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O dia 15 de outubro é marcado por comemorações, homenagens e reconhecimento àqueles que se dedicam diariamente à educação. O Dia dos Professores valoriza a atuação de profissionais cujo trabalho vai muito além da sala de aula, já que os efeitos da docência ultrapassam os muros das escolas, sendo fundamentais para a formação dos indivíduos, o desenvolvimento do pensamento crítico e a construção de uma sociedade mais justa. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, como o Brasil, a educação também representa um importante instrumento de transformação social e ampliação de oportunidades, contribuindo para romper ciclos de pobreza e possibilitar novas perspectivas de futuro.

Entretanto, apesar da importância atribuída à educação e aos profissionais responsáveis por ela, esse reconhecimento nem sempre se traduz em condições concretas de valorização. Enquanto os professores são frequentemente lembrados por seu papel essencial na sociedade, a realidade de muitos desses profissionais ainda é marcada por baixos salários em comparação a outras ocupações de nível superior, instabilidade nos vínculos de trabalho, sobrecarga de atividades e dificuldades de reconhecimento social. Assim, as homenagens que ganham destaque durante o mês de outubro contrastam com os desafios enfrentados cotidianamente por aqueles que fazem da educação sua profissão.

Diante desse cenário, mais do que uma data comemorativa, o Dia dos Professores representa uma oportunidade de refletir sobre a distância entre o reconhecimento simbólico da docência e sua efetiva valorização. Afinal, se a educação é constantemente apontada como um dos principais caminhos para a redução das desigualdades e o desenvolvimento do país, por que os profissionais que a tornam possível ainda enfrentam tantos obstáculos para ter seu trabalho devidamente reconhecido e valorizado?

 

A desigualdade salarial e a desvalorização econômica da docência

O contraste entre a relevância social da docência e o tratamento dispensado pelo Estado brasileiro evidencia-se, entre outros aspectos, na remuneração de quem vive de ensinar. Historicamente, os professores das redes públicas de educação básica recebem salários inferiores aos dos demais profissionais com nível superior completo no país. Segundo dados da Pnad Contínua sistematizados pelo Inep, em 2012 o rendimento bruto médio mensal dos docentes da rede pública era de R$ 4.853, enquanto os demais trabalhadores graduados recebiam R$ 7.440, em valores corrigidos pelo IPCA a preços de maio de 2024 (INEP, 2025).

Gráfico 1: Rendimento bruto médio mensal dos profissionais do magistério das redes públicas de educação básica e dos demais profissionais com nível superior completo e Indicador 17A – Brasil – 2012-2019/2022-2024

Ao longo da década seguinte, houve uma redução dessa distância, embora a equiparação salarial ainda não tenha sido alcançada. A aproximação observada no período decorreu, em grande medida, da queda no rendimento médio dos demais profissionais com ensino superior, que recuou para R$5.759 em 2022 e fechou em 2024 em R$6.213. Já a remuneração média docente oscilou ao longo da série, alcançando R$5.347 em 2024, um crescimento real de aproximadamente 10,2% em relação a 2012. Mesmo com esses avanços, a desigualdade persiste, refletindo-se também no fato de que apenas 22% dos professores brasileiros pesquisados afirmaram estar satisfeitos com seus salários, ante 39% na média da OCDE (OCDE, 2025).

Apesar desse cenário, é importante reconhecer os avanços nas políticas de valorização salarial. A instituição do Piso Salarial Profissional Nacional, em 2008, representou uma conquista importante para os profissionais do magistério, estabelecendo uma referência mínima de vencimento para a categoria. Desde sua criação, o piso apresentou crescimento real em grande parte dos anos analisados, chegando a R$ 5.130,63 em 2026, para uma jornada de 40 horas semanais (ALVES; RABELO, 2024; BRASIL, 2026). Outro instrumento relevante é o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), que, desde 2021, destina pelo menos 70% de seus recursos à remuneração dos profissionais da educação básica em efetivo exercício.

Entretanto, esses avanços ainda não foram suficientes para garantir a equiparação prevista na Meta 17 do Plano Nacional de Educação (PNE 2014–2024, prorrogado até 2025), que estabelecia a igualdade entre o rendimento médio dos profissionais do magistério das redes públicas e o dos demais trabalhadores com escolaridade equivalente. Dessa forma, embora existam políticas importantes de valorização, sua implementação e seus resultados ainda precisam ser fortalecidos para reduzir as desigualdades que persistem na remuneração docente.

 

A precariedade das condições de trabalho

A precariedade das condições de trabalho dos professores se manifesta de diferentes formas, desde problemas na infraestrutura das escolas até a sobrecarga de atividades e a instabilidade profissional. Salas de aula com ventilação inadequada, temperaturas elevadas, excesso de ruídos e turmas numerosas podem tornar o ambiente de trabalho desgastante e prejudicial ao bem-estar dos docentes. A essas dificuldades somam-se os desafios cotidianos da sala de aula. Segundo a pesquisa TALIS 2024, 44% dos professores brasileiros pesquisados relataram perder bastante tempo de aula devido às interrupções dos estudantes, enquanto, em média, 21% do tempo das aulas era destinado à manutenção da ordem (OCDE, 2025).

Além disso, o trabalho docente não se limita ao tempo dedicado às aulas. A preparação de atividades, a correção de avaliações e outras responsabilidades compõem uma parcela significativa da rotina profissional. De acordo com a TALIS 2024, professores brasileiros dos anos finais do ensino fundamental que trabalham em tempo integral relataram dedicar, em média, 9,3 horas semanais ao planejamento de aulas e outras 6,1 horas à correção de atividades, valores superiores às médias da OCDE (OCDE, 2025).

A esse cenário soma-se a instabilidade dos vínculos empregatícios, que representa um dos principais desafios para a valorização e a profissionalização docente. De acordo com o Censo Escolar de 2025, 49,3% dos docentes das redes estaduais possuíam contratos temporários (INEP, 2026), situação que pode comprometer a segurança financeira, a estabilidade profissional e as perspectivas de progressão na carreira. A gravidade desse cenário se torna ainda mais evidente quando se observa que a contratação temporária, originalmente prevista para atender necessidades excepcionais, passou a ocupar um espaço significativo na composição permanente das redes de ensino. Segundo um estudo do Todos Pela Educação (2024), 43,6% dos professores temporários pesquisados em 2021 já possuíam pelo menos 11 anos de experiência na docência, demonstrando que essa modalidade de contratação não se restringe aos profissionais em início de carreira.

Além da instabilidade, as diferenças nas condições de contratação aprofundam as desigualdades dentro da própria categoria. O mesmo estudo identificou que, em 15 das 25 redes estaduais analisadas, os professores temporários recebiam remuneração por hora inferior à dos efetivos em início de carreira, além de frequentemente não terem acesso às mesmas oportunidades de progressão e benefícios profissionais. Essas disparidades evidenciam como profissionais que desempenham funções semelhantes podem enfrentar condições de trabalho distintas, dificultando a construção de trajetórias profissionais estáveis. Nesse sentido, a precarização dos vínculos não representa apenas uma questão administrativa, mas um obstáculo à consolidação da docência como uma carreira valorizada e atrativa.

Os impactos dessa realidade, entretanto, não se limitam aos professores, alcançando também o funcionamento das escolas e a continuidade dos processos educativos. A rotatividade associada aos contratos temporários pode dificultar a construção de vínculos duradouros entre os docentes, os estudantes, a equipe pedagógica e a comunidade escolar, comprometendo o acompanhamento das necessidades dos alunos e a continuidade dos projetos educacionais. O estudo do Todos Pela Educação (2024) também identificou uma associação entre a contratação temporária e menores resultados de aprendizagem em avaliações externas, mesmo considerando características socioeconômicas dos estudantes. Embora essa relação não permita atribuir os resultados diretamente ao tipo de vínculo, ela reforça a importância de discutir as condições de contratação como parte das políticas de qualidade educacional. Dessa forma, garantir salários dignos, estabilidade e planos de carreira estruturados não significa apenas assegurar direitos aos professores, mas também fortalecer as condições necessárias para uma educação pública de qualidade.

 

A sobrecarga e os impactos sobre a saúde dos professores

As dificuldades enfrentadas pelos professores no ambiente de trabalho também se refletem em sua saúde física e mental. A pressão por resultados, as responsabilidades que ultrapassam o ensino dos conteúdos e os desafios cotidianos da sala de aula contribuem para uma rotina de desgaste. Segundo a pesquisa TALIS 2024, 66% dos professores brasileiros dos anos finais do ensino fundamental apontaram a responsabilização pelo desempenho dos estudantes como uma importante fonte de estresse. A pesquisa também revelou que 21% desses profissionais relataram vivenciar níveis elevados de estresse no trabalho, percentual que cresceu 7 pontos percentuais em relação a 2018 (OCDE, 2025).

Os impactos também atingem a saúde física, especialmente pelo uso contínuo da voz, um dos principais instrumentos de trabalho dos docentes. De acordo com um estudo publicado nos Cadernos de Saúde Pública, com dados coletados entre 2015 e 2016, 20,5% dos professores brasileiros da educação básica entrevistados relataram dificuldades no exercício da docência decorrentes de problemas vocais (SANTOS et al., 2019). A necessidade de falar por longos períodos, muitas vezes em ambientes ruidosos, evidencia a importância de condições adequadas para preservar a saúde desses profissionais.

A dimensão do problema também aparece nos dados mais recentes da TALIS 2024, segundo os quais 16% dos professores brasileiros pesquisados afirmaram que o trabalho prejudicava muito sua saúde mental, enquanto 12% relataram impactos negativos intensos sobre a saúde física, proporções superiores às médias da OCDE, de 10% e 8%, respectivamente (OCDE, 2025). Esses resultados reforçam que o adoecimento relacionado ao trabalho docente não deve ser tratado apenas como uma questão individual, mas também como um desafio para as políticas públicas, que precisam assegurar condições de trabalho saudáveis, medidas de prevenção e apoio aos profissionais da educação.

 

Os desafios da valorização docente em Minas Gerais

As desigualdades enfrentadas pelos professores também apresentam particularidades regionais, tornando importante observar a realidade de Minas Gerais. Segundo o Relatório do 5º Ciclo de Monitoramento das Metas do PNE, em 2023, o rendimento médio dos profissionais do magistério público mineiro correspondia a 84,5% do rendimento dos demais trabalhadores com nível superior completo no estado (INEP, 2024). Além disso, dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2026 mostram que 54,9% dos docentes da rede estadual mineira possuíam contratos temporários em 2025, evidenciando a persistência dos desafios relacionados à estabilidade profissional (TODOS PELA EDUCAÇÃO, 2026).

Por outro lado, o estado também apresenta iniciativas voltadas à valorização da categoria. Em 2025, Minas Gerais aprovou um reajuste de 5,26% nos vencimentos das carreiras da educação básica e abriu concurso público com 13.795 vagas para diferentes cargos da rede estadual, com nomeações realizadas ao longo de 2026 (MINAS GERAIS, 2025; MINAS GERAIS, 2026). Essas medidas representam avanços importantes, especialmente para a ampliação do quadro efetivo, embora seus resultados de longo prazo ainda dependam da continuidade das nomeações, da melhoria das condições de trabalho e da consolidação de políticas de carreira.

Avanços e perspectivas das políticas de valorização docente

Apesar das dificuldades apresentadas, a valorização docente tem recebido maior atenção na formulação de políticas públicas nos últimos anos. Um exemplo é o programa Mais Professores para o Brasil, lançado pelo Ministério da Educação em janeiro de 2025, que reúne iniciativas voltadas à formação, ao ingresso e à permanência dos profissionais na carreira. Entre suas ações, destaca-se o Pé-de-Meia Licenciaturas, que oferece um incentivo mensal de R$ 1.050 a estudantes elegíveis de cursos presenciais de licenciatura, sendo R$ 700 disponibilizados durante a graduação e R$ 350 destinados a uma poupança, cujo resgate depende do ingresso na docência pública após a conclusão do curso (BRASIL, 2026).

O programa também contempla a Prova Nacional Docente, destinada a apoiar os processos de seleção de professores pelas redes de ensino, e a Bolsa Mais Professores, que prevê incentivos financeiros e formação continuada para docentes que atuem em localidades e áreas com carência de profissionais. Essas medidas buscam enfrentar dificuldades relacionadas à atratividade da carreira, à formação inicial e à distribuição de professores pelo território nacional. Embora representem avanços, ainda é necessário acompanhar sua implementação e avaliar seus resultados, especialmente quanto à capacidade de ampliar o ingresso e a permanência na profissão (TODOS PELA EDUCAÇÃO, 2025).

A existência dessas iniciativas demonstra que a valorização docente não está ausente da agenda pública brasileira. Entretanto, para que produzam mudanças duradouras, é fundamental que estejam articuladas a políticas de remuneração, estabilidade, infraestrutura escolar e proteção à saúde, contemplando tanto os futuros professores quanto aqueles que já atuam nas redes de ensino. É necessário também que sejam duradouras, estáveis e previsíveis: políticas educacionais estruturantes tendem a gerar resultados apenas em prazos mais longos e previsíveis; no caso, a valorização tem que ser significativa e se sustentar por tempo suficiente para mudar a percepção de futuros estudantes qualificados e de altas expectativas, atraindo-os para a carreira docente e mudando a composição, o prestígio e a motivação dos profissionais da educação básica.

 

Valorização docente como política pública de enfrentamento das desigualdades

Se a educação pública é constantemente apontada como caminho para enfrentar as profundas desigualdades sociais brasileiras, essa promessa precisa estar acompanhada da valorização daqueles que sustentam a escola cotidianamente. Os avanços nas políticas educacionais demonstram que esforços importantes vêm sendo realizados, mas os dados sobre remuneração, vínculos empregatícios e saúde dos professores evidenciam que ainda existem desafios significativos para garantir condições adequadas ao exercício da profissão. O gráfico 1, abaixo, deixa claro este ponto. De forma geral, atualmente, os alunos em piores condições socioeconômicas da rede estadual de Minas Gerais – e, no restante do Brasil, esta realidade se repete, em maior ou menor grau – frequentam escolas em que o corpo docente não apresenta formação totalmente adequada para a atividade que exercem, enquanto o contrário acontece com os alunos em melhores condições.

Gráfico 2: Média da adequação docente, rede estadual (MG)

Por isso, reduzir desigualdades exige consolidar a valorização docente como política pública estruturante. Isso passa pela continuidade dos avanços salariais e pelo fortalecimento dos planos de carreira, aliados a concursos públicos que assegurem estabilidade e continuidade pedagógica nas redes de ensino. Da mesma forma, é fundamental garantir apoio institucional, infraestrutura escolar adequada e formação continuada compatível com a rotina docente, além de medidas permanentes de prevenção e proteção à saúde dos educadores.

Em última análise, lutar por salários dignos, estabilidade e condições saudáveis de trabalho não significa apenas defender os interesses de uma categoria profissional, mas também fortalecer o direito da população a uma educação pública de qualidade. A pesquisa TALIS 2024 revela que apenas 14% dos professores brasileiros pesquisados consideravam sua profissão valorizada pela sociedade, demonstrando que o reconhecimento social ainda precisa acompanhar os avanços institucionais (OCDE, 2025). Assim, mais do que celebrar a importância dos professores no dia 15 de outubro, é necessário reconhecer as conquistas alcançadas, enfrentar os problemas que permanecem e fortalecer as políticas públicas capazes de construir uma educação mais justa e igualitária.

Referências Bibliográficas:

ALVES, Fabiana de Assis; RABELO, Rachel Pereira. Atendimento do piso do magistério nas redes públicas: uma análise a partir dos dados do Censo da Educação Básica e da Rais. Cadernos de Estudos e Pesquisas em Políticas Educacionais, Brasília, v. 10, p. 251-278, 2024.
BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Relatório do 5º ciclo de monitoramento das metas do Plano Nacional de Educação – 2024. 2. ed. Brasília, DF: Inep, 2024. Disponível em: https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/plano_nacional_de_educacao/relatorio_do_quinto_ciclo_de_monitoramento_das_metas_do_plano_nacional_de_educacao.pdf. Acesso em: 19 out. 2026.
BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Balanço técnico do Plano Nacional de Educação (2014–2024). Brasília, DF: Inep, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/gestao-do-conhecimento-e-estudos-educacionais/estudos-educacionais/balanco-tecnico-do-plano-nacional-de-educacao. Acesso em: 19 out. 2026.
MAIS professores: o programa diante da falta de incentivos. Nexo Jornal, 18 jan. 2025. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2025/01/18/programa-mais-professores-2025. Acesso em: 19 out. 2026.
ORGANIZAÇÃO PARA A COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO (OCDE). Results from TALIS 2024: Country Notes – Brazil. Paris: OECD Publishing, 2025. Disponível em: https://www.oecd.org/en/publications/results-from-talis-2024-country-notes_e127f9e2-en/brazil_1e93d3b5-en.html. Acesso em: 19 out. 2026.
SANTOS, Stephanie Mayra de Moraes; MAIA, Emanuella Gomes; CLARO, Rafael Moreira; MEDEIROS, Adriane Mesquita de. Limitação do uso da voz na docência e a prática de atividade física no lazer: Estudo Educatel, Brasil, 2015/2016. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 35, supl. 1, 2019.
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