No domingo, 7 de dezembro de 2025, diversas cidades brasileiras foram tomadas por atos públicos contra o feminicídio e a violência contra a mulher, em uma mobilização nacional que reuniu movimentos feministas, organizações da sociedade civil e milhares de manifestantes. As manifestações ocorreram em meio a um contexto de forte comoção social, marcado pela repercussão recente de casos de violência de gênero extrema, e buscaram dar visibilidade à urgência do enfrentamento desse problema no país.
Fonte: O Globo
De acordo com a reportagem de O Globo (Freitas, 2025), protestos foram registrados em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Maceió, Santos, entre outras cidades. Em São Paulo, o ato ocorreu na Avenida Paulista, reunindo manifestantes com cartazes e palavras de ordem que denunciavam a impunidade e reivindicavam políticas públicas efetivas de proteção às mulheres. No Rio de Janeiro, a mobilização ocupou espaços centrais da cidade, enquanto em Brasília mulheres se reuniram em frente a prédios públicos para cobrar responsabilidade do poder público. Em capitais do Norte e do Nordeste, como Manaus, Fortaleza e Maceió, os atos reforçaram que a violência de gênero atravessa todas as regiões do país, independentemente de contexto urbano ou social.
As manifestações tiveram como temas principais a denúncia do feminicídio e a defesa do direito das mulheres à vida, à segurança e à dignidade. Mais do que atos simbólicos, os protestos expressaram indignação diante da repetição de crimes que seguem marcando o cotidiano brasileiro e evidenciaram a articulação de uma resposta coletiva frente a uma realidade persistente de violência.
Para contextualizar o debate, esse texto apresentará os casos recentes que tiveram grande repercussão nacional, contribuindo para reacender o debate público sobre o tema. Em seguida, complementando a discussão, propomos uma reflexão sobre as relações entre violência de gênero e padrões de masculinidade tóxica, buscando compreender como aspectos culturais e sociais sustentam esse cenário.
Os casos que chocaram o Brasil
Em São Paulo, um dos casos mais chocantes envolveu uma mulher de 31 anos que foi atropelada e arrastada por um carro conduzido pelo ex-companheiro, resultando na amputação de ambas as pernas, em um episódio que mobilizou indignação pública e protestos (Agência Brasil, 2025).
Ainda na capital paulista, outro caso que causou forte comoção ocorreu quando um homem invadiu o local de trabalho da ex-companheira e efetuou disparos de arma de fogo contra ela, expondo a violência de gênero em espaços públicos e cotidianos, como o ambiente laboral (Agência Gov, 2025).
No Distrito Federal, a morte de uma jovem cabo do Exército, encontrada com o corpo carbonizado, também gerou grande repercussão. O crime, confessado por um soldado da mesma instituição, passou a ser investigado como feminicídio e levantou debates sobre violência contra a mulher em contextos institucionais e hierarquizados (Agência Brasil, 2025).
Outro episódio amplamente citado no contexto das mobilizações foi o assassinato de duas mulheres em uma instituição federal de ensino no Rio de Janeiro, mortas por um colega de trabalho. O caso reforçou a percepção de que a violência contra mulheres não se restringe ao ambiente doméstico, mas atravessa diferentes espaços sociais (Agência Brasil, 2025).
Os movimentos masculinistas e a cultura de violência
Evidentemente, diante de números tão expressivos e persistência tão forte em nossa sociedade, seria ingenuidade supor que a violência de gênero é apenas resultado de falhas institucionais ou de atos isolados de indivíduos violentos. Ela é sustentada por uma cultura que organiza as relações sociais a partir da desigualdade de poder entre homens e mulheres. Essa cultura se manifesta em modelos de masculinidade que rejeitam o feminismo, deslegitimam a autonomia feminina e naturalizam o controle e a dominação como atributos do “ser homem”. Comunidades masculinistas articuladas no ambiente digital, associadas à chamada ideologia Red Pill (nessas comunidades, a referência ao filme Matrix vem da esdrúxula ideia de que os homens precisam acordar para uma realidade de superioridade feminina), não criaram essa lógica, que segue a histórica dominação patriarcal, mas a atualizam, radicalizam e difundem, reforçando a ideia de que a igualdade de gênero representa uma ameaça aos homens e trazem ideias que parecem vir dos tempos medievais para as novas gerações.
Fonte: BBC
Os discursos que circulam nesses espaços operam por meio da culpabilização sistemática das mulheres, da banalização da violência e da inversão de responsabilidades, transformando direitos em privilégios e vítimas em suspeitas e os opressores em vítimas. Ao fazer isso, contribuem para um ambiente social em que agressões verbais, psicológicas e físicas são relativizadas, justificadas ou mesmo incentivadas e, não só contribuem, como sistematicamente atacam mulheres que demonstram o mínimo de autonomia e liberdade nas redes. Um exemplo recente de como a misoginia digital se transforma em ataque à liberdade feminina envolve a influenciadora @maconhilda, alvo de uma rede organizada de perfis incel e neonazistas que coordenaram ameaças e campanhas de intimidação nas redes sociais. As agressões incluíram ofensas misóginas, ameaças explícitas e a exposição de dados pessoais, criando um ambiente de medo e tentativa de silenciamento. O episódio evidencia que mulheres que ocupam o espaço público, expressam opiniões políticas e afirmam sua autonomia seguem sendo tratadas como alvos legítimos por grupos que veem a liberdade feminina como uma ameaça à ordem que defendem (Revista Fórum, 2025).
Fonte: Revista Fórum (2024)
Esse processo está no centro do que se define como masculinidade tóxica. Trata-se de um modelo que associa virilidade ao controle, à força e à negação das emoções, e que interpreta frustração, rejeição ou perda de poder como afrontas pessoais. Quando mulheres afirmam autonomia, rompem relações ou recusam submissão, esse modelo reage com hostilidade. Não por acaso, muitos episódios de violência extrema são precedidos por tentativas de controle, perseguição e intimidação, frequentemente tratadas como conflitos privados ou “dramas passion
A responsabilidade masculina na manutenção desse cenário vai muito além dos autores diretos da violência. Ela está presente na conivência cotidiana, no silêncio diante de agressões, na piada misógina tolerada, na desconfiança automática sobre a palavra das vítimas e na recusa em reconhecer a violência como um problema estrutural. Cada vez que um homem relativiza uma agressão, questiona uma denúncia ou se exime do debate, contribui para a continuidade desse sistema.
Estudos sobre a machosfera mostram que a violência contra a mulher deve ser compreendida como expressão de uma cultura que autoriza comportamentos agressivos e hierarquias de gênero, especialmente quando essas ideias circulam de forma intensa e pouco regulada nas redes digitais. Enfrentar a violência de gênero exige mais do que punição após o crime. Exige confrontar os modelos de masculinidade que a sustentam e implicar os homens como agentes ativos da transformação, rompendo com práticas, discursos e privilégios que alimentam ciclos persistentes de agressão e feminicídio (Vilaça & d’Andréa, 2021).
Apresentando essa realidade com dados
Por fim, para mostrar que a violência contra a mulher no Brasil é um problema que vai muito além de alguns casos de grande repercussão, tratemos alguns dados a respeito desse tema. Para isso, utilizaremos gráficos disponíveis no Relatório Socioeconômico da Mulher (Raseam 2025), elaborado pelo Observatório Brasil da Desigualdade de Gênero e o Ministério das Mulheres, em sua sessão de número 5, enfrentamento de todas as formas de violência contra a mulher.
Gráfico 1. Registros de violências doméstica, sexual e/ou outras violências contra mulheres, por ano – Brasil – 2013-2023
Fonte. dados: Ministério da Saúde, Sistema de Informação de Agravos de Notificação – SINAN. elaboração: Ministério das Mulheres. Observatório Brasil da Igualdade de Gênero.
O gráfico mostra uma tendência clara de crescimento dos registros de violências contra mulheres no Brasil entre 2013 e 2023, passando de pouco mais de 113 mil para mais de 300 mil casos. Após um aumento contínuo até 2019, há uma queda em 2020, associada às dificuldades de denúncia e registro durante a pandemia, seguida por uma retomada acelerada a partir de 2021. O salto observado em 2023, o maior de toda a série histórica, evidencia a persistência e o agravamento da violência de gênero no país, reforçando seu caráter estrutural e a urgência de políticas públicas eficazes de enfrentamento.
Gráfico 2. Ocorrências policiais de estupro de mulheres, por ano – Brasil – 2015 -2024
Fonte. dados: Ministério da Justiça e Segurança Pública, Dados Nacionais de Segurança Pública. elaboração: Ministério das Mulheres. Observatório Brasil da Igualdade de Gênero.
Já o gráfico 2, indica um aumento expressivo das ocorrências policiais de estupro de mulheres no Brasil entre 2015 e 2024, com os registros praticamente dobrando no período, ao passar de cerca de 38 mil para mais de 71 mil casos. Após crescimento contínuo até 2019, observa-se uma queda em 2020, associada às restrições impostas pela pandemia e à subnotificação, seguida de retomada nos anos seguintes. O patamar elevado alcançado a partir de 2022, mantido até 2024, evidencia a persistência da violência sexual contra mulheres no país e reforça a gravidade do problema, que permanece estrutural e amplamente disseminado.
Sendo assim, os gráficos analisados dialogam diretamente com os temas centrais desenvolvidos ao longo deste documento. A persistência e o agravamento da violência contra as mulheres confirmam que os casos recentes que chocaram o país não são exceções, mas expressões de um padrão estrutural sustentado por desigualdades de gênero profundas. As mobilizações nas ruas, os protestos contra o feminicídio e a indignação social mencionados no texto surgem como resposta a uma realidade que se repete e se intensifica, apesar da existência de marcos legais e políticas públicas.
Além disso, a machosfera e comunidades masculinistas, se tornam um agravante por surgirem como uma nova forma de “legitimação” dessa violência fortemente compenetrada entre os homens das novas gerações. Evidentemente, a violência simbólica disseminada em ambientes digitais, os ataques a mulheres que ocupam o espaço público e o cerceamento da liberdade feminina encontram correspondência concreta nos números que expõem a continuidade da violência física e sexual.
Autores: Miguel Coelho e Bruno Lazzarotti
Referências bibliográficas
AGÊNCIA BRASIL. Ministras exaltam luta das mulheres em ato contra o feminicídio. Brasília, 07 dez. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-12/ministras-exaltam-luta-das-mulheres-em-ato-contra-o-feminicidio. Acesso em: 16 dez. 2025.
AGÊNCIA GOV. Atuação do Governo do Brasil para combater o feminicídio é destaque da Voz do Brasil. Agência Gov, 3 dez. 2025. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202512/atuacao-do-governo-do-brasil-para-combater-o-feminicidio-e-destaque-da-voz-do-brasil. Acesso em: 17 dez. 2025.
BRASIL. Ministério das Mulheres. Relatório Anual Socioeconômico da Mulher – RASEAM 2025. Brasília: Ministério das Mulheres, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mulheres/pt-br/assuntos/relatorio-anual-socioeconomico-da-mulher. Acesso em: 19 dez. 2025.
O GLOBO. Em meio à alta de casos de violência contra mulher, diversas cidades registram atos contra o feminicídio neste domingo. Rio de Janeiro, 07 dez. 2025. Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2025/12/07/em-meio-a-alta-de-casos-de-violencia-contra-mulher-diversas-cidades-registram-atos-contra-o-feminicidio-neste-domingo.ghtml. Acesso em: 17 dez. 2025.
REVISTA FÓRUM. Exclusivo: como atua a bolha incel e neonazista que coordena ataques e ameaças a perfis de esquerda. Revista Fórum, São Paulo, 25 jul. 2024. Disponível em: https://revistaforum.com.br/brasil/exclusivo-como-atua-a-bolha-incel-e-neonazista-que-coordena-ataques-e-ameacas-a-perfis-de-esquerda/. Acesso em: 19 dez. 2025.
