amanhã, seu Zé
Se acabarem teu carnaval
Você merece
Você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba e amanhã, seu Zé
Se acabarem teu carnaval
Você deve aprender a baixar a cabeça
E dizer sempre: Muito obrigado
São palavras que ainda te deixam dizer
Por ser homem bem disciplinado
Deve pois só fazer pelo bem da nação
Tudo aquilo que for ordenado
Pra ganhar um fuscão no juízo final
E diploma de bem comportado
Você merece
Você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba e amanhã, seu Zé
Se acabarem teu carnaval
Mas você merece
Você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba e amanhã, seu Zé
Se acabarem com teu carnaval
Você, você merece
Você merece
Tudo vai bem, tudo legal
E um fuscão no juízo final
Você merece
E diploma de bem comportado
Você merece
Você merece
Se esqueça que está desempregado
Você merece
Você
Tudo vai bem, tudo legal”
“Você merece”, verso que se repete, quase como uma mantra, que apazigua, que remete à uma ideia naturalidade em relação às condições que são apresentadas com altas doses de ironia, para deixar evidente as desigualdades marcantes que tratam de rezar pelo bem do patrão e esquecer que está desempregado. Essa naturalização das condições de desigualdades fazem parte de uma falácia que constitui elemento importante da forma como se estrutura a nossa sociedade, que é a meritocracia.
Essa crítica irônica feita por Gonzaguinha à meritocracia em “Comportamento Geral” dialoga diretamente com um debate mais amplo sobre as desigualdades no Brasil. A meritocracia se sustenta em uma lógica que, inicialmente, pode ser vista por alguns como razoável, ao defender um pensamento de que todos deveriam ser recompensados de acordo com seu esforço, sua dedicação e sua capacidade.
Porém, para que essas ideias existam na prática, seria necessário que existisse igualdade real de oportunidades, especialmente no acesso à educação e ao trabalho. E é nesse momento que essa falácia meritocrática se desfaz, o segundo capítulo do livro “Desigualdade para inconformados: dimensões e enfrentamentos das desigualdades no Brasil” produzido pelo Observatório das Desigualdades, mostra que no Brasil a mobilidade social é extremamente baixa, o chamado “elevador social quebrado”. Em média, seriam necessárias nove gerações para que os descendentes das famílias mais pobres alcancem a renda média nacional, o que demonstra que a origem social pesa decisivamente no destino de cada indivíduo, muito mais do que esforço pessoal ou talento, defendidos pelo mito da meritocracia.
Além disso, fatores como raça, gênero e classe continuam a determinar desigualmente o acesso às posições mais prestigiadas e melhor remuneradas. Mesmo entre pessoas com a mesma escolaridade, pessoas negras e mulheres ainda sofrem diariamente com os abismos criados pelas desigualdades sociais, tendo maiores dificuldades para uma inserção digna e igualitária no mercado de trabalho . Assim, a escolaridade, embora importante, não elimina esses impasses, que muitas vezes, são transmitidos de uma geração para outra.
O pensamento meritocrático cumpre um papel de manutenção do status quo, em um cenário em que aqueles que estão em posições privilegiadas acreditam ser “justos merecedores” de seu status, enquanto os que não alcançam determinados espaços na sociedade internalizam sua condição como resultado de fracasso individual. Esse mecanismo encobre as reais dinâmicas da sociedade, como apontam os autores do livro, funcionando para alguns como um conto de fadas, que na verdade está mais próximo de um conto do vigário. A perpetuação dessa fantasia no imaginário social, legitima essa ideia desigual de que a imensa maioria das pessoas é responsável pela condição em que vive, merecendo, no máximo, um “diploma de bem comportado”.
Além de desvelar questões marcantes das desigualdades persistentes no Brasil, Gonzaguinha também apresenta, em suas canções, a importância de ir à luta, para desmontar os mecanismos que constituem essas desigualdades, e nos lembra que devemos continuar lutando para que tenhamos sempre na memória que lutar por nossos direitos jamais deve ser um defeito que mata. Em momentos importantes para a defesa da nossa democracia, para não nos esquecermos, ficamos com a música “Pequena Memória Para Um Tempo Sem Memória” (A Legião Dos Esquecidos) – https://www.youtube.com/watch?v=sS7Bq-bnSnw
“Ê ê, quando o Sol nascer
É que eu quero ver quem se lembrará
Ê ê, quando amanhecer
É que eu quero ver quem recordará
Ê eu não quero esquecer
Essa legião que se entregou por um novo dia
Ê eu quero é cantar, essa mão tão calejada
Que nos deu tanta alegria
E vamos à luta”
Por fim, compartilhamos abaixo uma playlist em homenagem ao Gonzaguinha, construída pela equipe do Observatório, que pode ser acessada pelo QrCode abaixo:
Ou acesse pelo link: https://open.spotify.com/playlist/7IGnX70jdlAkATwZYgZKLj?si=Xa_oaaUIS8qv-xJBlOtv_Q&pi=lmpyF_E_QX6GD
