Aqui no Observatório das Desigualdades temos a tradição de todo ano elaborar uma playlist que dialogue com nossa produção. Durante o ano de 2025, produzimos de diversas formas diferentes, posts no instagram e no blog, notas técnicas e boletins, com uma grande pluralidade de temas. Sendo assim, não poderia ser diferente dessa vez, fizemos uma playlist em que cada música, de alguma maneira conversa diretamente com o que apresentamos em nosso Instagram e blog.
Um dos temas mais tratados durante o ano e escolhido para abrir nossa playlist foi a erradicação da fome e da miséria. Tratado na nossa última nota técnica (Minas sem Miséria: Alternativas, Custos e Financiamento de uma Política Estadual de Enfrentamento à Pobreza) e em post que comemoram a saída do Brasil do Mapa da Fome em 2025, não poderia ser representado melhor do que pela música Gente de Caetano Veloso:
“Gente é pra brilhar
Não pra morrer de fome”
Em seguida, decidimos tratar da redistribuição de renda, talvez o tema mais recorrente em nossa produção. Durante o ano de 2025, esteve presente em nossas duas notas técnicas (Minas sem Miséria: Alternativas, Custos e Financiamento de uma Política Estadual de Enfrentamento à Pobreza e Pobreza e desigualdade em Minas Gerais em 2024: retomando o longo caminho para a justiça social.) e em outras produções que trataram do Bolsa Família, valorização real do salário mínimo, entre outros. A nossa escolha foi por um clássico do rock nacional: Até Quando Esperar do Plebe Rude:
“Com tanta riqueza por aí, onde é que está?
Cadê sua fração?”
Outro tema muito tratado foi a precarização do trabalho e a luta por direitos. Escolhemos músicas que representam um cotidiano repetitivo e de luta do trabalhador em músicas como Construção de Chico Buarque e Sou Boy da Banda Magazine. Além disso, para representar a luta por direitos, escolhemos um clássico do samba que representa a ascensão de um líder popular Zé do Caroço de Leci Brandão.
Além disso, a comemoração da diversidade e a discriminação contra a população LGBTQIA+ foi um tema muito debatido por nós ao longo do ano, com destaque para o boletim n°21 “Políticas Públicas para a população LGBTQIA+: caminhos para o alcance de um futuro sem desigualdade e discriminação”. Dessa vez, não foi possível escapar do tradicional, decidimos por I Will Survive de Gloria Gaynor por se tratar de um hino da população LGBT. Decidimos, também, incluir Homem com H de Ney Matogrosso, pela representatividade enorme do cantor e pela forma como questiona os papéis de gênero, outro tema importante tratado ao longo do ano. Por fim, Blossom de Urias foi uma escolha importante para representar a população trans.
As músicas “Negro é lindo”, de Jorge Ben, e “Identidade”, de Jorge Aragão, dialogam diretamente com a valorização da cultura negra ao afirmarem o orgulho racial e a memória histórica como pilares da resistência negra no Brasil. Enquanto Jorge Ben celebra a beleza, a força e a criatividade do povo negro, rompendo com estigmas construídos pelo racismo estrutural, Jorge Aragão reforça que identidade não é apenas aparência, mas história, luta e pertencimento coletivo.
Ambas as canções resgatam a ancestralidade africana, reafirmam o direito à autoestima e transformam a música popular em instrumento político, contribuindo para a construção de uma consciência negra que reconhece sua centralidade na formação cultural brasileira e reivindica visibilidade, respeito e dignidade. No ano de 2025, buscamos falar desse assunto trazendo o foco para a valorização da cultura, ao invés de dar espaço a discussão sobre discriminação, visando interromper uma visão de que as existências negras se limitam a isso.
Também não poderiam passar batido em nossa playlist temas como a defesa da democracia e a redemocratização que foram tratados em nosso blog, principalmente diante dos acontecimentos que marcaram os últimos anos da história brasileira. Para isso, escolhemos O bêbado e a equilibrista de Elis Regina, que simboliza a esperança nesse período sombrio que viveu nosso país:
“A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar”
Levando tudo isso em consideração, a música We Are The Champions, do Queen, parece estar deslocada do propósito dessa publicação. No entanto, ela foi escolhida por se tratar de um ano muito especial para nós. Em 2025, o Observatório das Desigualdades foi premiado no Prêmio Simone Albuquerque, concedido no âmbito da Conferência Nacional de Assistência Social (CNAS), que reconhece experiências e iniciativas que contribuem para o fortalecimento do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e para a luta contra as desigualdades sociais no país. Receber esse prêmio significa o reconhecimento do trabalho desenvolvido na produção de conhecimento crítico, no monitoramento das desigualdades e na defesa de políticas públicas comprometidas com direitos, justiça social e democracia.
Por fim, escolhemos algumas músicas para trazer uma mensagem de esperança para 2026: A Dança de Mc Hariel e Gilberto Gil, Andar com Fé, também de Gilberto Gil e O Show Tem que Continuar de Arlindo Cruz:
“Combustível pra prosseguir, cantar memo ofegante
No meio de tanta incerteza, ser mais confiante”
Mc Hariel
Para encerrar, deixamos esta playlist como um convite à escuta atenta e ao afeto compartilhado. Cada música aqui reunida carrega não apenas uma trilha sonora, mas pedaços das lutas, das conquistas e das esperanças que atravessaram nosso trabalho em 2025. Em um país marcado por desigualdades profundas, seguir produzindo, pesquisando e comunicando é também um ato de resistência coletiva. Que essas canções nos lembrem que a transformação social não se faz apenas com dados e análises, mas também com sensibilidade, memória e coragem. Seguimos acreditando que é possível construir um futuro mais justo, e que, juntos, podemos continuar caminhando, cantando e lutando, porque o show da democracia, dos direitos e da dignidade precisa, e vai, continuar. Para ouvir, acesse: https://open.spotify.com/playlist/6MCb9gcxuVZdLbzCqh4j8V?si=BYwbsKUjS62ZqF3zaCDhd ou escute aqui mesmo pelo widget presente no top desse blog!
Autores: Ana Luiza Matias, Marina Diniz, Maria Luiza Vilela e Miguel Coelho.
