• Categoria do post:Análise

No dia 12 de outubro, o Brasil celebra o Dia das Crianças, uma data tradicionalmente associada a presentes, brincadeiras e momentos de alegria. Brincadeiras e sonhos são essenciais para uma infância saudável, mas não bastam. Por trás das comemorações, existe uma realidade que merece atenção. Nem todas as crianças brasileiras têm as mesmas oportunidades de viver plenamente a infância. Para milhões delas, crescer significa enfrentar obstáculos que começam muito antes dos primeiros passos e podem acompanhá-las durante toda a vida.

Essa preocupação está presente na própria origem da data. Instituído em 1924, o Dia das Crianças surgiu com o propósito de estimular a atenção da sociedade e do poder público à saúde, à educação e ao bem-estar infantil. Mais de um século depois, apesar dos avanços na legislação e na proteção social, garantir esses direitos continua sendo um desafio (Westin, 2024). Segundo o UNICEF (2025), em 2023, cerca de 28,8 milhões de crianças e adolescentes brasileiros, o equivalente a 55,9% dessa população, viviam em situação de pobreza multidimensional, caracterizada pela privação de renda ou de direitos básicos, como educação, moradia e saneamento.

Os efeitos dessa desigualdade, porém, não começam quando a criança entra na escola ou passa a compreender as diferenças sociais ao seu redor. Eles podem surgir ainda durante a gestação, quando as condições de vida da família influenciam o acesso ao acompanhamento pré-natal, à alimentação adequada e aos cuidados de saúde. Em contextos de vulnerabilidade, a dificuldade de acessar serviços essenciais pode ampliar os riscos à saúde da gestante e do bebê, criando desigualdades antes mesmo do nascimento. Um estudo do Núcleo Ciência pela Infância aponta que, segundo dados do IBGE de 2019, 78% das mulheres de baixa escolaridade não realizaram o número mínimo de consultas pré-natais, evidenciando a relação entre condições socioeconômicas e acesso à saúde materna (Komatsu; Costa; Bartholo, 2022).

Após o nascimento, essas diferenças passam a interferir em uma das etapas mais importantes do desenvolvimento humano. A primeira infância, que compreende os primeiros seis anos de vida, é um período de intenso desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social. Nesse processo, especialmente nos primeiros mil dias, contados desde a gestação, alimentação adequada, acompanhamento médico, vínculos afetivos e estímulos são fundamentais. Entretanto, enquanto algumas crianças crescem em ambientes com acesso a esses recursos, outras enfrentam insegurança alimentar, moradias precárias e dificuldades para obter cuidados básicos. Essas condições estão associadas a maiores riscos de desnutrição, doenças e atrasos no desenvolvimento infantil (Universidade Federal de Pelotas, 2022).

A dimensão dessa realidade aparece nos dados sobre saneamento. Segundo levantamento do UNICEF, baseado no Censo Demográfico de 2022, 12,2 milhões de crianças e adolescentes brasileiros viviam sem acesso adequado ao esgotamento sanitário (UNICEF, 2024). A ausência dessa infraestrutura aumenta a exposição a doenças e pode comprometer a saúde e o desenvolvimento infantil. Assim, a desigualdade deixa de ser apenas uma diferença de renda e se manifesta nas próprias condições em que uma criança cresce, brinca e aprende.

À medida que os primeiros anos avançam, as disparidades também se refletem nas oportunidades de socialização e aprendizagem. Brincar, explorar o ambiente e conviver com outras crianças são experiências essenciais para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Contudo, o acesso a espaços educativos permanece profundamente desigual. Um estudo do Núcleo Ciência pela Infância, publicado em 2022, mostrou que, segundo dados de 2019, apenas 26% das crianças mais pobres de até três anos frequentavam creches, enquanto entre aquelas de maior renda o percentual chegava a 55% (Komatsu; Costa; Bartholo, 2022).

Essa diferença revela que a desigualdade não se expressa apenas nos recursos disponíveis dentro de casa, mas também na oferta de serviços públicos capazes de ampliar oportunidades. Uma creche de qualidade pode representar um espaço importante de desenvolvimento infantil e, simultaneamente, permitir que os responsáveis, especialmente as mulheres, tenham melhores condições de permanecer no mercado de trabalho. Portanto, a insuficiência desses serviços repercute tanto nas experiências das crianças quanto nas possibilidades de proteção econômica de suas famílias (Komatsu; Costa; Bartholo, 2022).

Com a chegada à idade escolar, as desvantagens acumuladas nos primeiros anos podem se tornar ainda mais evidentes. Crianças que enfrentam dificuldades de alimentação, saúde e acesso à educação infantil podem chegar ao ensino fundamental em condições diferentes de aprendizagem. Nesse momento, novos obstáculos se somam aos anteriores, como a falta de materiais escolares, a ausência de um ambiente adequado para estudar e as desigualdades na qualidade da educação oferecida. 

Esses desafios não devem ser interpretados como falta de capacidade ou esforço individual. Pelo contrário, revelam como as condições sociais influenciam as oportunidades de aprender. Exigir resultados semelhantes de crianças submetidas a realidades profundamente diferentes, sem oferecer os apoios necessários, pode contribuir para reproduzir as desigualdades que a educação deveria combater.

Conforme a infância dá lugar à adolescência, essas dificuldades podem assumir novas formas. A necessidade de contribuir com a renda familiar, a sobrecarga de responsabilidades domésticas e a falta de acesso a atividades culturais, esportivas e educativas podem reduzir as possibilidades de desenvolvimento pessoal. Para parte dos adolescentes, a pressão econômica significa conciliar estudo e trabalho precocemente ou até abandonar a escola. O trabalho infantil, além de violar direitos, pode comprometer a trajetória educacional e expor crianças e adolescentes a riscos físicos e psicológicos, contribuindo para a perpetuação de ciclos de pobreza e exclusão (InPACTO, 2025).

É também nessa etapa que se tornam mais perceptíveis os efeitos combinados das desigualdades de renda, raça, gênero e território. No Brasil, essas diferenças estão longe de ser secundárias. Segundo o UNICEF (2025), em 2023, 63,6% das crianças e adolescentes negros viviam em situação de pobreza multidimensional, contra 45,2% dos brancos. Isso demonstra que as oportunidades de desenvolvimento também são condicionadas por estruturas sociais que historicamente distribuem recursos e direitos de forma desigual.

Quando esses jovens chegam à vida adulta, os impactos das privações anteriores podem continuar presentes. Dificuldades no percurso escolar tendem a restringir oportunidades de qualificação profissional, enquanto problemas de saúde e limitações no acesso a direitos podem comprometer a qualidade de vida. Uma pesquisa da Universidade Federal de Pelotas, publicada na revista The Lancet em 2022, identificou associações persistentes entre a exposição à pobreza na primeira infância e piores indicadores de saúde, desenvolvimento cognitivo e escolaridade, inclusive em fases posteriores da vida (Universidade Federal de Pelotas, 2022).

Dessa forma, as dificuldades vivenciadas durante o desenvolvimento podem contribuir para a reprodução da pobreza entre gerações. Uma criança que cresce com oportunidades limitadas pode enfrentar maiores obstáculos de inserção profissional e obtenção de renda na vida adulta, o que, por sua vez, pode influenciar as condições de vida de seus futuros filhos. A desigualdade que começa cedo pode, assim, se reproduzir ao longo de décadas.

Isso não significa, entretanto, que a pobreza determine inevitavelmente o futuro de uma criança. O desenvolvimento humano não é um destino previamente estabelecido, e políticas públicas são capazes de transformar trajetórias. Investimentos em saúde, assistência social, segurança alimentar, saneamento e educação podem reduzir riscos e ampliar oportunidades. Estudos apontam, por exemplo, que iniciativas como a Estratégia Saúde da Família e as políticas de transferência de renda contribuíram para melhorar indicadores de saúde infantil, enquanto a educação infantil de qualidade apresenta potencial para reduzir desigualdades educacionais (Komatsu; Costa; Bartholo, 2022).

Mais do que reconhecer a importância da primeira infância, é necessário compreender que proteger as crianças exige também enfrentar as desigualdades que atingem suas famílias e os territórios onde vivem. Não basta garantir formalmente direitos que, na prática, permanecem inacessíveis para parte significativa da população. É preciso assegurar investimentos, serviços públicos de qualidade e condições concretas para que todas as crianças possam se desenvolver plenamente.

Neste Dia das Crianças, portanto, a reflexão precisa ultrapassar o significado dos presentes e das comemorações. Celebrar a infância também é lutar para que todas as crianças possam dedicar seus primeiros anos a brincar, aprender e descobrir o mundo, e que nenhuma delas precise enfrentar, desde cedo, a insegurança e a privação de direitos.

Afinal, se a desigualdade pode começar antes mesmo do nascimento e acompanhar uma pessoa por toda a vida, garantir uma infância digna não é apenas cuidar do presente, mas impedir que as injustiças de hoje continuem definindo as oportunidades de amanhã.

 

Referências Bibliográficas:

FUNDAÇÃO ABRINQ. Quais os impactos da pobreza na infância? São Paulo, 26 mar. 2025. Disponível em: https://www.fadc.org.br/noticias/impactos-pobreza-infancia. Acesso em: 13 out. 2026.

FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA (UNICEF). 12 milhões de crianças e adolescentes vivem sem acesso adequado a esgoto e 2,1 milhões a água, alerta UNICEF. Brasília, DF, 10 out. 2024. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/12-milhoes-de-criancas-e-adolescentes-vivem-sem-acesso-adequado-esgoto-e-2-1-a-agua. Acesso em: 13 out. 2026.

FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA (UNICEF). Pobreza multidimensional na infância e adolescência no Brasil: 2017 a 2023. Brasília, DF: UNICEF, 2025. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/relatorios/pobreza-multidimensional-na-infancia-e-adolescencia-no-brasil-2017-2023. Acesso em: 13 out. 2026.

INPACTO. Dia Mundial da Infância: direitos afetados pelas desigualdades. 21 mar. 2025. Disponível em: https://inpacto.org.br/dia-mundial-da-infancia-direitos-afetados-pelas-desigualdades/. Acesso em: 13 out. 2026.

KOMATSU, Bruno Kawaoka; COSTA, Janaína Calu; BARTHOLO, Tiago Lisboa. Impactos da desigualdade na primeira infância. São Paulo: Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, 2022. (Estudo 9, Núcleo Ciência pela Infância). Disponível em: https://ncpi.org.br/publicacao/impactos-da-desigualdade-na-primeira-infancia/. Acesso em: 13 out. 2026.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS. Pobreza na primeira infância afeta saúde e inteligência de crianças e adolescentes até a vida adulta, mostra estudo. Pelotas: Coordenação de Comunicação Social, 28 abr. 2022. Disponível em: https://ccs2.ufpel.edu.br/wp/2022/04/28/pobreza-na-primeira-infancia-afeta-saude-e-inteligencia-de-criancas-e-adolescentes-ate-a-vida-adulta-mostra-estudo/. Acesso em: 13 out. 2026.

WESTIN, Ricardo. Dia da Criança surgiu há 100 anos, quando meninos pobres trabalhavam e iam para a cadeia. Senado Notícias, Brasília, DF, 4 out. 2024. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/arquivo-s/dia-da-crianca-surgiu-ha-100-anos-quando-meninos-pobres-trabalhavam-e-iam-para-a-cadeia. Acesso em: 13 out. 2026.

Autoria: Marina Pinheiro e Bruno Lazzarotti