Ciência e gênero: a desigualdade ainda persiste
Março: o mês das mulheres
Março é um mês especial para refletirmos sobre a luta das mulheres por direitos e igualdade. O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, teve origem no início do século XX, em meio a movimentos por melhores condições de trabalho e pelo direito ao voto. Com o tempo, a data se consolidou como um marco na luta por equidade de gênero, lembrando conquistas e denunciando desafios que ainda persistem.
Um desses desafios está na ciência, um campo historicamente dominado por homens. Apesar das contribuições fundamentais de cientistas como Marie Curie, Rosalind Franklin e Bertha Lutz, as mulheres ainda enfrentam barreiras, desde a falta de incentivo na infância até a desigualdade salarial e o baixo reconhecimento profissional. Essa disparidade, evidentemente, não se deve à falta de competência, mas sim a estruturas sociais que dificultam a ascensão feminina no meio científico.
Imagem: Sociedade Brasileira de Radioterapia
Neste artigo, o Observatório das Desigualdades vai explorar a participação das mulheres na ciência, os obstáculos que elas enfrentam e as iniciativas que buscam promover a equidade nesse campo. Afinal, construir um ambiente científico mais diverso e inclusivo é essencial para o avanço do conhecimento e para uma sociedade mais justa.
As mulheres na ciência: Panorama global
A participação feminina na ciência ainda enfrenta desafios significativos ao redor do mundo. De acordo com a UNESCO (2024), as mulheres são responsáveis por apenas um terço das pesquisas científicas globais. Entre 1996 e 2021, 147 países apresentaram pesquisas conduzidas por mulheres, mas, anualmente, menos de 90 nações relatam tais dados, representando menos da metade do total mundial. Além disso, quase metade dos países da Ásia e das Américas não disponibilizaram informações sobre a presença feminina na ciência desde 2012.
Embora o percentual de produção científica feminina tenha aumentado ligeiramente de 30% em 2017 para 31,8% em 2021, a simples quantificação da participação não reflete a realidade das dificuldades enfrentadas pelas mulheres na área.
Ainda nesse sentido, a pesquisa realizada pela UNESCO (2024) também apresentou evidentes desigualdades regionais quando se trata de mulheres na ciência:
Fonte: The Gender Gap in Science (UNESCO
Essa desigualdade também se reflete na educação e nas oportunidades para estudantes. Segundo o Educa+Brasil (2025), 11 de fevereiro foi instituído pela UNESCO como o Dia Internacional das Mulheres na Ciência em 2015, em reconhecimento às desigualdades persistentes. Atualmente, apenas 33% dos pesquisadores no mundo são mulheres, e apenas 35% dos estudantes das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática pertencem ao sexo feminino. Além da presença limitada nas ciências exatas e engenharias, as taxas de evasão dessas alunas são consideravelmente altas.
O panorama das mulheres na ciência no Brasil
No Brasil, o entendimento da desigualdade de gênero na ciência passa pela necessidade de produção de indicadores sociais. A divulgação de informações, por si só, já representa uma forma de política pública. No entanto, ainda existem dificuldades para realizar recortes de gênero e raça na análise da produção científica nacional.
Apesar do crescimento na formação de doutoras, a progressão na carreira acadêmica continua desafiadora. Embora as mulheres representem 54% dos doutores, apenas 42% ocupam cargos docentes, sendo minoria na docência da pós-graduação em 66% das áreas. As ciências exatas e engenharias são as áreas com menor representação feminina. Em muitas disciplinas, observa-se um fenômeno de perda de contingente feminino, em que o número de doutoras é superior ao de docentes. Por exemplo, nas Ciências Agrárias, 51% dos doutores são mulheres, mas apenas 26% delas ocupam cargos permanentes. Na Economia, esse percentual é de 37% entre as doutoras e 20% entre as docentes. Na Medicina, 61% das doutoras são mulheres, enquanto apenas 45% delas se tornam professoras.
A divisão sexual do trabalho científico é evidente ao se observar que as mulheres representam apenas 26% dos doutores em Astronomia e Física, enquanto são 86% na Enfermagem.
Fonte: Grupo dos Estudos Multidisciplinares na Ação Afirmativa
Comparação entre a titulação e a docência feminina nas diferentes áreas do conhecimento
Fonte: Grupo dos Estudos Multidisciplinares na Ação Afirmativa
Os gráficos acima, embora não seja por si só uma demonstração das dificuldades enfrentadas pelas mulheres, é um bom indício de problemas persistentes: a divisão sexual do trabalho e os obstáculos para a docência feminina. Os dados corroboram com o que já é conhecimento público, as Ciências da Saúde, muito frequentemente relacionadas com o trabalho de cuidado, são um ambiente predominantemente feminino, enquanto as Ciências Exatas e as Engenharias afastam as mulheres tanto da pós-graduação quanto da docência. É evidente que este fenômeno é uma consequência dos padrões culturais que existem na sociedade e se perpetuam por meio do machismo estrutural, segregando a participação das mulheres nas tarefas de cuidado e de menor prestígio..
Além disso, trata-se de uma realidade de quase todas as áreas, com exceção da Linguística, Letras e Artes, a discrepância entre mulheres tituladas de doutorado e professoras permanentes. Esse dado escancara os obstáculos que existem para pesquisadoras atingirem a docência e têm como consequência um dado alarmante: 54% dos titulados em doutorado são mulheres, enquanto 58% dos professores permanentes são homens, segundo o GEMAA (Grupo dos Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa, 2023). De acordo com a Associação “Gênero e Número” (2023), esse fenômeno pode ser chamado de “efeito tesoura” uma vez que as mulheres vão sendo cortadas paulatinamente das oportunidades de ascensão profissional.
As cientistas encontram diversos obstáculos para manter a carreira ou ascender a posições de liderança. Entre 2005 e 2020, as barreiras para a docência feminina diminuíram, mas ainda são consideráveis. A presença de professoras e doutoras é mais expressiva em disciplinas como enfermagem, serviço social, nutrição, educação, psicologia e saúde coletiva, enquanto as áreas de astronomia, física, ciências da computação, filosofia, engenharias e matemática são marcadas por uma menor presença feminina.
Além disso, é possível observar uma sub-representação feminina em praticamente todas as áreas do conhecimento. Uma vez que a grande maioria dos pontos do gráfico se encontram abaixo da diagonal que representa a igualdade entre a titulação de doutorado e o exercício da docência, é possível concluir que existem barreiras para esse exercício entre as mulheres. Embora seja diferente para determinadas áreas do conhecimento, o chamado “efeito tesoura” está presente mesmo nas áreas de maior representatividade feminina.
Políticas Afirmativas
Atualmente, existem poucas políticas públicas que visam reduzir o impacto da maternidade na carreira acadêmica. A inclusão da maternidade no Currículo Lattes foi um avanço para os mecanismos de coleta de dados para pesquisa, o reconhecimento do direito à extensão da vigência de bolsas de pós-graduação e de prazo de titulação também foi uma conquista importante. No entanto, ainda não há uma forma de mensurar o impacto da responsabilidade com o cuidado dos familiares nos critérios de avaliação acadêmica e poucas iniciativas de promoção da participação das mulheres em áreas ainda hostis a elas. Algumas iniciativas, como a pontuação especial para mulheres que foram mães na UFF (Universidade Federal Fluminense) e na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), e o edital especial para cientistas mulheres da FAPERJ (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro), são passos iniciais para corrigir essas desigualdades, mas ainda há muito a ser feito.
Necessidade de ação
Diante desse cenário, fica evidente que a desigualdade de gênero na ciência não é apenas um reflexo do passado, mas uma realidade que ainda impacta profundamente o presente. As barreiras enfrentadas pelas mulheres, desde a falta de incentivo na infância até as dificuldades de ascensão na carreira acadêmica, demonstram a necessidade urgente de mudanças estruturais. Não basta apenas aumentar o número de pesquisadoras; é fundamental garantir condições equitativas para que elas permaneçam e prosperem no meio científico.
Conforme trazido pela Associação “Gênero e Número” (2023), apenas trazer dados estatísticos é insuficiente quando se tem o objetivo de transformar uma realidade. É necessário pesquisar as diferentes dimensões sociais que um problema possui, elaborando indicadores capazes de mensurar os efeitos das ações de enfrentamento e nortear uma política multidisciplinar que visa a transformação social. A adoção de políticas públicas mais eficazes, o fortalecimento de programas de inclusão e o reconhecimento das múltiplas jornadas que muitas mulheres enfrentam são passos essenciais para reduzir essa desigualdade. Além disso, é necessário promover um ambiente acadêmico e profissional mais acolhedor, que valorize a diversidade.
Garantir a equidade na ciência não é apenas uma questão de justiça social, mas uma necessidade para o avanço do conhecimento. Quanto mais vozes, perspectivas e experiências forem incorporadas ao meio científico, mais rica e inovadora será a produção de saberes. O futuro da ciência precisa ser plural, e isso só será possível se enfrentarmos, com seriedade e compromisso, as desigualdades que ainda persistem.
Referências bibliográficas
BRASIL, E. M. Educa Mais Brasil – Bolsas de Estudo de até 85% para Faculdades – Graduação e Pós-graduação. Disponível em: <https://www.educamaisbrasil.com.br/educacao/carreira/mulheres-na-ciencia-estatisticas-mostram-que-a-desigualdade-persiste>. Acesso em: 10 mar. 2025.
Dados de participação das mulheres na ciência | gemaa. Disponível em: <https://gemaa.iesp.uerj.br/infografico/participacao-de-mulheres-na-ciencia/>. Acesso em: 10 mar. 2025
Desigualdades de gênero na ciência brasileira. Disponível em: <https://www.generonumero.media/artigos/desigualdades-genero-ciencia-brasileira/> Acesso em: 10 mar. 2025.
UNESCO. The gender gap in science. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000374514. Acesso em: 10 mar. 2025..
Autores: Bruno Lazzarotti, Clarice Miranda e Miguel Coelho
