O fim está próximo: a escala 6×1 em xeque na política brasileira
Autoria: Ana Laura Crescencio, Clarisse Silva e Rafaela Bovareto
Supervisão, orientação e correção: Bruno Lazzarotti
“Temos que entender que tempo não é dinheiro. Essa é uma brutalidade que o capitalismo faz como se o capitalismo fosse o senhor do tempo. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida.”
Antonio Candido
O debate pelo fim da escala 6×1 – a jornada de seis dias de trabalho para um dia de descanso – está efervescente na política brasileira. Pensando nisso, nesse artigo, o Observatório das Desigualdades busca responder às seguintes perguntas: quem compõe a escala 6×1? Quais grupos sofrem, exacerbadamente, os efeitos dessa árdua jornada de trabalho? Quais são os impactos na saúde e na vida do trabalhador? Para responder tais questionamentos – ou, pelo menos, tentar – leia a análise abaixo.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil/Divulgação/ND
Momento de ruptura: O “Dia D” na política brasileira
No dia 14 de Abril de 2026, o Governo Federal enviou ao Congresso Nacional um Projeto de Lei (PL) com urgência constitucional que visa extinguir definitivamente a escala 6×1, o regime em que o funcionário trabalha seis dias consecutivos para apenas um de descanso. A proposta altera a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) para reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas, sem qualquer redução salarial, consolidando o modelo de cinco dias de trabalho por dois de descanso (5×2), e apresenta um avanço histórico na política laboral brasileira.
A iniciativa foi impulsionada pelo movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que possui como liderança Rick Azevedo, vereador do PSOL no Rio de Janeiro, ex-balconista de farmácia, que viralizou nas redes sociais desabafando sobre sua rotina de trabalho, com só um dia de folga por semana. A pauta – que inclui domésticos, comerciários, atletas, aeronautas, radialistas e outras categorias abrangidas pela CLT e leis especiais – conta hoje com o apoio de 72% da população brasileira, apesar de ainda possuir apenas 42% de deputados favoráveis, segundo a BBC (ver gráficos 1 e 2).
Gráfico 1: Porcentagem populacional favorável e não favorável ao fim da escala 6×1

Fonte: Elaboração própria com base em dados da BBC (Abril, 2026)
Gráfico 2: Porcentagem de deputados favoráveis, não favoráveis e que não opinaram acerca do fim da escala 6×1

Fonte: Elaboração própria com base em dados da BBC (Abril, 2026)
No entanto, o caminho legislativo para o fim da jornada ainda é complexo. Enquanto o Executivo aposta na rapidez do Projeto de Lei, a Câmara dos Deputados prioriza a tramitação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), com votação prevista para o dia 22 de Abril. Essa proposta afetaria pelo menos 14 milhões de trabalhadores brasileiros, que trabalham no regime 6×1, assim como 37 milhões de brasileiros, que possuem jornada laboral maior que 40 horas semanais, segundo O Globo. Essa árdua escala de trabalho, porém, não afeta esses trabalhadores de forma uniforme: seus efeitos pesam com base em diferenças raciais, disparidade de gênero e nível de escolaridade.
A disputa política pelo fim da escala 6×1
O cenário político no momento atual é marcado por uma intensa disputa de protagonismo entre o Palácio do Planalto e a cúpula da Câmara dos Deputados, segundo a CNN: “a aposta é pelo avanço por meio da PEC, mantendo o PL como uma espécie de margem de segurança em caso de alguma dificuldade na articulação da emenda”. Assim, enquanto o governo Lula aposta em um Projeto de Lei (PL) com urgência constitucional — que obriga a votação em até 45 dias sob risco de trancamento da pauta —, o presidente da Câmara, Hugo Motta, prioriza o andamento de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC). Essa divergência ocorre porque, se aprovado no formato de um Projeto de Lei, o presidente da república pode vetar trechos aprovados pelo Congresso que não estejam alinhados com o governo, enquanto, no caso da PEC, o projeto, quando aprovado, é promulgado pelo Congresso e passa a valer sem necessidade de sanção presidencial (O Globo).
Imagem 3: Diferença entre as propostas da PEC e do PL para a redução da jornada de trabalho

Fonte: elaboração própria com base na matéria da CNN Brasil (Abril, 2026)
Quem sustenta a 6×1? O rosto da desigualdade
A escala 6×1 não é uma realidade distribuída de forma igualitária entre os brasileiros. Ela tem um endereço social muito preciso. Dados do Ipea revelam que cerca de 74% dos vínculos celetistas no Brasil ainda estão submetidos à jornada de 44 horas semanais, o que significa que a maioria dos trabalhadores com carteira assinada nunca conheceu outra realidade (Pateo, Melo e Círiaco, 2026).
Mas quem, afinal, compõe esse contingente?
O recorte racial é contundente. Nessa ótica, segundo Teixeira et al. (2025 apud Moraes, 2026) o fim da escala 6×1 beneficiaria diretamente cerca de 5 milhões de pessoas negras, que representam 56% dos trabalhadores formais em jornadas longas. Lutar contra a escala 6×1, portanto, é lutar, também, contra uma estrutura que historicamente concentra os postos mais desgastantes e menos remunerados nas mãos da população negra, visto que a herança do trabalho precarizado não é acidente, é estrutura (Moraes, 2026).
Ademais, a escolaridade aprofunda essa divisão. Como mostrado no Gráfico 3, entre os trabalhadores com ensino médio completo ou menos, cerca de 83% cumprem jornadas superiores a 40 horas semanais. Já entre os que possuem diploma de nível superior, essa proporção cai para, aproximadamente, 53% (Pateo, Melo e Círiaco, 2026), porcentagem ainda alta, mas significativamente menor.
Gráfico 3: Incidência do tipo de duração da jornada de trabalho contratual por nível de escolaridade (2023)

Fonte: Pateo, Melo e Círiaco (2026), com dados do RAIS/MTE
O acesso à educação, portanto, funciona como um dos poucos passaportes para jornadas mais curtas, o que torna o ciclo ainda mais perverso, já que quem mais precisa de tempo para estudar é exatamente quem menos tem (Assunção e Resende, 2026).
E a remuneração espelha essa lógica. O trabalhador da 6×1 ganha, em média, apenas 42,3% do salário de um trabalhador em jornada de 40 horas semanais (Pateo, Melo e Círiaco, 2026). Ou seja: trabalha mais, descansa menos e ainda leva para casa menos da metade. Portanto, a escala 6×1 é uma questão desigual e transversal, que depende de fatores como raça e escolaridade.
A escala 7×0: o peso invisível sobre as mulheres
Entretanto, os citados não são os únicos recortes que escancaram as condições discrepantes, visto que, se para o trabalhador médio a escala é 6×1, para as mulheres ela é, na prática, 7×0.
O trabalho de cuidado é o núcleo dessa desigualdade. As mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidado de pessoas, mais que o dobro das 8,8 horas registradas entre os homens (Hennington, 2025; Moreira e Moser, 2019). Cozinhar, limpar, cuidar de filhos, idosos e doentes: tarefas que sustentam a reprodução da vida social, mas que não aparecem em nenhuma estatística oficial de emprego.
Uma pesquisa do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made/FEA-USP) mostra que, enquanto os homens somam 50,3 horas de trabalho por semana, as mulheres, mesmo quando a jornada remunerada é igual ou menor à dos homens, acumulam 58,1 horas de trabalho semanais, se considerado o tempo dedicado ao cuidado doméstico e familiar (Saliba et al., 2026). A diferença de quase 8 horas semanais representa um turno inteiro a mais, invisível, não remunerado e socialmente naturalizado.
Essa dupla jornada tem um custo que vai além do cansaço: ela bloqueia o acesso à qualificação profissional. Uma mulher que sai do trabalho formal para assumir o cuidado da casa e da família simplesmente não tem tempo, nem energia para estudar, fazer cursos ou buscar promoções. O resultado é previsível: menor renda, menor mobilidade social, maior vulnerabilidade econômica. A jornada exaustiva, portanto, é uma das principais barreiras que perpetuam o ciclo de baixa renda entre as mulheres brasileiras (Assunção e Resende 2026; ABED, 2025).
Portanto, reduzir a jornada de trabalho remunerado, sem que isso venha acompanhado de políticas públicas de cuidado pode, simplesmente, transferir horas do trabalho para a parcela que exerce atividades domésticas, especialmente para as mulheres mais pobres. É por isso que o debate sobre o fim da 6×1 precisa, necessariamente, ser articulado com a Política Nacional de Cuidados (Lei 15.069/2024): para que o tempo livre seja, de fato, tempo livre, e não apenas mais horas de trabalho sem salário.
O custo humano: impactos na saúde do trabalhador
A luta contra a escala 6×1 é também uma luta a favor da saúde do trabalhador brasileiro, e o excesso de trabalho e a falta de tempo livre estão diretamente ligadas ao adoecimento físico e mental dos indivíduos. O ideal de produtividade infinita cai por terra quando os trabalhadores se desgastam em níveis radicais.
Como exposto por Barbosa, Barboza, Pivetta, Xavier, Ebert e Petean (2026) em artigo sobre o tema, a sobrecarga persistente e a limitação do tempo de descanso transformam tensões ocasionais do dia a dia em problemas patológicos. Um exemplo disso é o burnout, distúrbio emocional caracterizado por sintomas extremos de exaustão física e mental que só tem acontecido cada vez mais no Brasil. A redução da jornada de trabalho é portanto, além de tudo, uma política pública de saúde.
Gráfico 4: Porcentagem dos brasileiros que sofrem de estresse / Izabela Piazza.

Fonte: International Stress Management Association no Brasil — ISMA-BR/Divulgação Unibrad
Outro fator pertinente é que das 20 ocupações com mais acidentes de trabalho no país, 12 estão entre as de maior carga horária, de acordo com levantamento feito pela Repórter Brasil.. “Há uma relação direta entre excesso de jornada e acidentes de trabalho”, afirma a juíza Luciana Conforti, presidente da Anamatra (Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho) em entrevista “a jornada tem que ter um limite semanal, e também o descanso semanal remunerado, inclusive as férias, justamente porque as pessoas têm que ter seu período de descanso, para que se recomponham e não cheguem à exaustão”, complementa.
Consequências e vias para a redução da jornada
Em retrospecto à discussão sobre a jornada invisível das mulheres no Brasil, a implementação da redução de jornada deve vir acompanhada da Política Nacional de Cuidados (Lei 15.069/2024) a fim de evitar a ampliação dessa desigualdade e para que o tempo de descanso das mulheres seja usado de fato para descansar, e não trabalhar em casa.
Com a disseminação cada vez maior do debate do fim da escala 6×1, cresce também uma preocupação geral do efeito disso na economia do país. No entanto, diferente do que se pensa, o impacto direto do custo operacional total em grandes setores seria inferior a 1% (Ipea, 2026).
“O projeto aproxima o Brasil de um movimento já em curso em diversos países. O Chile aprovou a redução gradual da jornada de 45 para 40 horas semanais até 2029, enquanto a Colômbia está em transição de 48 para 42 horas até 2026. Na Europa, a jornada de 40 horas ou menos já é predominante: a França adota 35 horas semanais desde os anos 2000, e países como Alemanha e Holanda operam, na prática, com médias inferiores a 40 horas” Secretaria de Comunicação Social, 2026.
Por fim, o fim da escala 6×1 traria diversas bénéfices sociais, mas também favoreceria a economia do país:
- Diminuição do índice de desemprego – estímulo à contratação e novos postos de trabalho
- Aumento da produtividade dos trabalhadores e melhor organização do trabalho
- Alívio na rotina do trabalhador e maior tempo de lazer e com a família
- Ampliação da qualidade de vida – tempo maior para estudo e descanso efetivo e, consequentemente, maior possibilidade de ascensão socioeconômica
Referências:
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ECONOMISTAS PELA DEMOCRACIA (ABED). Mulher e o Trabalho: A Dupla Jornada Feminina. Brasília: ABED, 8 mar. 2025. Disponível em: https://economistaspelademocracia.org.br. Acesso em: 14 abr. 2026
ASSUNÇÃO, Any Ávila; RESENDE, Rafael Ávila Borges de. Dossiê fim da escala 6×1: Tempo para aprender, tempo para viver: A redução da jornada de trabalho como condição para o direito à qualificação profissional no Brasil. São Leopoldo: Instituto Humanitas Unisinos – IHU, 28 fev. 2026. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/662340-dossie-fim-da-escala-6×1-tempo-para-aprender-tempo-para-viver-a-reducao-da-jornada-de-trabalho-como-condicao-para-o-direito-a-qualificacao-profissional-no-brasil. Acesso em: 10 abr. 2026.
BBC News Brasil: DINIZ, Iara. O que prevê projeto para fim da escala 6×1 que governo Lula mandou para o Congresso. BBC News Brasil, São Paulo, 14 abr. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c4gz0e4v3vzo. Acesso em: 17 abr. 2026.
CNN Brasil: OLIVEIRA, Clarissa. Câmara e governo esperam acordo rápido sobre fim da escala 6×1. CNN Brasil, [S. l.], 17 abr. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/clarissa-oliveira/politica/camara-e-governo-esperam-acordo-rapido-sobre-fim-da-escala-6×1/. Acesso em: 17 abr. 2026.
HENNINGTON, Élida Azevedo. O trabalho de cuidados na agenda da saúde: invisibilidade, sobrecarga e desgaste de mulheres trabalhadoras. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 49, n. especial 2, e10430, ago. 2025
LESSA, Bruna. Fim da escala 6×1: Hugo Motta e ministro de Lula discutem sobreposição de propostas nesta sexta. Extra, Brasília, 17 abr. 2026. Economia. Disponível em: https://extra.globo.com/economia/noticia/2026/04/fim-da-escala-6×1-hugo-motta-e-ministro-de-lula-discutem-sobreposicao-de-propostas-nesta-sexta.ghtml. Acesso em: 17 abr. 2026
MORAES, Taís Dias de. Dossiê Fim da escala 6×1: por que lutar contra a escala 6×1 é lutar contra a desigualdade racial? São Leopoldo: Instituto Humanitas Unisinos – IHU, 10 mar. 2026. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/660336-dossie-fim-da-escala-6×1-por-que-lutar-contra-a-escala-6×1-e-lutar-contra-a-desigualdade-racial
MOREIRA, Tassiane Antunes; MOSER, Liliane. Família, trabalho do cuidado e uso do tempo: desafios para mulheres de baixa renda. O Social em Questão, Rio de Janeiro, n. 43, p. 67-94, jan./abr. 2019
PATEO, Felipe Vella; MELO, Joana Simões de; CÍRIACO, Juliane da Silva. Mudanças na Jornada e na Escala de Trabalho: Elementos Empíricos para o Debate. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 2026. (Nota Técnica, n. 123)
SALIBA, C.; NASSIF, L; NUNES, D.; PAULINO, L. A. Escala 7×0: a jornada que não acaba para as mulheres brasileiras. São Paulo: Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made/FEAUSP), 2026. (Nota de Política Econômica, n. 85)
TEIXEIRA, Marilane Oliveira; SALIBA, Clara Mendonça; OLIVEIRA, Caroline Lima de; ALSISI, Lília Bombo. Considerações sobre a redução da jornada de trabalho: criação de postos de trabalho e aumento da produtividade dos trabalhadores e das trabalhadoras. RBEST Revista Brasileira de Economia Social e do Trabalho, [s. l.], [s. d.]
