Quando estamos viajando e aproveitando as lindas paisagens das cidades turísticas, reconhecendo as dezenas de viajantes como nós ao nosso redor, raramente paramos para pensar no impacto que o alto número de visitantes pode causar às regiões que os recebem, especialmente em situações em que o turismo é realizado sem nenhum tipo de consciência social e ambiental. Entretanto, é preciso se atentar ao fato de que um volume excessivo de turistas pode gerar impactos significativos tanto na qualidade de vida dos moradores quanto no meio ambiente, chegando, inclusive, a comprometer a experiência dos próprios visitantes.

Roma, Itália

Fonte: Habitability

O que é o turismo excessivo e quais são os seus impactos

     O overturism ou turismo excessivo se caracteriza por um número acima do aceitável de visitantes  em regiões com grandes atrativos turísticos, fazendo com que o volume de visitantes no destino seja superior à capacidade de suporte da cidade e do meio ambiente. Não é preciso ir longe para observar os efeitos desse fenômeno, já que, no Brasil, diversas cidades sofrem com os impactos negativos do overturism, especialmente em épocas de alta temporada. É possível observar isso, por exemplo, em Guarapari, um dos principais destinos no estado do Espírito Santo que, durante o recesso de fim de ano, sofreu com falta de água para os moradores. Ou até mesmo o caso de Ilha Grande, em Angra dos Reis, onde a constante falta de luz enfrentada pela ilha apenas piora com a demanda elevada em períodos de alta temporada, quando a ilha se enche de novos turistas. Não são apenas cidades de praia que são afetadas por esse problema, cidades históricas, como Tiradentes, também sofrem com danos ao patrimônio histórico e cultural, provocados pelo intenso fluxo de visitantes em um espaço urbano limitado, e com descaracterização do espaço, devido à superlotação. 

Guarapari- Brasil

Fonte:  G1

      Portanto, é evidente que o turismo excessivo tem sérias consequências para as regiões turísticas, afetando intensamente a vida local. Os principais impactos causados pelo turismo excessivo estão relacionados ao fornecimento de infraestrutura e serviços, a desigualdades socioeconômicas e a destruição do meio ambiente.

     Nota-se que as cidades deixam de fornecer infraestrutura e serviços para acolher seus moradores – e um número crescente de visitantes – de maneira satisfatória. A superlotação ocasiona congestionamentos de tráfego, dificuldades de se movimentar nas ruas, aumento do lixo, problemas de saneamento e degradação dos espaços públicos. Isso acontece em Veneza, onde o movimento constante das ondas geradas pelas inúmeras embarcações turísticas destrói as margens dos canais e as fundações dos edifícios ao longo do tempo. Além disso, o aumento descontrolado do turismo gera pressão sobre serviços públicos, que não foram projetados para o elevado volume de pessoas, resultando, por exemplo, transportes públicos sempre cheios e filas em postos de saúde (Leahy, 2024). 

     Em termos de impactos socioeconômicos, observa-se um aumento generalizado do custo de vida para os moradores, devido à elevação dos preços de itens básicos, como alimentos; e à inflação imobiliária, já que prioriza-se a transformação de imóveis em propriedades de aluguéis temporários a altos preços; com isso, o valor da moradia em áreas desejáveis aumenta, forçando os residentes das cidades a ocupar áreas mais periféricas e causando a separação de comunidades locais. Além disso, comércios que antes atendiam a população local passam a fechar, dando lugar a estabelecimentos voltados exclusivamente para turistas, o que altera a identidade cultural da cidade (Piva, 2025).

     Já o meio ambiente, passa a ser mais intensamente degradado pelo turismo não sustentável, o que acelera a sua destruição. Além do aumento da poluição em todas as formas, há também a transformação de ecossistemas locais. Isso pode ser observado nos recifes de corais na Tailândia, que estão sendo degradados pelos visitantes que praticam atividades nas águas, como mergulho e passeios de barco (Leahy, 2024).

     Esse cenário de acúmulo de impactos negativos ocasiona indignação nos residentes locais das regiões turísticas. Em diversas cidades turísticas do mundo, moradores já realizaram protestos contra o turismo excessivo e muitos direcionam um comportamento hostil aos visitantes (Estanislau, 2023; Leahy, 2024). Um exemplo desse fenômeno pode ser observado em Barcelona, onde moradores têm realizado protestos frequentes contra o turismo excessivo, denunciando o aumento do custo de vida, a expulsão de residentes de áreas centrais e a perda do caráter local dos bairros. Em alguns casos, manifestações incluíram cartazes e atos simbólicos direcionados a turistas.

Como amenizar esses impactos e promover um turismo mais consciente e sustentável?

     Embora existam impactos negativos advindos do turismo excessivo, é inegável que esse setor traz um retorno econômico significativo para as regiões turísticas e, muitas vezes, atividades ligadas ao turismo são a principal fonte de renda da população local. Portanto, surge um desafio: como mitigar os impactos negativos do turismo excessivo de forma socialmente consciente sem inibir ou prejudicar o turismo como atividade econômica benéfica?

     A resposta está na regulamentação e na promoção de um turismo sustentável e consciente para substituir o turismo desenfreado e sem regras. Algumas medidas já estão sendo adotadas por cidades ao redor do mundo. Dentre elas, estão a imposição de limites e proibições, como limitação do número de visitantes, a proibição de alguns tipos de veículos em determinadas áreas das cidades e a criação de horários de funcionamento específicos. Ademais, a aplicação de multas para má conduta de turistas e a implementação de impostos relacionados a atividades turísticas podem auxiliar na transferência de recursos para a mitigação dos impactos negativos do turismo, além de coagir o turista a ter maior consciência de suas ações. Por fim, destaca-se  a criação de regras mais restritivas para aluguéis de curta duração, buscando conter a inflação imobiliária (Piva, 2025).

Porque é importante pensar no turismo excessivo para o cenário brasileiro? 

     Em 2025, o Brasil bateu o recorde de número de turistas vindos do exterior, alcançando a marca de 9 milhões de visitantes estrangeiros até dezembro deste ano, superando em 30% a previsão para 2025, que era de 6,9 milhões de turistas (Secretaria de Comunicação Social, 2025). Esse é um indicativo de que o turismo brasileiro vem crescendo de forma exponencial e bem acima do esperado. 

     Esse cenário traz consigo um alerta importante: é preciso executar políticas públicas para expandir o turismo de forma sustentável social, econômica e ambientalmente. O Brasil tem diante de si a oportunidade de aprender com as experiências de outros países, tomando precauções para que o crescimento do turismo signifique a distribuição de recursos de forma igualitária, sem o aumento da pressão econômica, da tensão social e da destruição do meio ambiente. É preciso trabalhar para mitigar os efeitos negativos do turismo que já estão presentes no território brasileiro, tomando cuidado para que esses problemas não se agravem com o aumento do fluxo de turistas. 

     Também é crucial que o turismo no Brasil não seja limitado a poucos destinos, evitando a superlotação dos mesmos espaços. O Brasil é diverso em sua imensidão, por isso, é importante que diferentes destinos, em diferentes regiões do país ganhem destaque. Para isso, é importante que o turismo no Brasil seja devidamente divulgado, ampliando o conhecimento dos diversos pontos turísticos que o país tem para oferecer. Pensar o turismo no Brasil hoje é pensar o futuro do país, visando a valorização do território e o crescimento sustentável de um setor econômico indispensável para a nação.

Referências

BRASIL. Antes do final do ano, Brasil alcança históricos 9 milhões de turistas estrangeiros em 2025. Gov.br, dezembro de 2025.  Disponível em: https://www.gov.br/secom/pt-br/assuntos/noticias/2025/12/antes-do-final-do-ano-brasil-alcanca-historicos-9-milhoes-de-turistas-estrangeiros-em-2025#:~:text=O%20recorde%20de%20chegadas%20de,visitantes%20internacionais%20registrados%20em%202024.&text=A%20poucos%20dias%20de%20fechar,de%20turistas%20estrangeiros%20em%202025. Acesso em 06/01/2026

LEAHY, Kate. O que é turismo de massa (ou turismo em excesso) e quais problemas ele vem causando pelo mundo?. National Geographic, julho de 2024. Disponível em: 

https://www.nationalgeographicbrasil.com/viagem/2024/07/o-que-e-turismo-de-massa-ou-turismo-em-excesso-e-quais-problemas-ele-vem-causando-pelo-mundo. Acesso em 06/01/2026

PIVA, Gabriela. Como o turismo excessivo impacta cidades e altera economias locais. CNN Brasil, maio de 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/viagemegastronomia/viagem/como-o-turismo-excessivo-impacta-cidades-e-altera-economias-locais/#google_vignette. Acesso em 06/01/2025.

ESTANISLAU, Juliana. Cidades sofrem com o “overtourism” e turistas enfrentam retaliação de residentes e governos locais. Jornal da Usp, setembro de 2023. Disponível em: https://jornal.usp.br/atualidades/cidades-sofrem-com-o-overtourism-e-turistas-enfrentam-retaliacao-de-residentes-e-governos-locais/ . Acesso em: 06/01/2026

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